A Revolução atrás da lentes

19 DE ABRIL DE 2022 – 18H30
AUDITÓRIO DO MUSEU DO ALJUBE

Integrada no ciclo de conversas “As Artes da Revolução”, recebemos José Soudo para uma conversa sobre as fotografias mais emblemáticas do dia do 25 de Abril de 1974.

José Soudo nasceu em Lisboa, em 1950. É Fotógrafo, Investigador em História da Fotografia e Curador.
Grau de Mestre em Fotografia Aplicada.
Grau de Especialista em Audiovisuais e Produção dos Media – Fotografia, obtido em Provas Públicas.
Docente de Fotografia desde 1982 e de História da Fotografia, desde 1986, no Curso de Fotografia do Departamento de Fotografia do Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual – Associação Cultural sem fins lucrativos, reconhecida pelo Governo Português como “Instituição de Utilidade Pública”.
Coordenador-Técnico com funções pedagógicas, do Departamento de Fotografia do Ar.Co, desde 1986 até 2016.
Sócio co-fundador, em 1982, da Galeria e do projeto de Animação Cultural em Fotografia, “Ether-Vale tudo menos tirar olhos”.
Associado desde 2019, da “Tira-Olhos – Associação de fotografia experimental”.
Membro da Comissão de Estudo para a recuperação da “Casa-Estúdio Carlos Relvas”, na Golegã, por nomeação do IPPAR, em junho de 1996.
Formador creditado, da Bolsa de Formadores do Cenjor – Centro Protocolar para Formação de Jornalistas Profissionais, em ações de formação para jornalistas, nas áreas da Fotografia e do Fotojornalismo e da História da Fotografia e do Fotojornalismo, desde 1992.
Docente na Licenciatura do CSF – Curso Superior de Fotografia, da Escola Superior de Tecnologia do IPT – Instituto Politécnico de Tomar, de 2002 até 2016. Foi Diretor da Licenciatura em Fotografia da ESTT/IPT no ano de 2015 e co-fundador do referido Curso em 1995.
Membro da Comissão Executiva do CEFGA – Centro de Estudos em Fotografia da Golegã, nos anos de 2008 e 2009.
Enquanto fotógrafo, está representado em diversas coleções oficiais e particulares, quer em Portugal quer no estrangeiro e também através de livros e publicações diversas, assim como em trabalhos coletivos com outros artistas visuais.

Entrada Livre. Sujeita à lotação da sala.
Inscrições para: inscricoes@museudoaljube.pt

A Liberdade passa por aqui!

No âmbito das comemorações do 48º aniversário do 25 de Abril o Museu do Aljube e Abril na Rua – EGEAC, com curadoria de Luís Varatojo, propõem um programa de atividades com o objetivo de promover essa participação, nos dias 23 e 24 de Abril, a partir das 16h.

O quarto andar da antiga prisão, onde em tempos se torturavam presos políticos, é agora um espaço de convívio e liberdade; há uma pista de dança com música de intervenção selecionada por quatro músicos, acompanhados por ilustração digital ao vivo e três murais – escrita, desenho e colagem – onde o público é convidado a deixar o seu contributo em forma de arte.

Novas palavras, novas imagens, novas ideias, o que foi e o que é a revolução 48 anos depois.

Programa
DJ SET
Dia 23 Luís Varatojo, DIDI
Dia 24 Surma, Tó Trips

ILUSTRAÇÃO DIGITAL AO VIVO CRISTINA VIANA

MURAIS
ESCRITA Hugo Gonçalves
DESENHO Nuno Saraiva
COLAGEM Inês Vieira da Silva

Evento com entrada livre. Sujeita à lotação da sala.
Biografias
LUIS VARATOJO, músico e produtor, inicia a sua carreira musical no final dos anos 80 com a banda de punk rock, PESTE & SIDA, com a qual gravou quatro álbuns. Em meados da década de 90 cria o heterónimo DESPE E SIGA, onde se dedica a sonoridades mais quentes como o reggae e o ska. Foi também fundador, com João Aguardela (Sitiados), do projeto de eletrónica e poesia, LINHA DA FRENTE. Da parceria com Aguardela nasce A NAIFA (2004-2014), banda que explorou os caminhos do fado e da nova poesia portuguesa, e que editou cinco álbuns. Em 2015 forma o projeto FANDANGO, com Gabriel Gomes (ex-Madredeus), onde experimenta o diálogo entre a guitarra portuguesa e o acordeão num contexto eletrónico. Em 2021 cria a LUTA LIVRE, um projeto musicalmente eclético, em que as sonoridades do jazz e do rock servem de base instrumental a um discurso poético claramente interventivo. Paralelamente, desde 2009, dedica-se também ao trabalho de conceção e direção artística de vários eventos e espetáculos.

Di Candido aka DIDI, corpe afrocúir em trânsito por Brasil, UK e Portugal, trabalha, persiste e resiste por meio da investigação, produção cultural e performance como DJ, cantore e artista visual/multidisciplinar. Idealizadore da unidade criativa em forma de festa Bee. The United Kingdom of Beeshas (bee_lx) com as Damas, DIDI conversa com coletivos, artistas e fazedores de sua diáspora em projetos culturais e indústria criativa, na produção e atuação direta com festas e coletivos como Afropunk, Batekoo, V de Viadão, UNA, Bloco Colombina Clandestina, Baile Brabo, Afrontosas, BlackPride Uk, dentre outres. Seu percurso dialoga com temas relacionades à (re) territorialização coletiva, identidades, ativismo e performance antirracista, na produção cultural e artística cúir, negre e imigrante em diáspora por Portugal. Em seu trabalho, DIDI conecta-se aos mais variados ritmos e manifestações artísticas afrodiaspóricas, por meio expressões sonoras e de movimento, do samba enredo ao afoxé, do baile funk ao house, do r&b 90/00 ao afrobeat.

SURMA sozinha em palco e rodeada de mais de uma dezena de instrumentos, desafia constantemente as fronteiras da música num universo tão peculiar como apaixonante. Com um álbum aclamado nacional e internacionalmente, “Antwerpen”, atuou em 17 países, desde a Europa à China, passando por América do Norte e do Sul e foi colecionando nomeações, prémios e distinções.
Faz ainda concertos para bebés, bandas sonoras para cinema (como a do filme “SNU”), colaborou com dezenas de artistas e lançou, em 2019, um EP com as suas primeiras composições enquanto Surma.
Entre 2020 e 2021, prepara o seu segundo longa-duração e cria bandas sonoras para cinema e teatro. Em 2022 vai regressar com um novo disco.

TÓ TRIPS, nascido em Lisboa 1966 no castelo, estudou na António Arroio na segunda metade dos 80’s. Cavalo de Fogo, guitarrista, gráfico, ilustrador, marceneiro, jardineiro, fã de bandas e amante da liberdade! Músico, compositor desde os 80’s.
80´s: Amen Sacristi; 90’s: Santa Gasolina em teu ventre, Lulu Blind, The Tysons, Hifi Jô; séc. XXI: Dead Combo, Timespine, Club Makumba, Solo

CRISTINA VIANA, natural de Lagos. Vive e trabalha entre Évora e Lisboa, essencialmente na área da ilustração, onde participa e desenvolve projectos de variadas naturezas, como ilustração digital ao vivo (RAIA, RGBitches, Baile Tropicante), retratos (Má Cara), montras e murais, cartazes e comunicação gráfica de eventos (SHE, Pointlist, Ilga) e animação para curtas e videoclips (Contos Não Tão Solitários, Luta Livre, Duarte).

HUGO GONÇALVES é autor dos romances O Maior Espetáculo do Mundo, O Coração dos Homens, Enquanto Lisboa Arde o Rio de Janeiro Pega Fogo, O Caçador do Verão, Filho da Mãe (finalista dos prémios PEN Clube e Fernando Namora) e Deus Pátria Família. Coautor e guionista das séries televisivas País Irmão (RTP) e Até que a Vida nos Separe (Netflix), foi correspondente de diversas publicações portuguesas em Nova Iorque, Madrid e Rio de Janeiro, cidade onde trabalhou como editor literário.

INÊS VIEIRA DA SILVA, licenciada em Design de Comunicação pela Escola Superior de Tecnologias e Artes de Lisboa, Mestre em Arte Multimedia Audiovisual pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Designer e (também) professsora da disciplina de Projeto e Tecnologias do Curso de Design de Comunicação da Escola Artística António Arroio.

Uma pedra para a Ucrânia

Estamos no século XXI!

Como é possível tanta atrocidade e ódio entre os humanos?

Esqueceram-se que a matéria é apenas uma viagem num intervalo da escola primária?

As balas atravessam-nos o corpo, dilacerem-nos a alma enquanto a matéria profunda continua o seu caminho. Loucos estes humanos que se pensam libertos da viagem.

Entendam que os corpos são a mais bela poesia de um intervalo cósmico onde a união das energias se agregou num instantâneo lapso fugaz, momento de descanso desta transição orbital e cosmológica. Aproveitem bem o recreio e deixem a matéria amar-se, não se desfragmentem por favor!

Ernesto Matos, Abril, 2022

IVº Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: notícias

A reunião da Comissão Organizadora do Fórum Liberdade e Pensamento Crítico, reunida no dia 23 de Março, decidiu avançar com um programa provisório para o IVª Fórum , a ter lugar
no dia 23 de Julho, na Escola Secundária Camões, em Lisboa. O evento será iniciado às 9h 30min e finalizado às 19h 45 m, com um grande concerto para o qual serão convidados nomes como Vitorino,
Luanda Cozetti, Luís Caracol, Luca Argel e outros. Para assegurar o espectáculo, ficou decidido pedir à Câmara Municipal de Lisboa os seguintes apoios de material: palco pequeno e grande
(eventualmente); aparelhagem de som; som para duas salas e ginásio; cadeiras, vasos de
plantas.


Estão já previstas as seguintes atividades

  1. A manhã será preenchida com os debates em sala com duas salas a funcionar em simultâneo. Os temas bordados seriam a guerra e paz; refugiados; ecologia, ambiente, clima; pandemia e saúde mental.
    Serão quatro debates, dois em cada sala. As salas funcionariam em dois turnos para cada uma das salas: 10.15-12.00; 12.15-13.45.
  2. A tarde estará reservada as atividades culturais com com a sala da poesia/teatro, sala de crianças, exposições e concerto. Estão previstas duas exposições, uma sobre a questão da Informação/Desinformação e outra de trabalhos dos alunos da Escola António Arroio.

Para aprofundar os detalhes do evento, está convocada uma nova reunião para o dia dia 5 de Abril, às 18.30 na Escola Secundária Camões, sendo que o foco principal desta reunião será a tarde cultural e o elaboração da divulgação do evento, nomeadamente o cartaz e demais formas de propaganda.

As lições da Tonecas

Uns sapatos para o Natal, pediu a Leonor ao pai, e este, durante meses, amealhou dia-a-dia para lhe satisfazer o desejo. Firmino Ferreira ganhava pouco, era um modesto empregado num armazém de vinhos no Ginjal, mas foi amealhando o que pôde para os sapatos da filha e, dias antes do Natal, 19 de Dezembro de 1938, chamou a mulher, deu-lhe o dinheiro, disse-lhe para ir com a Leonor às sapatarias da Baixa, na Lisboa da outra margem.

Na véspera desse dia, junto a Santa Apolónia, afundara-se um rebocador, o Sagres I, de 40 toneladas. E no próprio dia 19 outro acidente no Tejo: o rebocador Pátria, da Sociedade Ítalo-Portuguesa, abalroou a lancha a motor D. Elisa, da Cooperativa de Catraeiros do Porto de Lisboa, que fazia o percurso Belém-Porto Brandão com 30 passageiros a bordo, que não ganharam para o susto mas conseguiram ser levados até terra firme. No rio, de resto, havia memória de outros desastres, alguns bastante mais graves, como o ocorrido a 24 de Dezembro de 1886, quando o navio francês Ville de Victoria, que fazia escala em Lisboa com destino ao Brasil, sofreu o embate de um couraçado inglês, o Sultan, navio equipado com 38 canhões de várias toneladas e oito metralhadoras, que se soltou das amarras e andou perigosamente à deriva Tejo acima. O Ville de Victoria afundou-se em 10 minutos e, na confusão instalada entre os passageiros, muitos dos quais se encontravam já a dormir, a tragédia fez 35 vítimas, entre elas oito portugueses.

Tonecas era uma lancha, uma lancha a motor de 21 toneladas, construída no Seixal para a Empresa de Transportes Tejo, L.da, cujo sócio gerente, Adriano Garcia, tinha dois filhos, o António e o José, de modo que uma das embarcações ficou Tonecas e a outra, igualzinha à primeira, se chamou Zecas (na imprensa da época ainda houve quem confundisse a Zecas com outro nome, Manecas, mas não era verdade). Com capacidade para 285 passageiros, a Tonecas fazia o percurso entre o Cais das Colunas e Cacilhas, muitas vezes em carreiras a preços reduzidos, como aquela que, no final de segunda-feira, 19 de Dezembro de 1938, pelas 19 horas, saiu rumo à outra margem entre a fragata D. Fernando e a Caldeirinha do Arsenal, onde hoje passeiam turistas. Aos comandos estava mestre Emídio Olívio Lopes, por mestre Carlos Silva, o “Mata Oito”, se encontrar de folga para baptizar um filho. Seguiam também na tripulação o maquinista António Diogo Figueiras e os marinheiros António Germano, o “Mano António” (ou “António Algarvio”) e Fernando Cardoso, o “Marinha Grande”. A bordo, pessoas de poucas posses, no máximo remediadas, empregados de comércio ou dos escritórios da Baixa, costureiras que tinham ido a Lisboa buscar ou entregar os seus lavores, soldados e operários, gente de 3.ª classe.

Ainda hoje não se sabe ao certo o que aconteceu. A Finalamarina, uma draga de sucção vinda da Cova do Vapor, onde tinha ido carregar areia para a construção do entreposto de Santa Apolónia, abalroou com violência a Tonecas. Durante anos, pensou-se que tinha sido a Tonecas que, ao virar a estibordo, suscitara o desastre, mas o jornalista Victor Aparício, numa aturada investigação ao sucedido (Tonecas – A Tragédia que Enlutou Almada, CM de Almada, 1988), sustentou tese contrária, argumentando que a vítima foi a Tonecas, que ainda tentou escapar ao embate da draga, mas sem êxito. Causada pelo choque, levantou-se uma grande onda de água e não tardou que a lancha se afundasse, à ré, erguendo a proa, para onde se refugiou grande quantidade de pessoas. Depois, o caos. A nuvem de fumo escapada da casa das máquinas impediu que muitos se orientassem, outros lançaram-se em desespero sobre as águas gélidas, morrendo afogados de frio. Ao fim de dois, três minutos, a Tonecas mergulhou por completo, levando consigo muitas pessoas presas no seu interior, entre elas António Germano, “Mano António”, filho de pescadores de Olhão, cujo cadáver seria descoberto ainda agarrado aos comandos da embarcação.

Acorreram vários navios ao sinistro, chamados pelo marinheiro n.º 91, Alfredo da Silva, que estava em serviço no Arsenal da Marinha, e até um porta-aviões sueco, o Gotlande, deu a sua ajuda aos trabalhos, apontando os holofotes para o local da tragédia, enviando vedetas para socorrer os náufragos. Nos salvamentos, destacou-se pela galhardia o Almadense, da Parceria de Vapores Lisbonenses, comandado por mestre Joaquim Petinga, bem como a marinhagem da fragata D. Fernando e o pessoal da Zecas, que logo disparou do Cais das Colunas para acudir ao irmão gémeo em apuros.

No Terreiro do Paço, um guarda fiscal de serviço deu o alarme e, logo depois, foi comunicar o ocorrido à esquadra de polícia mais próxima. Do Beato, da Ajuda, de Campo de Ourique, as corporações de Voluntários acudiram com prontidão. Alertou-se a Polícia Cívica, a Liga dos Hospitais e os Sapadores, liderados pelo capitão Marques. Os trabalhos seriam suspensos às 11 da noite, hora em que os homens da Polícia Marítima – o subchefe Fernandes e os agentes Serras e Moura, Ginja e Arnaldo – já tinham rastreado os salvados: três bilhas de leite, cobertores, botas e bonés, casacos de homem, uma caneta de tinta permanente, uma mala com medicamentos, uma pele de raposa, sobretudos e xailes, uma factura que no verso tinha anotado o número 45902 e o nome de Isaura Ferreira. E, num embrulho, uns sapatinhos de criança – eram para a Leonor, presente de Natal do pai.

Há dúvidas quanto ao número dos mortos e desaparecidos (o corpo de um deles, Fernando Cardoso, o “Marinha Grande”, cobrador da Tonecas, só daria à costa um mês depois, na Praia da Assenta, Ericeira). Na época, disse-se que a lancha transportava cerca de 90 almas, mas as contas de Victor Aparício apontam para 82 passageiros, com 53 sobreviventes e 29 vítimas mortais, de que resultaram 35 órfãos e 10 viúvas, pelo menos. Durante a noite da tragédia, e sobretudo na manhã seguinte, logo de madrugada, acorreu a Cacilhas um mar de gente, vinda de Mutela, de Almada, do Pragal e depois de mais longe, Seixal, Paio Pires, Charneca da Caparica, Vale Figueira, até de Sesimbra e Setúbal, na ânsia de notícias sobre familiares ou amigos. No café Estrela do Sul, que ainda hoje existe, o correspondente de O Século afixou fotografias de feridos e sobreviventes internados em Lisboa, no Hospital de São José, para que se soubesse que estavam vivos. O presidente da Câmara de Almada, tenente-coronel António Baptista de Carvalho, convocou autoridades e colectividades e, na tarde de dia 20, reuniram-se, sob a presidência do governador civil do distrito, Dr. António Barreiros Cardoso, a directora do Asilo 28 de Maio, o juiz da comarca, o delegado do Ministério Público, o pároco de Almada, o comandante da GNR, os comandantes dos Voluntários de Cacilhas e de Almada, o delegado de saúde, o veterinário municipal, os presidentes de junta da região, representantes da Misericórdia, da lendária Incrível e da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense. O Dr. Carvalho Serra, dos Voluntários de Cacilhas, ofereceu 100 escudos, todo o dinheiro que a corporação poderia dispor no momento, sendo este o primeiro passo de uma subscrição pública que permitiu a construção de diversas casas para as famílias das vítimas, naquele que viria a ser conhecido por Bairro das Vítimas do Tonecas ou, para outros, Bairro das Viúvas do Tonecas. E foram muitas, de facto, as famílias desamparadas: a mulher e os sete filhos de Bernardino Daniel, sapateiro e clarinetista amador na Incrível; os seis filhos de António Pedrosa, um descarregador de mar e terra, casado com uma operária da cortiça; os quatro filhos e a mãe epilética de Capitolina Lopes, uma mulher açoriana, peixeira, moradora nos Caranguejais; a mulher e as duas crianças de um comerciante da Cova da Piedade.

Como sempre sucede, houve imbecis de serviço, que se passearam pelo centro de Cacilhas contando histórias mirabolantes apenas para chamarem a atenção para as suas pessoas. E, também como sempre, a sorte e o acaso foram decisivos: Luísa Vitoriana dos Santos, “Emira Coração”, casada com Guilherme Coração, sapateiro, poeta popular e fadista de fama, verificou não ter dinheiro na carteira no preciso instante em que ia entrar na embarcação fatídica e decidiu esperar pela próxima, onde a deixariam viajar à borla, salvando-se por um triz. João Rodrigues Mirco e esposa, por seu turno, perderam a Tonecas por questão de minutos e Francisco Bentes da Silva e António Pereira de Oliveira, quando iam a entrar para o barco, optaram no último instante por fazer uma patuscada em Lisboa, escapando assim ao desastre. O caso mais desconcertante, até com laivos de humor, aconteceu a João Fernandes, um homem de 56 anos que fora a Lisboa levantar certa importância ganha na lotaria. Com o dinheiro no bolso, sentindo-se rico, decidiu que nessa noite não iria pernoitar a casa, ainda que se desconheça, mas adivinhe, o poiso em que ficou. Na manhã seguinte, a sua esposa, D. Lívia, julgando-o morto na tragédia, foi até Cacilhas, mas, como ninguém o tinha avistado, regressou a casa desesperada, na camioneta de carreira, onde descobriu o marido, todo vivaz e contente, sentado no banco da frente.

O rol dos mortos e dos sobrevivos é quase um tratado de sociologia: um funcionário do Banco Espírito Santo, em Lisboa, que vinha a casa jantar para depois regressar ao banco, para serão nocturno; um polidor de móveis do Pragal, de 20 anos, que se salvou agarrando-se a duas bilhas de leite; Almerinda de Jesus, costureira, que fazia fatos de ganga para uma loja de Lisboa; António da Costa, tanoeiro, inscrito na Cooperativa de Tanoeiros de Almada; Boaventura Lourenço, ajudante da Farmácia Magalhães, que tinha ido a Lisboa buscar medicamentos; um popular comerciante da Cova da Piedade, António Hermógenes Ferreira, cuja filha completava nesse dia três anos; o barbeiro Cândido Cortez, da Barbearia Cortez, de seu tio, espanhol natural de Mérida; um soldado da Artilharia da Costa, Clarimundo Augusto, de 21 anos, que sobreviveu e se tornou exímio jogador de damas; Cláudio Gonçalves, empregado numa loja de ferragens da Rua dos Fanqueiros; Eugénio Castanheira, boletineiro-ciclista nos CTT da Praça do Comércio; José Ribeiro, figura popular em Almada, pois, além de relojoeiro no Ministério da Marinha, era guarda-redes do União Sport Club; José da Silva Costa, sindicalista da oposição, que já tinha estado preso no Aljube às ordens da PVDE; a aprendiza de costureira Natalina de Almeida; Plágio Moreira, de 14 anos, vendedor ambulante de bolos, com freguesia entre os operários das fábricas de cortiça; Viriato Pereira, que andava de burro a vender fruta e legumes nos velhos bairros de Lisboa e que, com a morte do burro, se tornou funileiro ambulante. E Leonor Filipe Ferreira, de 11 anos, cujos sapatos, novos e a estrear, seu pai foi buscar ao posto da Polícia Marítima.

Na burocracia do trágico, o comandante da Polícia Marítima abriu inquérito e elaborou relatório, que remeteu ao chefe de Departamento Marítimo do Centro, capitão-de-mar-e-guerra D. Carlos de Sousa Coutinho, que por sua vez o enviou à Direcção-Geral da Armada, para que aí se decidisse se o processo deveria ser julgado ora no tribunal marítimo, ora no criminal. Nem um nem outro alguma vez se pronunciaram sobre o que quer que fosse e o caso morreu ali, foi esquecido e nada mais se soube, apurou ou julgou. Os papéis arquivados acabariam por ir parar ao Instituto Hidrográfico, onde, ou não estivéssemos em Portugal, viriam a ser destruídos num incêndio ali ocorrido em Fevereiro de 1969. Jamais se apuraram responsabilidades e culpas e, pior do que isso, as vítimas ou os seus familiares nunca receberam quaisquer indemnizações, valendo-lhes tão-só esparsas acções de caridade, ocasionais e efémeras.

À distância de quase um século, talvez consigamos aprender-lhe a lição, ou lições da Tonecas, e ver melhor o que de essencial ocorreu nesse dia, algo que terá escapado aos que então viveram sob o clamor da tragédia e os gritos das viúvas. E ali, naquele acidente do Tejo, com uma trintena de vítimas, o que de essencial vemos hoje é, antes e acima de tudo, o povo pobre de um país pobre, então governado em ditadura, gente miúda e calada à qual não foi dado um cêntimo de ressarcimento, nem público nem privado. É certo que sempre haverá desastres como aquele, até com gente rica e poderosa, lembre-se o Titanic, mas poucos terão desfecho tão injusto e tão revoltante como este da Tonecas, pois se outras fossem as vítimas a bordo, mais abastadas e mais influentes, tudo seria diferente, mesmo no Portugal dos anos 30. Não se pense, porém, que foi coisa portuguesa e passada, própria de ditadura, pois ainda esta semana, enquanto milhões sofriam na Ucrânia, o Sr. Abramovich, um português nado e criado na sinagoga do Porto, fez deslizar impunemente dois dos seus iates, bem maiores do que a Tonecas, para águas turcas e turvas, mais aptas aos seus intentos. Caso tanto mais inexplicável e inconcebível quanto sobre ele impendem graves sanções, publicitadas com alarido, e que outros pilantras como ele já tiveram barcos aprisionados. Como pôde o majestoso Solaris sair tranquilamente de Barcelona, passar pelo Montenegro (que aceitou as sanções da UE), andar às voltas pelo Mediterrâneo e desaguar na Turquia? O que esperam as autoridades italianas para aprisionar o Xerazade, ancorado na Toscânia?

Perante um escândalo destes, e perante escândalos destes acumulados em décadas – os vistos gold e as offshores, as cumplicidades corruptas que levaram à dependência energética da Alemanha, os oligarcas instalados em Londres e na Riviera, as empresas ocidentais que agora arranjam desculpas esfarrapadas para se manterem na Rússia, a influência de Putin no Brexit, em Trump e em Bolsonaro, na extrema-direita europeia -, perante tudo isto, dizia-se, confrange e desespera que muita da nossa esquerda, dita ademais “radical”, persista e teime no erro de atacar o “imperialismo” da NATO, a América liberal de Joe Biden, a Europa por fim unida. Não contente com a estupidez da votação no OE e com a sova apanhada das legislativas (o BE passou de 19 para 5 deputados, o PCP perdeu metade do grupo parlamentar), há muita esquerda que, por cegueira ideológica, atávico antiamericanismo ou fidelidades inconfessáveis, se esquece da compaixão pelos mais fracos, sejam as vítimas da Ucrânia, sejam os oprimidos da Rússia, e, com extrema desumanidade, parece mais apostada em fazer-nos esquecer o essencial que ora ocorre. E o essencial que ora ocorre é isto, só isto: a Rússia, uma ditadura, invadiu a Ucrânia, uma democracia, ou em vias de sê-lo. Não adianta lateralizar com “sim, mas a NATO…” ou lançar cortinas de fumo com os neonazis e o Batalhão Azov: no ranking da Freedom House, ainda há pouco publicado, a Rússia é definida como um “regime autoritário consolidado”, com uma percentagem de democracia de 7% e uma percentagem de liberdades cívicas de 19%, ao nível do Burundi ou do Congo. Números aterradores. A Ucrânia, em contraste, é um “regime em transição para a democracia”, com uma percentagem de democracia de 39% e uma percentagem de liberdades de 61%. Mais ainda, o relatório da Freedom House assinala – e especifica – as muitas “reformas positivas” verificadas no país desde a queda de Yanukovich, pró-russo, em 2014.

A Rússia é uma ditadura, a Ucrânia uma democracia. Zelensky não será um democrata perfeito, mas é milhões de vezes melhor que Putin (quem duvidar, um livro arrasador, O Novo Czar. A Ascensão e o Reinado de Vladimir Putin, de Steven Lee Myers, das Edições 70, onde está tudo: a barbárie das guerras, a destruição das liberdades, as trafulhices dos siloviki, o absoluto desprezo pelo povo comum, os assassinatos de jornalistas e opositores; em 2008, no Caso Magnitsky, chegou a julgar-se um morto, liquidado na prisão, chamando a mãe a depor, coisa nunca vista nem nos tempos de Estaline!). Ora, até pelo facto de a Ucrânia não ser uma democracia perfeita, longe disso, é que temos de a ajudar, para que não caia em derivas autoritárias e em vendettas sanguinárias, sobretudo no pós-guerra. Se nada fizermos, a breve trecho será enorme o ressentimento de Kiev contra nós, já havendo sinais disso em muitas intervenções de Zelensky. Há também risco de o antieuropeísmo alastrar às frágeis democracias do Leste, muitas das quais enamoradas de Putin (v. g., Bulgária). Em parte, é um rancor com razão: pusemo-nos à mercê do gás de Moscovo, deixámos a Ucrânia cair aos pedaços, agora a Alemanha militariza-se à pressa (decisão que compromete o ideal de uma política de defesa europeia comum) e ainda teimamos em não perceber que aquela guerra também é nossa, pois nela morre-se pela liberdade, o que implica fazermos sacrifícios no nosso modo de vida, coisa que não gostamos. Foi lamentável ver que no Ocidente consumista e comodista, passada a fase das manifestações de ternura, ao primeiro sinal de aperto logo se ergueram agricultores da França, camionistas, cidadãos agitados com os aumentos dos preços, intelectuais saudosos pelos ballets do Bolshoi.

A todos, pelos vistos, é preciso recordar o essencial: (1) a Rússia é uma ditadura, a Ucrânia uma democracia; (2) foi a Rússia que invadiu a Ucrânia, não a Ucrânia que invadiu a Rússia; (3) queiramos ou não, estamos em guerra, como nunca estivemos desde 1939-1945. O resto, os nazis Machados, a “paz” do PC, os generais bestiais (literalmente), são coisas que poderemos e deveremos discutir, mas que não são o essencial. Na Tonecas salvou-se quem teve a calma e o norte, talvez um pouco de sorte. Os outros foram ao fundo.

António Araújo, Diário de Notícias, 27 de Março de 2022

25 de Abril: superamos os anos de ditadura com anos de liberdade


Passam hoje (23 de março 2022) exatamente 17 499 dias sobre o dia 25 de Abril de 1974; tantos
quantos os que decorrem entre 28 de Maio de 1926 – data do golpe de Estado que terminou com a I
República – e o 25 de Abril de 1974, data da revolução que terminou com o regime fascista do
Estado Novo.
Foram quase 48 anos de vigência de um regime autoritário, antiparlamentar, antidemocrático e
colonialista. Foi o maior período autocrático na Europa Ocidental durante o século XX. Os últimos
13 anos foram marcados por uma dura guerra anacrónica, pela manutenção das colónias
portuguesas no mundo, em que Portugal resistia, “orgulhosamente só”, aos avanços da democracia
e da autodeterminação e independência dos povos colonizados.
Durante a longa noite salazarista, muitos movimentos, partidos e democratas sem filiação lutaram
contra o regime, muitos hipotecando a liberdade e a própria vida. Um desses movimentos, a Acção
Socialista Portuguesa (ASP), foi fundado em Genebra, em Novembro de 1964, por Tito de Morais,
Francisco Ramos da Costa e Mário Soares. A ASP foi o embrião do futuro Partido Socialista,
fundado em Abril de 1973, um dos partidos fundadores da nossa democracia saída da Revolução
dos Cravos.
Após a revolução de abril de 1974, Portugal conheceu um período de grande euforia progressista
que, em poucos anos, mudou radicalmente a face do país. Os célebres 3 D – Descolonização,
Democratização e Desenvolvimento – foram o motor de uma transformação profunda da nossa
sociedade. A reposição dos direitos civis e políticos, bem como dos direitos económicos, sociais e
culturais permitiu que, ao longo destes quase 48 anos de democracia, Portugal deixasse de ser um
país isolado, autocrático e subdesenvolvido para passar a ser uma democracia estável,
consolidada, integrada na Europa comunitária e com uma voz que é ouvida nos grandes fóruns
internacionais.
Se é certo que em numerosos indicadores – socioeconómicos, da saúde, da educação, da cultura e
outros – temos ainda um longo caminho a percorrer para estarmos ao nível dos nossos parceiros
europeus, não é menos verdade que o balanço da democracia é inequivocamente positivo e que o
Portugal de hoje nada tem a ver com aquele que existiu durante os 48 anos de obscurantismo e
estagnação. Portugal celebra agora 48 anos de progresso e desenvolvimento.
Estamos certos do caminho a percorrer. Estamos no bom caminho. E que o dia de hoje seja o
primeiro de uma liberdade absoluta e definitiva para todos. O sucesso da democracia em Portugal
será o sucesso dos portugueses.
Lisboa, 23 de março de 2022
A Direção da Associação Tito de Morais

Festival de Arte Contemporânea

“ALL YOU NEED IS ART” – FESTIVAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA
CORDOARIA NACIONAL – LISBOA – DE 23 A 27 DE MARÇO
O “ALL YOU NEED IS ART” é um Festival de Arte Contemporânea que reúne diversos géneros de expressão artística. A inauguração está marcada para 19 horas do dia 23 de março, decorrendo até ao dia 27 de março na Cordoaria Nacional (Torreão Poente), em Lisboa, com a participação de mais de 40 artistas nacionais e internacionais. O principal objetivo do evento é promover a dinamização do meio artístico num momento em que os efeitos da pós-pandemia já se fazem notar.
Além de celebrar a reabertura do mercado das artes, mostrando obras de artistas consagrados e dando também aos emergentes a oportunidade de afirmar o seu talento, o Festival presta homenagem a dois grandes vultos deste universo: o Mestre Artur Bual (1926-1999), pintor de referência, e o galerista Nuno Lima de Carvalho (1932-2019), que apoiou diversos artistas no séc. XX. Ambos são figuras reconhecidas pelo contributo dado às Artes Plásticas em Portugal.
Ana Ferreira, Alice Deserto, Andrea Schioppi, Antonio Sem, Arlinda Mestre, Deise Dias Carvalheiro, Felipe Assuf, Helena Aboim, Haude Bernabe, Isabel Pronto, José Freire, José Wanzeller, Ju Reino da Costa, Marcia Dias, Marco Estrella, Marco Monteiro, Maria Luisa Horta, Mario Ilha, Mazeredo, Mimi Bastos, Moises Preto Paulo, Pedro Chartes d’Azevedo, Renato Rodyner, Ricardo Laires, Rogério Timóteo, São Mathias Nunes, Toia Neupart e Xana Boarotto são alguns dos artistas, com presença já confirmada, que terão os seus trabalhos expostos nos mais de 40 stands preparados para o Festival. Embora o destaque seja para a pintura e escultura, o “ALL YOU NEED IS ART” compreende também outras linguagens artísticas, como desenho, ilustração, fotografia, arquitetura e ainda música e dança (estas últimas representadas pela Escola Jazzy).
Estão previstas performances ao vivo ao longo dos cinco dias do Festival. O português Bruno Netto , convidado especial do evento, irá pintar um mural na entrada da Cordoaria, exaltando a própria criação artística. Esta é apenas uma das várias “surpresas” a apresentar durante o evento, que se pretende seja realizado num ambiente de alegre e produtiva confraternização entre artistas, agentes culturais e público.
Esta é a segunda edição do “ALL YOU NEED IS ART”, que se iniciou, com uma pequena dimensão, em fevereiro de 2020 na galeria Metizartis, em Cascais. Devido à pandemia, não foi possível dar-lhe continuidade em 2021. O evento volta em 2022 com dimensão alargada e a intenção de se tornar uma marco anual no calendário da cultura portuguesa.
O Festival é organizado pela produtora Metizartis, em parceria com a Renato Rodyner Gallery, e tem como curadora a galerista e marchand Elsa Flores. Poderá ser visitado na Cordoaria Nacional (Torreão Ponte), Avenida da Índia, 1300-598, Lisboa, de 23 a 27 de março, de quarta a sexta-feira das 14h30 e as 21h e aos sábados e domingos das 11h às 21h.
Contatos Divulgação:
Moema Silva – tlm. 965804027 /email: silva.moema@gmail.com
Conceição Carvalho – tlm. 962518188/ email: carvalho.conceicao53@gmail.com

O mundo ao contrário

Marina Ovsiannikova, jornalista da Televisão Estatal Russa protesta em directo contra a Guerra na Ucrânia KIRA YARMYSH/TWITTER

A guerra tolda o discernimento. Vale tudo do lado do agressor… ou julga que vale tudo. A prova disso é que agora é a Rússia, liderada por Putin, que impõe sanções a Joe Biden, o presidente dos Estados Unidos da América. Mas não só, as sanções são extensíveis a Antony Blinken, secretário de Estado, e a outras instituições americanas. A informação foi veiculada pelo ministério das Relações exteriores da Rússia.

É sabido que, tantas vezes, nas relações políticas, económicas ou até culturais os estados invocam o princípio da reciprocidade. Conhecemos bem o termo, inclusive no diálogo entre os países que compõem a CPLP – Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa. Algumas vezes, mesmo usando a mesma língua de Camões, conseguem desentender-se, o que é uma pena e perda de tempo para todos os povos irmãos. Mas, voltando à Rússia, neste caso invocar o princípio da reciprocidade soa apenas a ridículo. Veja-se o argumento: “Em resposta a uma série de sanções sem precedentes, a partir de 15 de março, a lista de proibições russa inclui, com base na reciprocidade, o presidente, J.Biden; o secretário de Estado, A.Blinken; o secretário da Defesa, L.Austin ;e o presidente do Estado Maior Conjunto, M.Miley, bem como vários chefes de departamento e figuras americanas conhecidas”, lê-se na nota do governo de Putin que, curiosamente, se limita a usar iniciais para listas os nomes dos visados. E não será um desleixo de escrita e comunicação, certamente.

A Rússia de Putin continua a achar que ainda vai conseguir convencer o mundo de que não está a ver o mesmo mundo ao contrário?

Numa ação concertada, ontem partiram para Kiev vários líderes europeus. Os primeiros-ministros da Polónia, República Checa e Eslovénia marcaram encontro com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e o primeiro-ministro, Denyz Shmyhai. Uma tentativa de demonstrar a Putin e ao mundo que é “inequívoco o apoio de toda a União Europeia (UE) à soberania e independência da Ucrânia e apresentar um pacote de ajuda abrangente”, declarou o porta-voz do governo polaco, Piotr Müller.

Numa altura em que a NATO observa a guerra, que vai avançando em direção às suas fronteiras, a União Europeia tenta, com jeitinho, dizer basta. Será suficiente?

Se a comunidade internacional tivesse sido muito mais firme na condenação de Putin perante a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 o face ao recente reconhecimento das duas províncias independentistas da Ucrânia (exactamente, por onde começou a guerra), o líder russo não se auto convencesse de que poderia virar o mundo ao contrário e o mundo continuaria imóvel, apático.

Rosália Amorim, Diário de Notícias, 16 de Março de 2022

Até sempre

Caro Leitor, Cara Leitora

A jornada chegou ao fim. Seria bom ter corrido para entrar num comboio azul. Apanhar uma boleia que alegrasse o caminho com a sua buzina. Seria bom, ter fotografado abraços e choros de gente feliz. Ter visto os namorados a beijar-se sem vergonha. Os reencontros apertados das mulheres com os seus amados. As crianças a fazerem dos tijolos derrubados os seus castelos. As túlipas a forrarem o céu. A música, triste e alegre. E no altifalante da praça, o comunicado da esperança – os homens selaram o acordo com as mãos apertadas. Queria tudo isto. Queremos todos isto. Mas nada acontece. A guerra continua.

Atravessei a fronteira sempre com a sensação que devia inverter a marcha. Esta minha missão não me cansou nem um minuto. Que me perdoem os mais valentões, mas não sei a arte de manejar uma arma. Talvez saiba manejar uma máquina fotográfica. Talvez. O coração aperta quando olho pelo pequeno visor. A realidade fica ali, colada ao meu rosto. Tão presente. Tão triste. Mas é preciso relatar. Noticiar. Ser jornalista é das mais belas profissões. A beleza por vezes perseguida e dorida. Não queiram ler a almofada de um jornalista. Sonhos e pesadelos.

Peço desculpa por ter tantas vezes conjugado o verbo chorar. Não foi lapso linguístico. Foi pelas vidas ucranianas que passaram pelo meu teclado. Tudo o que vi não é passado. É presente. E futuro, que é o mais importante. Na pele, na roupa, na mochila, no cartão de memória. Ao passar a linha vermelha para a Polónia olhei para trás. Disse baixinho – até já! O homem que se queria aquecer, encontrou um lenço palestiniano no monte de roupa depositado no passeio. Enrolou-o no seu pescoço. Ficou protegido. Naquele pescoço fatigado vai outra guerra. É bom que não nos esqueçamos. O mundo tem muitas guerras. Nenhuma é boa. Nenhuma é justa. Nenhuma tem cor de pele. Todas terão que ter o seu altifalante na praça.

Obrigado a todos vós, seres humanos de paz. E quando os meus filhos tiverem filhos terei eu netos. Para esta parte da história não necessitarão de compêndios. Terão a perna do avô e a sua voz embargada. A memória crua e dura é necessária. Auschwitz é aqui tão perto e está tão perto.

Adriano Miranda, enviado do Jornal Público ao conflito na Ucrânia, 11 de Março de 2022