Comunicado

Bom dia, caros companheiros do Fórum LPC
Dado que a vida de todos ainda não está estabilizada e que as reuniões presenciais também são difíceis e as reuniões online se estão a tornar maçadoras e não têm tido grande adesão por parte muitos, vimos- um grupo de quatro pessoas da coordenadora-  fazer um apelo para que se faça um esforço  para participarem na próxima reunião,  tendo em vista a discussão da proposta que a seguir enviamos e que visa a realização de um III Fórum LPC, em moldes que se adaptem aos tempos de pandemia.  Como estava previsto, em especial pelo Amândio, o tema geral deste Fórum seria à volta de Paulo Freire.Esta nossa reunião em princípio será online a não ser que as coisas melhorem significativamente até lá e será no dia 15 de Julho, às 18.00.
Assim sendo,  eis a nossa proposta para o III Fórum, a realizar em 13 de Novembro, no Camões, em linhas gerais , faltando indicar as actividades da sala e convidados, sendo que de manhã reuniria o grupo alargado que se debruçaria sobre o futuro do Forum,  incluindo a organização do IV Forum em 2022 (Homenagem ao Amândio) e de tarde 3 ou 4 intervenções com debate e momento cultural.Haveria também  Exposições montadas no espaço que for possível ocupar (por causa das obras).Durante as primeiras três semanas do mês de julho o programa e convidados deveriam  estar fechados para se iniciar a divulgação e ter material programático concreto para pedir reunião na CML para a 4ª semana de julho.
Este III Fórum poderá ser presencial e online, tendo em vista os contactos com o Brasil.
10-12:00 –  Grupo alargado12:30- 14:00-  Almoço convívio (várias possibilidades)14:30: 17:30 – Temas em debate18:00-19.00 – Momento Cultural e  encerramento (conclusões)
Exemplo de  possíveis contactos:  Ana Benavente, Instituto Paulo Feire SP outros…se for isso o decidido.

Mário Moutinho

Moema Silva

João Jaime Pires

Guadalupe Portelinha

A democracia não pode ser um faz-de-conta

Nas sociedades mais desenvolvidas, assiste-se a um aceleramento da digitalização de todas as dimensões da vida dos cidadãos. A pandemia contribuiu enormemente para esta revolução digital. Mas vem aí mais. A capacidade de tratar milhões de informações através dos novos métodos de inteligência artificial e os avanços na área da automatização permitirão o controlo – e, em muitos casos, a manipulação – das pessoas de modo nunca visto.

A nova era digital acarreta inúmeros desafios, e até ameaças, para a democracia. Pense-se, por exemplo, no papel dos robôs na multiplicação da propaganda, das notícias falsas e na criação de câmaras de eco, que dão a impressão de apoios políticos massivos a uns, e constroem à sua volta todo o tipo de ilusões, de par com o assédio dos outros, os oponentes, com milhares de mensagens hostis provenientes de falsos perfis. Mas o aspeto mais imediato diz respeito à participação no ato eleitoral. Se um cidadão pode pagar os seus impostos ou renovar o seu documento de identidade sentado à mesa da cozinha, por que razão não lhe é permitido votar por ligação informática, também a partir de casa? Ir a um local de voto, passar por amontoados de pessoas, fazer fila e perder tempo parecem ser procedimentos de outros tempos, por muito que gente como Donald Trump tente descredibilizar o voto eletrónico.

Já nesta semana, os franceses lançaram mais uma acha para o debate. A taxa de abstenção nas eleições regionais atingiu um nível recorde. Dois terços não votaram. Pior ainda, cerca de nove em cada dez dos jovens dos 18-24 anos não estiveram para a maçada. Os analistas ficaram perplexos. Ao discorrer sobre as razões de tamanha indiferença, caíram no mesmo simplismo que Marine Le Pen, Jean-Luc Mélenchon e outras personalidades políticas já tinham mostrado na noite eleitoral – a culpa seria dos cidadãos, que acharam que o incómodo não valia a pena. E lançaram brados aos céus, para lamentar que uma tendência assim poderia levar à morte da democracia.

Tudo isso é conversa de televisão. As pessoas – sobretudo os jovens – não votam porque a maioria da classe política não lhes diz nada, não os inspira, não tem ideias novas, é apenas mais do mesmo, com sobranceria a mais e ética a menos. É isso que se passa em França e noutros países europeus. A principal ameaça contra a democracia não vem da apatia dos cidadãos. Essa é a consequência. A causa está a montante, nos partidos políticos – há sempre exceções – que em geral mais não são do que um clube de oportunistas ou de fanáticos, iluminados por visões curtas.

A questão da democracia também faz parte da agenda da reunião do Conselho Europeu, que está a decorrer desde ontem e que marca o termo da presidência portuguesa. A grande interrogação, que já vem de longe e até agora sem resposta, é o que fazer perante a governação autoritária que é atualmente praticada na Hungria e na Polónia. Os dirigentes nestes dois países há muito que violam sistematicamente o artigo 2.º do Tratado da União Europeia, que define os valores fundamentais em que assenta a UE – liberdade, democracia, separação de poderes e direitos humanos. A falta de resposta adequada a estas violações é outra acha para a fogueira que vai consumindo a confiança dos cidadãos na democracia e nos políticos.

Menos falado, mas igualmente importante para a vitalidade da democracia, é ter-se um sistema de administração de justiça capaz e independente dos políticos. Os cidadãos precisam de ter confiança no funcionamento célere e eficiente dos tribunais, como meios de defesa dos seus direitos e de correção das injustiças. Na era do “totalitarismo digital” isso é ainda mais essencial. Nos Estados membros onde a justiça é lenta, mal apetrechada e ineficiente, temos um problema quase tão grave como o autoritarismo que existe noutros horizontes. Esses Estados têm uma democracia coxa. Deveriam igualmente ser tema de crítica no Conselho Europeu. Sem justiça eficaz, a democracia é uma ilusão. E os cidadãos, como o mostraram agora os franceses, já não se deixam iludir tão facilmente.

Victor Ângelo, Diário de Notícias, 25 de Junho de 2021

Pessoa de bem, mas…

O programa Vistos Gold, que tanta tinta tem feito correr e que a UE se preparava para encerrar em toda a sua zona, pode voltar a ser reativado neste pós-hecatombe-

Quase no rescaldo da grande pandemia Covid-19, que ficará na lembrança dos que a viveram e nos livros como um dos grandes flagelos naturais da História da Humanidade, os países viram-se agora (ainda mais) sobre si mesmos e sobre as suas economias.

As reflexões, que começaram já a suceder-se, vieram colocar a nu diversas fragilidades, quer a nível sanitário quer a nível económico.

No que se refere a Portugal, apanhado em plena “Idade de Ouro do Turismo” ficou evidente que a aposta num só setor económico, e suas áreas “colaterais”, é um enorme risco.

Urge pois encontrar caminhos que não tenham apenas a “bazuca” europeia como bengala económica.

A imigração não é apenas feita de deslocados em busca de refúgio, de requerentes de asilo ou de migrantes económicos! É também feita de investidores.

O programa Vistos Gold, que tanta tinta tem feito correr e que a UE se preparava para encerrar em toda a sua zona, pode voltar a ser reativado neste pós-hecatombe.

É um facto, e contra tal não existem argumentos, que uma parte do capital tem proveniência duvidosa. Mas isso é razão, não para acabar com o incentivo ao investimento, mas para redobrar os sistemas de controlo e de partilha de informação entre os diferentes países.

Independentemente das questões de fundo que o mesmo comporta (e são muitas) há três aspetos que não se podem escamotear e que implicam responsabilidade para o Estado e sua administração.

Em primeiro lugar, é indiscutível que contribuíram em muito para o boom do turismo, sobretudo nas duas grandes cidades: Lisboa e Porto. Com aspetos negativos sem dúvida, mas não é disso que se trata neste momento, antes sim de assumir o papel que tiveram na dinamização do setor turístico.

Tratou-se dum programa criado, dinamizado e legislado pelo Estado português. Como tal, vincula-o às expetativas criadas junto dos investidores.

Finalmente, para os mais distraídos, volto a repetir que não se trata dum programa exclusivo do nosso país, mas sim duma prática que existe em diversos países europeus (aqui ao lado, na vizinha Espanha, para não ir mais longe) e um pouco por todo o mundo.

A questão que neste momento se coloca é a do incumprimento do Estado da sua parte do acordo.

Com efeito, para os que já possuem as suas Autorizações de Residência com base no programa Golden Visa, o problema da falta de resposta administrativa para a sua renovação, foi remetido para o final do ano, mercê das decisões, muito acertadas, que abrangeram todos os que possuíam títulos de residência e outros documentos que entretanto caducaram durante a pandemia.

Ficou porém um “black spot”, que começa a criar bastante mal estar e ameaça tomar proporções desagradáveis.

Muitos destes investidores, já com os seus processos deferidos, não podem usufruir do que lhes foi prometido pelo Estado (sobretudo mobilidade), porque não conseguem que lhes sejam recolhidos os dados biométricos para constarem nos respetivos cartões.

Trata-se dos que ainda aguardam há cerca dum ano a concessão do direito que, em bom rigor, já possuem.

Independentemente de tudo, o que é claro é que, da parte dos cidadãos estrangeiros, houve o cumprimento das normas estabelecidas pela legislação: apresentação documental exigida e… investimento feito! Outro tanto não se pode dizer da administração.

O resultado está à vista e é já do conhecimento generalizado: a existência duma espécie de “mercado negro” de marcações levado a cabo por gabinetes de advogados bem informados e que descredibiliza a administração e fomenta a corrupção.

Por outro lado, a movimentação entre os países de origem dos investidores e Portugal, mercê da Covid-19, que a todos confinou duma forma ou de outra, também não propicia a aceleração deste processo.

Ora, tratando-se apenas e só da recolha destes dados, havendo uma rede de consulados muitíssimo alargada e sendo este um programa conjunto entre MAI e MNE, a solução para tal poderia passar por aí, evitando o constrangimento do Estado Português ser visto como incumpridor das suas próprias normas.

Mesmo que, no futuro, hipoteticamente, se venha a acabar com tal programa (coisa que francamente após esta pandemia não creio que venha a acontecer) ou a reestruturá-lo, há que acautelar o cumprimento das expectativas criadas. Para além de que um tal estado de coisas afasta futuros investimentos.

Não seria de admirar se um destes dias alguns destes investidores acionassem processos judiciais, que ganhariam facilmente.

Se calhar valia a pena pensar nisto, não?

Visão, Manuela Niza Ribeiro, 16 de Junho de 2021

Clima indigesto e perigoso: as Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril

Os pronunciamentos políticos e as polémicas, que nos últimos dias ocupam o espaço noticioso e redes sociais, em torno das nomeações de Ana Paula Vitorino para um organismo regulador e de Pedro Adão e Silva como executivo das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, e das inadmissíveis informações dadas pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) a autoridades de outros países, misturam verdades com foguetório e chafurdice política.

Rola no ar uma nuvem, aparentemente sem nexo e sem programa, que de surpresa se pode abater sobre o país como dura tempestade.

O ato praticado pela CML merece pleno repúdio, uma investigação cuidada e apuramento pleno de responsabilidade. Rápida e serenamente há também que apurar se esta prática é um exclusivo desta Câmara. Quanto às nomeações, estamos perante situações distintas. O caso de Ana Paula Vitorino talvez não existisse se o Partido Socialista atuasse de forma menos autocentrada. Já as questões levantadas sobre a nomeação de Pedro Adão e Silva – insultado e achincalhado por formas miseráveis – são complexas e profundas.

Uma parte da Direita nunca digeriu o 25 de Abril. A Democracia permitiu-lhe espaço e foi conseguindo enquadrá-la, todavia, surgiram processos políticos que alteraram a situação. O avanço da extrema-direita e do fascismo permitiu que se fossem instalando no país forças com práticas organizativas e procedimentos muito ofensivos a partir do aproveitamento de défices democráticos, da manipulação ou falsidade de notícias, da exaltação das “virtudes” do autoritarismo, da diabolização de grupos de cidadãos, da glorificação do individualismo e da tribalização absoluta da política.

A nossa sociedade parece viver uma menor predisposição para o debate democrático. A pandemia veio acentuar este bloqueio e a comunicação social, onde proliferam comentadores cujo pensamento próprio é o disparate, a ignorância arrogante, ou a improvisação para parecer diferente, ajuda à “festa”.

A Direita foi, no seu todo, arrastada para posições da extrema-direita por razões bem evidentes: i) os saudosos do 24 de abril são parte de si; ii) o programa neoliberal puro e duro, a que se entregou, tem de aniquilar o Estado Social de Direito Democrático, os direitos laborais e sociais fundamentais e entregar o máximo possível das funções que este desempenha a negócios privados; iii) tal programa não é exequível em democracia, como já se constatou em múltiplos países e recentemente nos EUA e no Brasil; iv) a Direita necessita, assim, de alcandorar-se ao poder e só depois apresentar o seu programa.

O guião que a Direita segue passa por colocar o debate político no estado de terra queimada, de inculcar na opinião pública a ideia de que quem exerce cargos públicos é potencialmente corrupto e está lá para enriquecer, apesar de saber bem que não é por aí que se enriquece (exceção a meia dúzia de corruptos). Quanto mais avançar esta campanha mais se esgota a disponibilidade de pessoas sérias, e com sentido ético, para desempenharem cargos de governação ou de serviço público.

Precisamos mesmo de uma grande evocação dos 50 anos do 25 de Abril, que seja a festa merecida, a memória necessária, a revitalização da Democracia e o compromisso com amplos setores da sociedade que continuam pobres e despidos do direito a terem direitos.

Carvalho da Silva, Jornal de Notícias, 12 de Julho de 2021

Novo Episódio com Dulce Maria Cardoso

No dia 10 de junho, será lançado o episódio do podcast “Cruzamentos literários” com a escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso e a professora brasileira Rita Chaves.

Dulce Maria Cardoso (1964). Formada pela Faculdade de Direito de Lisboa, publicou, entre outros livros, os romances “Campo de sangue”, “Os meus sentimentos” (Prêmio da União Europeia para a Literatura), “O chão dos pardais” (Prémio PEN Clube Português e Prémio Ciranda), “O retorno” e “Eliete” (Prêmio Oceanos).

Acesso ao podcast no Spotify pelo link: bit.ly/cruzamentos_literarios

A iniciativa resulta de uma parceria entre o Camões – CCP Brasília, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Associação Oceanos. Integra a Programação Cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia e conta com o apoio da Embaixada de Portugal no Brasil.

DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a Embaixada de Portugal no Brasil, em articulação com o Camões – CCP em Brasília, convida para um concerto com o músico português António Zambujo, com participação de Gal Costa.

O Concerto fica disponível no canal Youtube Camões – CCP Brasília, no dia 10 de junho, e será transmitido pelas redes sociais da Embaixada de Portugal, rede consular e Camões no Brasil.

A iniciativa conta com o patrocínio da EDP Brasil, GALP Petrogal Brasil e ECB – Empresa Construtora Brasil / Grupo Mota-Engil.

A violência no Brasil e o pleno apoio da classe dominante ao miliciano ungido pela graça de Deus

Desde a Idade Média até a Revolução Francesa, um homem se tornava rei por meio de uma cerimônia religiosa na qual era ungido e consagrado pelo papa.

A cerimônia possuía quatro funções principais:

Em primeiro lugar, afirmar que rei é escolhido por uma graça divina, sendo rei pela graça de Deus, devendo representá-lo na Terra (ou seja, não representa os súditos, mas Deus).

Em segundo, que o rei é divinizado, passando a ter, além de seu corpo humano mortal, um corpo místico imortal, seu corpo político;

Em terceiro, que o rei é Pai da Justiça, isto é, sua vontade é lei (ou como diz o adágio: o que apraz ao rei tem força de lei);

Em quarto, que é Marido da Terra, isto é, o reino é seu patrimônio pessoal para fazer dele e nele o que quiser.

No dia 6 de janeiro de 2019 (ou seja, no Dia de Reis do calendário cristão), na Igreja Universal do Reino de Deus, o pastor Edir Macedo ungiu e consagrou o recém-empossado presidente da república, Jair Messias Bolsonaro, declarando que este foi escolhido por Deus para governar o Brasil.

Como Marido da Terra, Messias Bolsonaro está divinamente autorizado a devastar o meio ambiente; como Pai da Justiça, está divinamente autorizado a dominar o poder judiciário e a exterminar cidadãos por meio tanto de forças policiais como de grupos milicianos; e como corpo político imortal, está divinamente assegurado de que é indestrutível.

Da Amazônia devastada a Jacarezinho destroçada, passando pelos cemitérios, com 450 mil mortos, reina Messias Bolsonaro, presidente da república pela graça de Deus.

A maioria de seus críticos afirma que se trata de um sociopata ou um psicopata.

Essas designações, entretanto, pressupõem conhecimentos científicos que a maioria de nós não possui.

Por isso, penso que um conceito vindo da ética seja o mais acessível porque todos nós somos capazes de conhecê-lo e compreendê-lo: o conceito de crueldade, que a ética considera um dos vícios mais terríveis, pois é a forma máxima da violência.

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De acordo com os dicionários vernáculos, violência é:

1) tudo o que age usando a força para ir contra a natureza de algum ser (é desnaturar);

2) todo ato de força contra a espontaneidade, a vontade e a liberdade de alguém (é coagir, constranger, torturar, brutalizar);

3) todo ato que conspurca a natureza de alguém ou de alguma coisa valorizada positivamente por uma sociedade (é violar);

4) todo ato de transgressão contra aquelas coisas e ações que alguém ou uma sociedade definem como justas e como um direito (é espoliar ou a injustiça deliberada);

5) consequentemente, violência é um ato de brutalidade, sevícia e abuso físico e/ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão e pela intimidação, pelo medo e pelo terror.

A violência é a presença da ferocidade nas relações com o outro enquanto outro ou por ser um outro, sua manifestação mais evidente encontrando-se no genocídio e no apartheid.

Assim sendo, podemos indagar: haveria algo mais violento e mais cruel do que a fala emblemática do presidente da república – “E daí? Não sou coveiro” – justificando o descaso diante da morte de seus governados, a desmontagem do SUS em plena pandemia, os cortes das verbas para a saúde, a recusa da compra de vacinas, a defesa de algo potencialmente mortal como a cloroquina, o inominável auxílio emergencial de R$ 150,00, e a recusa de condenar as empresas que usam trabalho escravo, infantil e de idosos?

Haveria algo mais cruel do que, perante famílias enlutadas e mergulhadas na dor, fazer carreata de motocicletas no Rio de Janeiro, festejando a morte e o sofrimento alheios?

A maioria dos críticos de Messias Bolsonaro se refere às suas atitudes perante à pandemia com o termo “negacionismo”.

Embora não seja incorreto, me parece um termo muito suave para caracterizá-las, podendo ser tomado simplesmente como o gosto pela ignorância e pela estupidez.

Penso que iremos ao fundo dessa treva se designarmos suas atitudes e discursos como ódio ao pensamento. Por quê?

Porque a marca essencial do pensamento é a distinção entre o verdadeiro e o falso enquanto as falas de Messias Bolsonaro concretizam aquilo que Theodor Adorno denominou cinismo, isto é, a recusa deliberada de distinguir entre o verdadeiro e o falso, fazendo da mentira a arte de governar.

A exposição do cinismo está evidenciada a olho nu pela CPI do covid19 e pela inacreditável declaração presidencial de que as nações indígenas são responsáveis pelo desmatamento da Amazônia.

No caso específico da educação, esse ódio vem se exprimir na ideologia da Escola sem Partido, nas perseguições a professores e pesquisadores que levantam a voz contra a barbárie, nos cortes de verbas para a educação fundamental, para as universidades públicas e para as agências de fomento à pesquisa, cortes que são expressão política da frase, também emblemática, de Paulo Guedes: “os programas sociais dos governos anteriores permitiram que até o filho do porteiro fosse para a universidade”.

Podemos indagar por que a crueldade e o cinismo não são considerados por boa parte da população como o núcleo definidor da governança bolsonarista.

Ou por que, no caso da pandemia, seguindo os passos do governante, muitos não percebem a si mesmos como violentos ao recusar o isolamento social e o uso de máscara, tornando-se agentes potenciais da morte alheia, portanto, assassinos.

Podemos responder dizendo que Messias Bolsonaro e sua côrte podem exibir-se como crueldade ou violência nua porque, no Brasil, a existência da violência é negada no momento mesmo em que é exibida.

Refiro-me à produção de imagens da violência que ocultam a violência real e a procedimentos ideológicos que a dissimulam.

Comecemos pelas imagens usadas para falar na violência:

– fala-se em chacina e massacre para referir-se ao assassinato em massa de pessoas indefesas, como crianças, moradores de comunidades, encarcerados, indígenas, sem-terra, sem teto;

– fala-se em indistinção entre crime e polícia para referir-se à participação de forças policiais no crime organizado;

– fala-se em guerra civil tácita para referir-se ao movimento dos sem-terra, aos embates entre garimpeiros e índios, policiais e narcotraficantes, aos homicídios e furtos praticados em pequena e larga escala e para falar dos acidentes de trânsito;

– fala-se em vandalismo para referir-se a assaltos a lojas, mercados e bancos, a depredações de edifícios públicos e ao quebra-quebra de ônibus e trens do transporte coletivo;

– fala-se em fraqueza da sociedade civil para referir-se à ausência de entidades e organizações sociais que articulem demandas, reivindicações, críticas e fiscalização dos poderes públicos;

– fala-se em debilidade das instituições políticas para referir-se à corrupção nos três poderes da república;

– fala-se em desordem para indicar insegurança, ausência de tranquilidade e estabilidade, isto é, para referir-se à ação inesperada e inusitada de indivíduos e grupos que irrompem no espaço público desafiando sua ordem.

Essas imagens têm a função de oferecer uma imagem unificada da violência: chacina, massacre, vandalismo, guerra civil tácita, indistinção entre polícia e crime e desordem pretendem ser o lugar onde a violência se situa e se realiza; fraqueza da sociedade civil e debilidade das instituições políticas são apresentadas como impotentes para coibir a violência, que, portanto, estaria localizada noutro lugar e não nas próprias instituições sociais e políticas.

Ora, justamente porque se trata de uma imagem e não de um conceito, nela permanece oculta a própria origem da violência.

Passemos aos procedimentos ideológicos que a dissimulam:

– procedimento da exclusão: afirma-se que a nação brasileira é não-violenta e que, se houver violência, esta é praticada por gente que não faz parte da nação (mesmo que tenha nascido e viva no Brasil). Trata-se da diferença entre um nós-brasileiros-não-violentos e um eles-não-brasileiros-violentos;

– procedimento da distinção: distingue-se entre o essencial e o acidental, isto é, por essência, os brasileiros não são violentos e, portanto, a violência é acidental, um acontecimento efêmero, uma “onda”, uma “epidemia” ou um “surto” localizado na superfície de um tempo e de um espaço definidos;

– procedimento jurídico: a violência fica circunscrita ao campo da delinquência e da criminalidade, o crime sendo definido como ataque à propriedade privada (furto, roubo, depredação) seguido de assassinato (latrocínio).

Isso permite, por um lado, determinar quem são os “agentes violentos” (de modo geral, a classe trabalhadora e, nela, os negros) e, por outro, legitimar a ação policial contra a população pobre, os sem-terra, os negros, os indígenas, os moradores de rua, os favelados e afirmar que a existência de crianças sem infância decorre da “tendência natural dos pobres à criminalidade”;

– procedimento sociológico: fala-se em “onda” ou “surto” de violência como algo que acontece num momento definido do tempo, aquele no qual se realiza a “transição para a modernidade” das populações que migram do campo para a cidade e das regiões mais pobres para as mais ricas, causando o fenômeno temporário da anomia, no qual a perda das formas antigas de sociabilidade ainda não foram substituídas por novas, fazendo com que os migrantes pobres tendam a praticar atos isolados de violência que desaparecerão quando estiver completada a “transição”;

– procedimento da inversão do real: o machismo é considerado proteção à natural fragilidade feminina; o racismo, proteção contra a natural inferioridade dos negros, indígenas e orientais; a repressão contra os lgbtq+, proteção natural aos valores sagrados da família; a desigualdade salarial entre homens e mulheres, entre brancos e negros, indígenas, orientais como compreensão da superioridade natural dos homens brancos com relação aos demais humanos; a destruição do meio ambiente é propalada como prova de progresso e civilização; e assim por diante.

Conservando as marcas da sociedade colonial escravista e patrimonialista, a sociedade brasileira é marcada pelo predomínio do espaço privado sobre o público.

É fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece.

As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação de mando-obediência.

O outro jamais é reconhecido como sujeito, tanto no sentido ético quanto no sentido político, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade e muito menos como cidadão.

As relações, entre os que julgam iguais, são de “parentesco” ou “compadrio”, isto é, de cumplicidade; e, entre os que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação; e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão.

Podemos, portanto, falar em autoritarismo social como origem e forma da violência no Brasil.

Situação, agora, ampliada e agravada pela política neoliberal, que não faz senão aprofundar o encolhimento do espaço público dos direitos e o alargamento do espaço privado dos interesses do mercado ao desviar o fundo público, destinado aos direitos sociais, para financiar o capital, de tal maneira que tais direitos são privatizados ao serem transformados em serviços vendidos e comprados no mercado, aumentando exponencialmente a divisão social e a desigualdade das classes sociais.

Eis porque a pandemia expõe, para além de todo limite admissível, a ferida que consome nossa sociedade, isto é, realização da luta de classes pela polarização máxima entre a miséria absoluta das classes exploradas e a opulência absoluta da classe dominante (estupidamente imitada por uma parte da classe média), cujo poder não esconde seu próprio cinismo, que se exprime no pleno apoio ao governante coveiro, miliciano ungido e consagrado pela graça de Deus.

Marilena Chauí, A Terra é redonda, 3 de Julho de 2021