O Brasil caminha sobre brasas

Há muito que deixou de valer a pena avaliar Bolsonaro pela sua incoerência, pela demagogia, pela propensão para a mentira ou pela defesa de doutrinas autoritárias. Hoje, é mais judicioso julgá-lo pela sua incompetência estrutural e pela irresponsabilidade moral.

Seis substituições de ministros na maior remodelação em décadas, demissão em bloco dos chefes dos três ramos das Forças Armadas na maior crise militar desde a ditadura, aumento da influência do “centrão0” da promiscuidade política que Jair Bolsonaro tanto prometeu combater, uma pandemia que provocou a morte de mais de 310 mil brasileiros, o sistema nacional de saúde à beira do colapso, ou tendo mesmo desabado em grandes cidades, centenas de empresários e personalidades da economia mobilizados no pedido de uma estratégia de combate à covid-19 baseada na ciência… Só um grande país conseguiria resistir à ruína provocada pelo desvario do Presidente, Jair Bolsonaro, como o Brasil está a resistir. E é exactamente neste ponto que, entre a perplexidade e a indignação, a grande incógnita se põe: até quando podem aguentar as instituições, a economia e a sociedade brasileira este Governo demencial?

Há muito que deixou de valer a pena avaliar Bolsonaro pela sua incoerência, pela demagogia, pela propensão para a mentira ou pela defesa de doutrinas autoritárias. Hoje, é mais judicioso julgá-lo pela sua incompetência estrutural e pela irresponsabilidade moral. O desprezo pela vida humana que patenteou ao longo da pandemia é apenas a parte de um puzzle em que coincidem a ausência de carácter e a falta de visão. A demissão do seu ministro de Defesa por este se recusar submeter a instituição militar ao serviço dos desmandos do Presidente é apenas um sinal de que ele se vê como um cacique e não como um chefe de Estado. A abertura das portas a líderes políticos condenados no processo Lava-Jacto, que lhe serviu para iludir os brasileiros com uma promessa de regeneração do regime, é outra prova de que conceitos básicos como a decência, a coerência ou a verticalidade não existem no seu vocabulário.

O Brasil aguenta tudo isto em nome de uma história recente traumática e à custa de um estoicismo notável. Depois do roubo organizado do domínio público na era Lula, do impeachment imaginoso e farsante de Dilma e da miséria ética de Michel Temer, o Brasil espera que a normalidade institucional impeça a infecção das feridas abertas por Bolsonaro. Nada garante que assim seja. O Brasil confiante e orgulhoso afunda-se no “complexo do viralata” que Nelson Rodrigues verbalizou há 70 anos. A miséria alastra. Os políticos corruptos ganham espaço. A pandemia não dá tréguas. A Justiça perdeu-se na troca da lei pelo manto facínora da missão redentora. E os militares, que têm revelado distância e responsabilidade institucional, enervam-se.

O Brasil caminha sobre as brasas que Bolsonaro trata de avivar a cada momento. Todos os que amam esse país maravilhoso têm razões para estarem preocupados.

Manuel de Carvalho, Público, 31 de Março de 2021

Manife pelo civismo

Acompanhei com a máxima atenção, e o maior distanciamento possível, a “Manifestação pela liberdade” através da televisão, e sobretudo na Internet (PORQUE, JÁ SE SABE, OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO CORRUPTOS ESTÃO COMPRADOS PELO ESTADO PARA NOS FAZEREM ACREDITAR QUE EXISTE UMA PANDEMIA, MALDITO TELELIXO). Desculpem, o meu computador foi atacado por um vírus negacionista, que escreve sempre em caps lock.

Contava eu que, enquanto via aquelas pessoas a descer a Avenida da Liberdade, clamando por liberdade, tentava perceber por que raio leva duas mil pessoas (MAIS! MUITAS MAIS! ÉRAMOS PARA CIMA DE QUATRO MIL! A DESFILAR TODOS MUITO JUNTINHOS, EMBORA VOS CHAMEMOS REBANHO A VOCÊS, OVELHAS QUE ACREDITAM NO QUE VOS DIZEM OS MÉDICOS E SEGUEM RECOMENDAÇÕES DA DGS!), o que é que levará uma multidão a juntar-se para reclamar por uma coisa que já tem? Aproveitar a liberdade que têm para estar na rua a sentir o vento na cara, para gritarem aos sete ventos que não têm liberdade é como ir para a Portugália exigir uma ementa com mais bifes. Perguntar onde anda a Constituição, esquecendo que é lá que está consagrado o direito de manifestação? Se, à primeira vista, me pareceu chocante ver aquela mole humana a fazer tudo o que nos é pedido há 12 meses que não façamos, perante a passividade dos agentes da PSP, depois percebi que aquela era de facto a melhor forma de desmascarar os sem máscara. Perante malta que propaga (além de coronavírus) uma teoria da conspiração que diz que os governos opressores de todo o Mundo (estranhamente orquestrados) nos querem controlar, inserindo chips nos nossos braços quando formos levar a vacina, enquanto nos subtraem gradualmente todos os direitos, nada melhor do que deixá-los falar à vontade. Intervenção policial a exigir que dispersassem (como se nos discursos não dispersassem já quanto baste) seria mais um trunfo, mais uma prova cabal de como são uma voz inconveniente que urge silenciar, para juntar a um documentário de origem duvidosa partilhado no Facebook.

Lá estiveram eles, a discursar à vontade, durante uma tarde inteira, no centro de Lisboa… E quem diz discursar diz cantar, dançar, recitar poemas, receitar medicamentos homeopáticos, cozinhar tofu num grelhador portátil, fazer reiki, alinhar os chakras, dar à luz na fonte do Rossio, com o apoio de uma doula, leiloar perdidos e achados do Festival Boom, cuspir fogo (afinal não era preciso ter levado o barbecue), tocar flauta de pan, lançar búzios… Foram menos incomodados do que o cidadão que, também esta semana, foi apanhado em flagrante, a comer gomas na via pública. Nós, que observamos tudo isto, também questionamos as decisões que são tomadas. Vacinar professores, faz sentido? AstraZeneca é segura? Vendas ao postigo porquê? Público no estádio? Restaurantes só em abril? Sim, também estamos fartos. Também adorávamos que isto acabasse amanhã. Mais, que nem tivesse começado e que não passasse tudo de um sonho, um pesadelo plantado nas nossas cabeças pelo Bill Gates, através de avançada tecnologia 5G. No fundo estas pessoas seguem o caminho mais fácil. Numa era em que se fala tanto – demais – em sair da zona de conforto, esta malta está em contraciclo, e foi enfiar-se no sítio mais confortável do Mundo: um buraco de areia quentinha, onde enfiaram a cabeça. Não é por acaso que, quando temos um problema grave, os nossos amigos muitas vezes nos abanam e lembram “estás em negação”. Ou porque achamos que o casamento não acabou de verdade e ainda vamos reatar, ou porque juramos que não estamos viciados e conseguimos parar, quando quisermos, de consumir álcool, drogas ou aquelas gomas ácidas que são tão boas mas já nos valeram problemas com a Polícia. Os negacionistas ficaram encarcerados nesta fase, para sempre, e recusam ajuda. Vivem num mundo cor-de-rosa, em que até têm o direito especial de fazer uma espécie de festival de verão antes do tempo, e mesmo assim queixam-se. Em casa estão as pessoas cujos negócios faliram, pais e mães no desemprego, milhares em lay- off, miúdos que não têm escola a sério há um ano. À espera. Todos. Uns mais pacientes que outros. É como se estivéssemos enfiados numa gigantesca loja do cidadão, à espera de vez… Ainda vai demorar e não temos lugar sentado, mas não desistimos. Nisto, entram os manifestantes pela repartição adentro, tocando os seus djembés e fumando cachimbos da paz, passam-nos à frente na fila e ainda reclamam se ousarmos interpelá-los. Ainda por cima íamos ser simpáticos, e convidá-los para se juntarem no próximo sábado ao nosso protesto: manifestação pelo civismo.

Joana Marques, Jornal de Notícias, 29 de Março de 2021

“Liberalismo” ou negacionismo? Estupidez

Um ano depois da declaração da pandemia do novo coronavírus, a humanidade parece naturalmente cansada e ansiosa para voltar àquilo a que chamávamos “normalidade” – e que, na verdade, foi em parte causadora dessa mesma pandemia.

Entretanto, o facto de quase ninguém, nesse afã de retorno à “normalidade”, mostrar qualquer inquietação relativamente ao esgotamento do modelo de desenvolvimento tecnofinanceiro que se tornou global nas últimas quatro décadas faz-me perder a esperança no nosso futuro comum, pelo que não vou discuti-lo. O que talvez nos reste a cada um de nós é tentarmos manter a nossa sanidade e integridade individual, pelo menos para podermos dormir tranquilamente todas as noites.

O que pretendo abordar neste artigo é algo mais visceral e, por isso, profundamente revelador da natureza humana: a estupidez. Não, Nietzsche não tinha razão: não somos super-homens nem deuses. Ignorantes e tantas vezes boçais, somos apenas arrogantes. Caminhamos alegremente, assim, para a nossa própria destruição, pois somos incapazes de prevê-lo.

Não devemos, por conseguinte, espantar-nos com as crescentes manifestações, um pouco por todo o mundo, de bandos de “combatentes” pretensamente “libertários” e “antiditadura”, por causa das medidas anticovid que a esmagadora maioria dos estados tem sido forçada a tomar para impedir a generalização da pandemia. A esses bravos seres vociferantes, autoproclamados “liberais”, juntam-se os negacionistas antivacina, com receio, quem sabe, de se converterem em jacarés, como preveniu o des-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

O que ambos reivindicam? O direito de escolher os riscos que querem correr. Nada mais liberal, não? Falso. Isso não tem absolutamente nada que ver com liberalismo.

Precisamos de reler os pais do liberalismo, para lembrar o que eles ensinaram: a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro. No caso da atual pandemia, os riscos relacionados com a covid-19, mais do que individuais, são comunitários, ou seja, cada um que desrespeitar as cautelas recomendadas pelas autoridades sanitárias, com base nas informações científicas disponíveis, estará a colocar igualmente em risco os demais membros da comunidade.

Na verdade, esse falso liberalismo não passa de negacionismo. Isso não seria problema se os seus defensores não interagissem com o resto da população, o que não é o caso. Assim, é preciso dizê-lo preto no branco, sem tibiezas: todos aqueles que se recusam a observar as regras sanitárias estabelecidas para enfrentar o novo coronavírus e que continuam a interagir com os restantes cidadãos são potenciais assassinos.

O espantoso é que não faltam, em todo o mundo, exemplos de negacionistas e antivacinas entre os próprios profissionais de saúde.

Por tudo isso, é igualmente confrangedor assistir à maneira “panicada” (espero que o editor deixe passar este neologismo angolano) e caótica como certos governos lidam com os bravos negacionistas da covid-19. A recente atitude da União Europeia em relação à vacina da AstraZeneca-Oxford foi um exemplo clamoroso de cobardia e falta de liderança, que não abona a favor da organização.

A isso, é de juntar igualmente os chiliques de certos intelectuais contrários, por exemplo, ao passaporte covid, cartão de vacina anticovid ou seja lá qual for a designação que se der a algo que parece fundamental: um documento que comprove que o seu utente já foi vacinado contra esse vírus.

Mais uma vez, comprova-se que o ridículo mata. Neste caso, literalmente.

João Melo, JN, 23 de Março de 2021

O maior amigo do coronavírus é o egoísmo

Imaginemos que Portugal não tinha suspendido a vacina da AstraZeneca na segunda-feira à noite e morria uma pessoa. Pouco provável? A DGS e o Infarmed sabiam que havia um paciente de 60 anos internado nos cuidados intensivos do Hospital de São João, em estado muito grave, após ter tomado a vacina. Esperar pela Agência Europeia do Medicamento era a única via possível. Aumenta o medo? Não podemos ficar reféns dos extremistas.

Este caso do paciente “AstraZeneca” está a ser, aliás, extraordinariamente útil para percebermos os limites da absoluta histeria o processo. Como explicou na quinta-feira a Agência Europeia do Medicamento (EMA), não há um problema geral de efeitos secundários na administração da vacina. Pelo contrário, tomá-la é muitíssimo mais seguro que não tomar. Mas foi encontrada pelo menos um problema que merece estudo. No relatório divulgado, diz-se que parece haver uma ocorrência de cinco vezes mais casos de coagulação intravascular em pessoas com menos de 55 anos do que estatisticamente é normal.

No caso em concreto do paciente do Hospital de São João, o retrato não é igual ao da matriz analisado pela EMA. O paciente teve uma miopericardite há três anos e, apesar de curada, surgiu de novo. Duas hipóteses: teria acontecido na mesma, independentemente da vacina? Ou é um “evento adverso”, pós-AstraZeneca, e fará parte de uma estatística onde há até agora 469 efeitos tromboembólicos e nove mortes? Esta é uma das dúvidas do coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de São João, Roberto Roncon, quando explicou o caso ao Porto Canal.

Obviamente, quando estas coisas acontecem, há que estudar, reportar, fazer comparações. Faz parte da fase 4 da avaliação de uma vacina verificar reações. Quem não compreende este realismo, vai desejar um mundo ideal sem vírus ou risco – um delírio.

O paciente “AstraZeneca”, internado no Hospital de São João, ainda continua nos cuidados intensivos. O processo de vacinação vai ser retomado. E não sabemos se, com esta vacina ou com outra, podemos precisar de nova paragem. Ou até recuar. Mas só esta seriedade nos permite acreditar que, face a um problema novo, somos capazes de reagir sem medo de uma opinião pública crente num mundo biotecnologicamente perfeito.

Há milhões de anos que os vírus estão em mutação permanente. É a sua forma de sobrevivência. Se queremos “apanhar” o Sars-cov-2 para o “domesticar”, ou seja, sem nos criar efeitos graves, temos de ser muito rápidos e atuar em conjunto. É exatamente por isso que “a mais louca corrida do mundo por uma vacina” está totalmente condenada ao fracasso.

As primeiras epidemias “coronavírus” SARS e MERS, do início deste século, mostram que estas só não degeneraram em pandemia porque o vírus matava muito – e por isso também ficou confinado a essas vítimas. Pelo contrário, o Sars-cov-2 é brando e mata pouco, por estranho que pareça. Especializou-se em ser contagioso para prosperar, mas é especialista em aproveitar o que cada um de nós lhe oferece para se tornar diferente. Vacinarmos globalmente o planeta é provavelmente a nossa única chance. E mesmo assim, um tiro de sorte…

Se não mudarmos a estratégia de vacinação, os países ricos descobrirão rapidamente que vão ter que se revacinar vezes sem fim. E, mesmo assim, os seus cidadãos não poderão sair das fronteiras domésticas anos a fio. Adeus turismo, adeus aviação. E tudo isto é muito mais caro, e pior, do que vacinarmos toda a gente globalmente. Esqueçam os rankings da Fórmula 1 da vacina. O maior amigo do coronavírus é o egoísmo.

Daniel Deusdado, Diário de Notícias, 22 de Março de 2021

Crianças decapitadas, um milhão de pessoas com fome. A crise no norte de Moçambique

Com os jornalistas impedidos de se deslocarem a Cabo Delgado, são as organizações não governamentais e a Igreja Católica quem tem reportado sobre aquela província moçambicana em crise humana e de segurança há três anos e meio. O mais recente relato é da Save the Children, que ouviu o testemunho de mães que perderam filhos para a violência e o ódio religioso. “Os relatos de ataques a crianças perturbam-nos até ao âmago. O nosso pessoal tem sido levado às lágrimas ao ouvir as histórias de sofrimento contadas pelas mães nos campos de deslocados. Esta violência tem de acabar, e as famílias deslocadas precisam de ser apoiadas à medida que encontram o seu rumo e recuperam do trauma”, comentou o diretor da Save the Children para Moçambique, Chance Briggs. No mesmo dia, o presidente moçambicano, Filipe Nyusi, pediu ao novo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) para erradicar o terrorismo do país.

“Naquela noite, a nossa aldeia foi atacada e as casas foram queimadas. Quando tudo começou, eu estava em casa com os meus quatro filhos. Tentámos fugir para a floresta, mas eles levaram o meu filho mais velho e decapitaram-no. Não podíamos fazer nada senão também seríamos mortos“, contou uma mãe de 28 anos sobre o filho de 12 anos.

A organização não governamental, que iniciou a atividade em Cabo Delgado na ressaca do furacão Kenneth em 2019, mantendo 45 funcionários e 40 voluntários no terreno, encontrou esta família de agricultores num campo de deslocados a 200 quilómetros da sua aldeia, com as três crianças traumatizadas e uma delas a necessitar de cuidados médicos.

Infelizmente, não são caso único. Outra mãe de 29 anos também perdeu uma criança. “Depois de o meu filho de 11 anos ter sido morto, compreendemos que já não era seguro ficar na minha aldeia. Fugimos para a casa do meu pai noutra aldeia, mas alguns dias depois os ataques também começaram lá. Eu, o meu pai e as [três] crianças passámos cinco dias a comer bananas verdes e a beber água de bananeira até conseguirmos o transporte que nos trouxe até aqui”, relatou esta mãe que se diz de coração partido porque não pôde despedir-se nem dar um enterro adequado ao filho. São testemunhos de um conflito que já provocou mais de 1200 mortos e 670 mil deslocados perante a incapacidade do governo central.

Além disso, lamenta a Save the Children, há quase um milhão de pessoas a “enfrentar fome severa”, sendo certo que o trabalho da ONG acode 70 mil pessoas. Há quem coma ervas para enganar a fome.

A mais de 1500 quilómetros de distância, o presidente de Moçambique procedeu a mudanças na hierarquia das Forças Armadas. Na terça-feira, ao seu ex-chefe da Casa Militar, Rivas Mangrasse, promovido a CEMGFA, Filipe Nyusi pediu o fim do terrorismo e dos “seus mentores, que não devem ter sossego e devem se arrepender de ter ousado atacar Moçambique”.

Na véspera, a embaixada norte-americana em Maputo anunciou que tinha dado início a um programa de dois meses de formação de forças especiais para reforçar a capacidade de resposta do exército ao grupo que, dias antes, foi oficialmente designado como terrorista pelos EUA. Colocar o ISIS-Moçambique na lista negra de Washington dificultará os apoios financeiros aos insurgentes.

Do lado europeu, o pedido de apoio foi recebido em setembro e a resposta foi positiva, com Portugal a voluntariar-se para ajudar na formação, mas até ao momento não se materializou, segundo o eurodeputado Carlos Zorrinho, porque há “quem esteja no terreno que não quer que essa ajuda se faça”.

É na província de Cabo Delgado que está previsto o maior investimento privado em África, através da exploração do gás natural, numa infraestrutura que deverá estar pronta em 2024 e será explorada por um consórcio de empresas de vários países, liderado pela francesa Total. A insurreição representa uma ameaça direta aos projetos de gás, tendo um ataque em 30 de dezembro decorrido a apenas 10 quilómetros da infraestrutura, que recorre a empresas de segurança privadas para proteger o pessoal.

Por outro lado, a esperança de que o projeto trouxesse benefícios para a população perdeu-se entre o sentimento de abandono, a marginalização económica, os desastres naturais e o terrorismo. Daí que uma resposta exclusivamente militar, avisam os peritos, seja insuficiente ou mesmo contraproducente. O exército moçambicano, subdimensionado e mal equipado, recorreu a mercenários estrangeiros, primeiro em 2019 através do grupo russo Wagner – que se terá retirado após o falhanço no terreno – e depois com os sul-africanos da Dyck.

Associações como a Amnistia Internacional criticam esta abordagem porque a população tem sido vítima de abusos de todos os lados, levando à sua alienação. “A aposta para travar este conflito não deve ser apenas no campo militar. Deve ser uma estratégia multifacetada que garanta o desenvolvimento local, evitando que mais jovens das comunidades afetadas se juntem aos grupos armados”, disse à Lusa o diretor da ONG Centro de Integridade Pública, Edson Cortez.

Neste contexto, ganham mais relevância as conclusões de um estudo sobre captação de jovens para o extremismo. Segundo uma análise do Instituto de Estudos Sociais e Económicos, as províncias de Nampula e Niassa também são campos de recrutamento para os grupos armados que atacam Cabo Delgado.

César Avó, Diário de Notícias, 17 de Março de 2021

A batalha pela vacina

É um erro de lesa-União se os parceiros europeus abandonarem o caminho da gestão comum no combate à pandemia. Sair desta crise é mais fácil se estivermos juntos. A tentação do salve-se quem puder, agindo cada um por si, é a semente de outras crises futuras, de ressentimento e divisão.

Para controlar o vírus e travar a pandemia, precisamos de mais vacinas, maior rapidez na aplicação das doses, a mais pessoas e de forma mais justa. Nos próximos meses, é este o desafio das autoridades sanitárias, de cada governo, e é também aqui que se joga o crédito da União Europeia e a sua capacidade de resposta ao anseio de milhões de cidadãos pelo regresso a uma nova normalidade acautelada.

A união faz a força se acrescentar eficiência: eis a razão de ser do Clube Europeu, que tem demonstrado ao longo da sua história – apesar dos incontestáveis retrocessos – as vantagens de enfrentar juntos as políticas de comércio, os direitos e liberdades, e algumas grandes crises. A estratégia da União, baseada numa primeira resposta de emergência, sob a forma de fundos de recuperação financiados com dívida comum, e na compra conjunta de milhões de vacinas, para depois distribuí-las equitativamente entre os países membros, foi acertada e é justo aplaudi-la.

Tais sucessos não excluem, porém, a ocorrência de erros e omissões na gestão de ambos os processos. E a verdade é que, num e noutro casos, a União Europeia tem sido mais lenta do que algumas outras geografias, como são os casos de Reino Unido, Israel ou Estados Unidos, países que que optaram por uma autorização mais rápida e foram mais lestos a garantir a produção, e não apenas adquirir as doses necessárias.

Apesar de serem europeias 20 das 60 fábricas mundiais aptas a produzir a vacina, a produção e distribuição tem sofrido atrasos inaceitáveis, e não falta quem acuse a União de ser frouxa perante o incumprimento da indústria farmacêutica em relação a prazos e quantidades de doses disponibilizadas a cada Estado membro.

É, pois, compreensível que, questionada a eficácia, a unidade ameace romper. O primeiro país da União a descolar daquele acordo foi a Hungria, que aposta na compra de vacinas russas e chinesas; a Eslováquia segue o mesmo caminho; a Áustria e a Dinamarca procuram em Israel acordos de pesquisa e produção que fortaleçam os seus aprovisionamentos; e a Polónia e a República Checa já encomendaram a vacina chinesa. Tudo isto, ao arrepio da Agência Europeia do Medicamento, e enquanto vários países são abertamente contra a ideia de um passaporte comum de vacinação que muitos outros parceiros reclamam.

A busca individual de soluções por parte de alguns desses países pode ser compreensível num mercado sob forte pressão e perante a fadiga crescente dos cidadãos. Tais estratégias são bem-vindas, desde que articuladas e complementares à europeia. Mas é um erro de lesa-União se abandonarem o caminho da gestão comum. Sair desta crise será mais fácil se estivermos juntos. A tentação do salve-se quem puder, agindo cada um por si, é a semente de outras crises futuras, de ressentimento e divisão. Só não vê quem não quer ver.

Afonso Camões, Diário de Notícias, 16 de Março de 2021

Perder o foco da luta antidiscriminação na simples parvoíce

Como qualquer passo de alguma importância que se queira dar nos dias que correm, a ideia de um passaporte de vacinação contra a covid está a gerar oposição e alertas. O tema é que quem já foi vacinado e tem o certificado que o comprova poderá exercer direitos que os restantes, os ainda não vacinados, não podem, gerando-se assim discriminação.

Tão preocupados andamos com a igualdade que não vemos que este tipo de absurdo é potenciador de injustiças profundas – que resultam em revolta, em radicalização e extremismo. Andamos com mil cuidados para não ofender ninguém, sem nos apercebermos que a diferença faz parte da natureza e deve ser notada e celebrada nos termos e na medida certa. Não privilegiando ninguém por ter ou deixar de ter uma determinada característica mas antes criando uma base a partir de qual todos podem evoluir independentemente das suas especificidades, aproveitando as qualidades que nos tornam, a cada um de nós, únicos.

É claro que quem tiver sido vacinado poderá fazer o que outros talvez ainda não possam, mas isso deve servir de incentivo para que a vacinação avance com a maior rapidez possível e não para forçar todos a manter-se num mesmo patamar. Extremando a discussão, estamos a caminho de proibir que se apresentem diplomas de formação na candidatura a uma empresa – porque é que só quem teve oportunidade de estudar há de ter direito a candidatar-se a certas posições? -, a declinar avaliações, hierarquias e gradações para que ninguém se sinta inferior.

Na luta pela igualdade, muitos se têm perdido em ideias abstrusas que tiram o foco e a razão à justiça dos argumentos. Como querer alterar expressões como amamentar, mãe ou grávida para palavras de género neutro (peitamentar, pessoa que tem filhos, pessoa que gera bebé…) de forma a não discriminar, como se discute no parlamento britânico. Ou considerar “inadequada” a escolha do catalão contratado para traduzir o poema que Amanda Gorman levou à tomada de posse de Biden, porque só uma “mulher jovem, ativista e negra” deveria poder fazê-lo. Ou censurar o tom identificado como cor-de-pele porque nem todos temos aquela cor e acusar de apropriação cultural quem cria a sua imagem com inspiração no mundo inteiro. Ou sugerir que Os Maias não devem ser lidos sem anotações que condenem o racismo e que o Padrão dos Descobrimentos deve ser arrasado.

Infelizmente, há novos exemplos todos os dias. E no meio de tanta parvoíce, corremos sérios riscos de ver extremar posições, de esmagar direitos, expressão e liberdade, de acabarmos por nos tornar numa massa informe e assética onde a individualidade é proibida.

Foquemo-nos no que importa o quanto antes. No caso das vacinas, em garantir que chegam depressa e a todos – sem esquecer que “todos” não se esgotam na Europa e na América do Norte.

Joana Petiz, Diário de Notícias, 15 de Março de 2021

Um ano após a primeira morte, Bolsonaro é um derrotado como líder

Há um ano morreu a primeira das mais de 272 mil pessoas pela covid-19 em território nacional. A princípio a imprensa divulgou, com base em informações do governo estadual, que o primeiro óbito havia ocorrido em 17 de março, mas o Ministério da Saúde mais tarde revisou os dados e concluiu que, cinco dias antes, uma mulher de 57 anos, internada no hospital municipal Dr. Cármino Caricchio, em São Paulo, fora a primeira a sucumbir em decorrência da nova doença. O 12 de março marca o início do longo pesadelo que ainda não acabou e deixa marcas indeléveis por toda parte na forma de mortes, perdas, falências e desemprego. Também determina o começo de uma segunda provação, esta especialmente pessoal: a de Jair Bolsonaro como líder político. Há políticos que, secretamente, passam a vida esperando uma crise para se sobressair entre seus iguais e deixar uma impressão no seu povo. Pode ser uma obra, um acordo, um plano, até mesmo um discurso. Políticos sabem que uma crise é definidora de suas carreiras. Um bom desempenho os mantém na vida pública por muito tempo.

A crise da pandemia é do tipo que políticos ambiciosos enfrentariam com determinação: a origem não foi sua culpa pessoal; atingiu o mundo inteiro; comoveu milhões de eleitores; foi provocada por um vírus e não por um ato do seu governo. Ou seja, como uma vítima das circunstâncias, tudo o que ele fizesse para tirar o país do atoleiro e evitar mais mortes seria considerado um feito seu. Poderia até não encerrar o problema, mas se conseguisse qualquer vitória real no meio da batalha já estava de bom tamanho. Quem sabe seria até inesquecível. Que o diga o ex-ministro Henrique Mandetta.

Com a pandemia, toda a capacidade de liderança, raciocínio, inteligência e decisão de Bolsonaro foi posta à prova diariamente ao longo de 12 meses.

O resultado é o que sabemos e vemos. Bolsonaro sabotou miseravelmente a união nacional, implodiu irremediavelmente a organização do combate, falhou lamentavelmente, sob o ponto de vista do interesse da saúde pública, na comunicação oficial, se omitiu inapelavelmente até no ato mais banal que mesmo um vereador deve fazer, que é semear esperança no eleitorado. Bolsonaro tinha à sua frente uma chance política dos séculos – mas sua natureza despreparada, paranóica, reacionária e ignorante falou mais alto.

Por exemplo: um político esperto deixaria as diferenças políticas momentaneamente de lado, abraçaria o governador João Doria (SP) e ampliaria a produção da vacina do Butantan. Ali estava, a poucos km de Brasília, alguma “salvação” – até um ignorante em ciência conseguiria ver. Mas Bolsonaro fez o cálculo eleitoreiro e optou pelo confronto. Se um indivíduo não tem a dimensão do problema à sua frente, não sabe como sair dele.

Bolsonaro ganhou a eleição de 2018 e pode até ser reeleito em 2022, mas de fato já é um derrotado no seu mandato. Ele está no cargo mas não acrescenta nada ao combate à pandemia – só o torna mais difícil. Entra e sai dos noticiários como um fantasma arrastando correntes, fala idiotices, ofende alguém, espalha mentiras, atrapalha.

Sua derrota é moral, ética e administrativa. Moral porque faz passeios de finais de semana e dá longas risadas enquanto corpos são empilhados nos necrotérios. Ética porque golpeia governadores e prefeitos quando eles estão mais expostos e despreparados – é como chutar o adversário caído no campo de futebol. Nesta quinta-feira (11), usou a carta de um suicida com o objetivo de acusar adversários políticos. Administrativa por toda a ausência de coordenação das ações e da logística em tudo que era mais importante, da compra de seringas à aquisição das vacinas.

Nas últimas décadas, desde a redemocratização em 1985, todos os presidentes brasileiros enfrentaram suas crises capitais. Com exceção de Itamar Franco (1992-1994), sofreram sérias acusações e as inconstâncias do mandato.

Dois deles naufragaram no meio dos embates, Fernando Collor em 1992 e Dilma Rousseff em 2016. Mas ambos caíram com dignidade porque respeitaram as regras do jogo democrático, enfrentaram seus adversários sem golpes sujos e mantiveram a ordem constitucional e legal. Nenhum ameaçou o Supremo Tribunal Federal com notinhas de generais. Ambos acusam ilegalidades nos processos políticos de impeachment a que responderam. Nesse ponto, até os mais cruentos críticos reconhecem que há argumentos válidos de parte a parte. Eles perderam seus mandatos, mas são mesmo derrotados? Sob o ponto de vista da democracia, não. Até, indiretamente, a engrandeceram.

Fale-se tudo sobre os outros presidentes – Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Lula -, menos que tenham se apequenado nos momentos mais graves dos seus mandatos. Sarney deixou uma crise econômica gravíssima e saiu da Presidência com a aprovação lá no chão. Mas conseguiu fazer a travessia da ditadura militar para as eleições diretas. Por isso será lembrado.

FHC viveu a grande crise do apagão de julho de 2001 a fevereiro de 2002. Mas conseguiu superá-la por meio de um gabinete de crise que trabalhou sem parar. Lula sobreviveu ao escândalo do mensalão e foi reeleito no ano seguinte, 2006. Enfrentou a crise econômica mundial de 2008 e elegeu sua sucessora.

O Brasil hoje é um caso para análise psicanalítica e nada garante que Bolsonaro não consiga ser reeleito em 2022, mesmo com a liderança desastrosa à frente do combate à pandemia. Há forças irracionais no ar impulsionadas por fake news, que o bolsonarismo exerce sem qualquer pudor. Com certeza voltarão com tudo no ano que vem. O voto em Bolsonaro tem pouco a ver com capacidade de gestão e liderança. Há ódio envolvido.

Mas ainda que possa ganhar no voto, o que parece cada vez mais difícil, Bolsonaro já perdeu o grande jogo. No momento mais agudo das nossas vidas, calhou de aparecer o pior líder de todos os tempos.

Para citar um nome do campo político associado ao de Bolsonaro, em seu livro de memórias “Momentos de decisão” (ed. Novo Século, 2012) o ex-presidente norte-americano republicano George Bush (2001-2009) escreveu: “A natureza da Presidência é que, algumas vezes, não se escolhe a natureza dos desafios a serem enfrentados. O presidente decide como reagir a esses desafios”.

Bolsonaro decidiu todos os dias, desde 12 de março de 2020, como enfrentaria a pandemia. O resultado está aí: uma derrota pessoal histórica e um exemplo mundial de como não fazer.

Rubens Valente, UOL, 12 de Março de 2021

O Populismo não é de agora, mas é provável que esteja para durar

A ideia de que Portugal era “imune” ao populismo foi maioritária, mas nunca unânime. Ainda que muitos apontem as eleições legislativas de 2019 como um ponto de transformação política e de chegada do populismo, os exemplos de políticos populistas portugueses recuam vários anos. Temos investigadores e políticos que além dos exemplos internacionais olham para o caso português e para a insatisfação que estava escondida na abstenção.

Para Filipe Carreira da Silva, investigador do ICS, o caso “mais óbvio” de um populista português, o mais antigo, é o de Alberto João Jardim, que “durante décadas” governou “à conta da oposição entre ‘a Madeira’ e ‘o continente’”. Susana Salgado, investigadora na mesma instituição, concorda e acrescenta nomes da política local, como Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras. A investigadora dá também o exemplo de “um tipo muito diferente de populismo com Fernando Nobre” e, ainda que “mais timidamente”, o de Manuel Alegre nas presidenciais de 2006. Já Pedro Adão e Silva lembra, além de Fernando Nobre, António Marinho e Pinto, ambos com “votações muito superiores a André Ventura” e com ”alguns desses traços”.

Carmo Afonso, advogada, recua até o antigo Presidente da República Liliana Borges Sidónio Pais. Miguel Poiares Maduro
admite que poderá recuar também à ditadura, mas aponta a proximidade política do Bloco de Esquerda ao Podemos (Espanha) e o Syriza (Grécia).

Para o socialista Pedro Adão e Silva, “faltavam as condições subjectivas, porque as objectivas estavam todas cá” para que o fenómeno crescesse. “Talvez faltassem protagonistas e o momento certo”, completa.

Carmo Afonso acrescenta que o “atraso” na chegada do fenómeno a Portugal — ainda que a uma escala menor — “deu ao populismo português a oportunidade de aprender”. “Deveria também ter dado aos portugueses a oportunidade de aprenderem com os erros dos outros”, atira. E avisa: “A história ainda não acabou, está só a começar”.

Filipe Carreira da Silva nota que para o discurso populista resultar é preciso conjugar “o carisma do líder político, a máquina partidária, mas também o sistema eleitoral”. Uma vez que o discurso e a política populista se alimentam de “ressentimentos e percepções de injustiça social”, nota a investigadora Susana Salgado, a crise de representação política assume um papel determinante, pois “as pessoas sentem que não estão a ser ouvidas, que os seus problemas não estão a ser resolvidos e que os políticos eleitos não as representam”.

Uma sensação que Adão e Silva considera ter ganhado força com “a queda de todas as instituições de intermediação que organizavam a participação e o protesto, como os sindicatos, os partidos, as igrejas, e as associações locais” e a sua transformação num modelo de protesto “mais individualizado — e com um alcance distinto — nas redes sociais”. A isso soma-se “a quebra de vínculos de pertença culturais”, em que as pessoas “deixam de se identificar com as práticas culturais e os estilos de vida dos outros”, quer falemos de casamento entre pessoas do mesmo sexo, quer do fim das touradas. “São processos durante os quais uma parte da população perde as suas referências identitárias e sente as referências dos outros como uma imposição face ao que acredita”, explica o socialista.

Adão e Silva dá o exemplo da população “ensanduichada” entre “as famílias que têm rendimentos suficientes para conseguirem mobilidade social” e as “as famílias que beneficiam da protecção social do Estado”. Nesse segmento da população, que vive do seu rendimento de trabalho “com dificuldade” — mas que não é suficientemente pobre para beneficiar dos apoios sociais — há um “mal-estar latente”. “Foi o que aconteceu com os coletes amarelos”, em França, acrescenta.

Uma opinião partilhada pelo ex-ministro social-democrata Miguel Poiares Maduro. A isso somam-se “as fake news e as cascatas informativas das redes sociais que passam a validar ideias mais radicais e favorecem o aparecimento de actores políticos populistas”, acrescenta.

Já para Adão e Silva, se essa insatisfação não atingiu uma escala maior em Portugal, isso deve-se também à estabilidade do sistema partidário português. “Os partidos que fundaram a democracia ainda estão todos no Parlamento, o que é muito incomum. Mas não pode ser um acaso que subitamente tenhamos dez.”
Apesar de considerar não haver um problema com a imigração, por exemplo, Adão e Silva atribui alguma resistência ao populismo ao papel da Igreja e do PCP enquanto instituições que assumiram a responsabilidade de “acomodar o descontentamento e algumas dinâmicas sociais a que os partidos no Parlamento não eram capazes de dar resposta”, defende.
O investigador acredita que essa canalização do protesto do PCP — e a sua capacidade de infuência da CGTP — fizeram “uma grande diferença durante a troika”, o que se torna “muito evidente” por comparação à “experiência com a Grécia”.

Também a ruptura com o Estado Novo “permitiu a construção de novas elites” e a consolidação da ideia de que “a democracia e o processo de europeização se traduziram em vantagens materiais”. O Estado Novo e a Guerra Colonial diminuíram “a nostalgia de um passado que é preciso reconquistar”, como acontece com a narrativas “MAGA [’Make America Great Again’] nos
EUA, ‘Brexit’ no Reino Unido, do Vox em Espanha e da Frente Nacional em França”, continua Adão e Silva.

A eficácia de um político populista reside também na sua capacidade de ajustar “o discurso e propostas ao que as pessoas querem ouvir”, sublinha Susana Salgado, e que tende a ser confundido com “demagogia, manipulação política, apelo às emoções e com a simplificação exagerada de problemas complexos”. O populismo tem isso tudo, mas é a centralidade no povo, na exclusão do outro e na promessa anti-sistema que o distinguem. “É geralmente oportunista, aproveita as circunstâncias para conseguir
ganhos políticos e muda o discurso conforme as tendências.” Um populista “está sempre muito revoltado, ‘vem dizer
as verdades’, assume o papel de voz do povo, recorre ao discurso desconcertante e rebelde, tenta dizer aquilo que algumas pessoas querem ouvir”, completa Carmo Afonso. Os populistas são “empáticos” e “têm o grande talento de saber olhar para o povo e de perceber onde tem comichão, para depois lá ir coçar. Isto tem a ver com ‘pensar no povo’, num sentido ético e
nobre? Zero”, acrescenta.
Há populismo à esquerda e à direita? “Sim”, responde Poiares Maduro. “O populismo de esquerda tende a falar de uma
elite financeira, económica que controla tudo contra a vontade do povo e de organizações transnacionais, enquanto o
populista de direita aposta no povo contra os aqueles que estão de fora, como os emigrantes, e assume um discurso xenófobo”.

Para o social-democrata, é “perfeitamente compreensível” que Portugal seja menos tolerante com o radicalismo de direita, devido ao seu passado histórico com a ditadura (de direita). “Nos países de Leste é ao contrário. A margem de tolerância para o populismo de direita é muito maior do que para o populismo de esquerda. Além disso, o BE já teve tempo de se institucionalizar”,
completa.
A estes pólos, Susana Salgado acrescenta um terceiro: o populismo ao centro, um fenómeno que diz não ser menos perigoso, uma vez que “molda a política” e predispõe “a uma maior aceitação de extremismos, quando o centro falha ou entra em crise”, avisa. E o futuro deverá passar por essa radicalização, admite, especialmente entre as gerações mais jovens “que cresceram com as redes sociais”.

Público, 5 de Março de 2021

A LUA DE MEL

Joe Biden fez um excelente discurso na Conferência de Segurança de Munique, que anualmente reúne figuras do mundo político-militar europeu e norte-americano. A intervenção poderia ter sido escrita por um europeu, de tão simpática que soou a ouvidos deste lado do Atlântico. Nas menções à União Europeia e à NATO, no tocante ao multilateralismo ambiental, nas equilibradas referências críticas à Rússia e China – tudo o que ficou dito foi ao gosto europeu, por muito que saibamos que nem toda a Europa toca exatamente pelo mesmo diapasão.Biden é um óbvio anti-Trump e sabe que, ao mostrar sê-lo, ajuda a sarar o traumatismo que o seu antecessor provocou por estes lados. Diplomaticamente, vive-se agora um tempo de “lua de mel”, mas esses períodos têm sempre, como se sabe, um prazo de validade.O novo presidente americano não disse até onde está disposto a ir se Berlim mantiver a ideia do Nordstream 2, o “pipeline” para abastecimento de gás russo. E também não esclareceu o que irá pedir aos seus aliados europeus em matéria de pressão sobre a China – que se sabe ser, para Washington, muito mais do que um retórico “adversário estratégico”. Neste tema, também não disse o quanto lhe desagradou a pressa na finalização do acordo sobre investimento, firmado entre a União Europeia e a China, num tempo coincidente com a sua posse. E não elaborou sobre o que pensava da “autonomia estratégica” que, no seio da União, alguns anunciam como desejável e que outros acham ser, no limite, menos compatível com os equilíbrios da NATO.É de regra que, numa eleição presidencial americana, os europeus se sintam tentados a “votar”. Nesta última, quase ninguém se “absteve” e grande parte (nem toda, atenção!) da Europa saiu vencedora.Mas há uma outra regra que é preciso nunca perder de vista: o presidente americano é eleito para defender os interesses dos Estados Unidos e estes, frequentemente, não são os mesmos dos dos seus aliados, por muito que uma retórica de consenso embrulhe o discurso. Por isso, a prazo, alguns dentre quantos agora aplaudem Biden vão, forçosamente, sentir-se desencantados com parte da sua ação. É da lei da vida.Biden é uma extraordinária oportunidade para o mundo transatlântico. Mas a América já provou ser uma entidade internacional menos previsível do que aquilo a que nos tinha habituado e a Europa destes tempos é bem mais complexa do que a que se projetou nas décadas da aliança de sucesso no passado. Nem todo o desejável é possível e ser realista poupa muitas desilusões.

Francisco Seixas da Costa, Jornal de Notícias, 3 de Fevereiro de 2021