Amândio Silva: comunicado da família

Tendo já recebido inúmeras manifestações de pesar pelo falecimento do meu pai, Amândio Silva, venho informar que a cremação será realizada na próxima segunda-feira, dia 8 de fevereiro, às 12 horas, no Crematório de Alcabideche. Sinto não podermos expressar de forma alargada a homenagem ditada pelo sentimento de perda partilhado com tantos amigos. No entanto, devido às rigorosas regras impostas nestes tempos de pandemia, a despedida presencial estará restrita à família. Estou certa da vossa compreensão para com esta exigência cívica. Desde já anunciamos que assim que as condições sanitárias o permitam, realizaremos um encontro evocativo, para o qual serão todos convocados, de forma a prestarmos o devido tributo à memória do meu pai. Muito obrigada pela vossa solidariedade.

Um grande abraço e até sempre,

Moema Silva

Até sempre Amândio

Faleceu hoje Amândio Silva. Um dos fundadores da Associação Mares Navegados, ele foi sempre um defensor da liberdade e da solidariedade, não só entre Portugal e os países de língua portuguesa, mas da solidariedade no seu sentido mais amplo, a do apoio aos que precisam de ajuda e da presença de um amigo nas horas difíceis. Um resistente, veterano de muitas batalhas, partiu hoje, mas não foi vencido pela morte. Só morre realmente aquele que não deixa a sua marca do mundo. E, com certeza, Amândio deixou a sua marca na história e naqueles que o conheceram.

Os novos mártires da Pátria

Um dos piores defeitos de certos políticos é dizerem apenas aquilo que o seu eleitorado quer que digam. Coisas do tipo: “Não se devem vacinar os políticos antes de todos os idosos.” Frases como: “Antes de se vacinar os políticos têm de se vacinar os bombeiros.” Com tanto altruísmo, garantem uma enxurrada de likes nas redes sociais, mas banalizam o papel e o estatuto que lhes foi outorgado pela vontade dos cidadãos expressa em eleições. Os deputados que recusam a vacina lá receberão aplauso de uma cada vez mais vasta franja da população empenhada em dizer mal da política; mas conseguem-no à custa do deslustrar do seu estatuto e da degradação da sua missão, que não consideram ser assim tão importante para ser protegida contra os efeitos da pandemia.

Não é de estranhar que perante um bem escasso, as vacinas, para travar um mal que não parece capaz de ser travado, a covid-19, se discuta quem deve estar nos primeiros lugares da fila da vacinação. Estranha-se a desumanidade de não dar prioridade aos portugueses com mais de 80 anos. Estranha-se que os funcionários da Assembleia entrem nessa condição. Estranha-se que por razões perversas haja chicos-espertos nas misericórdias a usar privilégios para terem aquilo a que não têm direito. Como se estranha que haja deputados a recusar a vacina, sabendo que estão no lugar onde se fazem as leis indispensáveis não só para penalizar esses provedores videirinhos, mas também para determinar soluções para a crise sanitária. Um deputado que diz não querer a vacina está apenas a dizer que o seu papel na vida pública é despiciendo, que o seu trabalho é substituível, que fiscalizar o Governo ou aprovar uma lei é equivalente a uma operação STOP.

Não é popular nos dias que correm defender o estatuto dos políticos, o papel que lhes cabe como principais responsáveis pela condução dos destinos de um país aflito, a importância de se manterem activos para que o seu trabalho não seja afectado pelas vicissitudes da pandemia. A própria classe política demorou dois meses a concluir que o Presidente, o primeiro-ministro, a ministra da Saúde ou um presidente de câmara ou um deputado são hoje pessoas ainda mais importantes para gerirem o nosso destino comum. Mas depois de dar um salto no populismo e aceitar que devem estar na linha da frente das prioridades da vacina, lá aparecem uns candidatos com súplicas de mártir a admitir a sua insignificância para merecerem tal distinção.

O populismo, sempre a salivar pela degradação da democracia, agradece; quem acha que a representação política é um estatuto de superior dignidade e importância, logo merecedor de especiais protecções, não.    

Manuel de Carvalho, Público, 27 de Janeiro de 2021

Guterres pede aliança internacional para combater ascensão neonazi

O secretário-geral da ONU defendeu uma ação global “para combater a propaganda e a desinformação” e apelou para uma maior educação sobre as ações nazis durante a II Guerra Mundial.
O secretário-geral da ONU pediu uma aliança internacional coordenada contra o crescimento do neonazismo e da supremacia branca, xenofobia, antissemitismo e discurso do ódio provocado em parte pela pandemia da covid-19.

António Guterres defendeu também uma ação global “para combater a propaganda e a desinformação” e apelou para uma maior educação sobre as ações nazis durante a II Guerra Mundial, salientando que quase dois terços dos jovens norte-americanos não sabem que seis milhões de judeus foram mortos durante o Holocausto.

Guterres falava na segunda-feira no Dia Internacional da Lembrança do Holocausto da ONU em que foi assinalado o 76.º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, realizado virtualmente este ano por causa da covid-19.

O líder da ONU defendeu que a pandemia “exacerbou as injustiças e divisões de longa data”.

“A propaganda que liga os judeus à pandemia, por exemplo, acusando-os de criar o vírus como parte de uma tentativa de dominação global, seria ridícula, se não fosse tão perigosa”, salientou.

“Esta é apenas a última manifestação de uma associação antissemita que data pelo menos do século XIV, quando os judeus foram acusados de espalhar a peste bubónica”, acrescentou.

O secretário-geral disse ser triste, mas não surpreendente que a pandemia tenha desencadeado outra manifestação negacionista do Holocausto, de distorção e minimização da História.

“Na Europa, nos Estados Unidos e noutros lugares, os supremacistas brancos estão a organizar-se e a recrutar através das fronteiras, ostentando os símbolos e tropas nazis e a sua ambição assassina”, sustentou. “Tragicamente, após décadas na sombra, os neonazis e as suas ideias estão agora a ganhar terreno”, lamentou.

As autoridades norte-americanas advertiram que os neonazis estão em ascensão em todo o país e em todo o mundo, acrescentou.

Em alguns países, adiantou Guterres, os neonazis infiltraram-se na polícia e nos serviços de segurança do Estado e as suas ideias podem ser ouvidas nos debates dos principais partidos políticos.

“A contínua ascensão da supremacia branca e da ideologia neonazi deve ser vista no contexto de um ataque global à verdade que reduziu o papel da ciência e da análise baseada em factos na vida pública”, disse.

Guterres alertou que a fragmentação dos ‘media’ tradicionais e o crescimento das redes sociais estão a contribuir para a ausência de factos partilhados.

“Precisamos de uma ação global coordenada, à escala da ameaça que enfrentamos, para construir uma aliança contra o crescimento e propagação do neonazismo e da supremacia branca, e para combater a propaganda e a desinformação”, exortou.

SicNotícias, 26 de Janeiro de 2021

Somos feitos de quê?

Dando a Portugal um lugar de honra no meu livro não fiz mais do que prestar-lhe justiça” foi o título de uma entrevista no DN, há uns anos, a François Reynaert, que contrariou tudo o que é tradição na historiografia francesa e sobretudo na anglo-saxónica, que destacam sempre mais as façanhas de Jean-François de La Pérouse e de James Cook, no século XVIII, do que os feitos de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama ou Fernão de Magalhães dois séculos antes. O livro de Reynaert, para não deixar dúvidas do alcance das suas palavras, tem como título A Grande História do Mundo.

Por falar em mundo, tivemos ontem novo recorde de mortos e de infetados por covid-19 e há alguns dias andamos nas notícias no estrangeiro por estarmos no topo da mortalidade por milhão de habitantes. Um momento dramático para o país, para todos que cá vivemos, portugueses e não só, e que gera a tentação de encontrar bodes expiatórios, seja entre os governantes seja numa parte da população, os que recusam usar máscara ou que passeiam trela sem cão. Somos, porém, o mesmo país que há um ano, na primeira vaga da pandemia, merecia elogios. Um povo consciente, um governo eficiente, uma oposição com sentido do interesse nacional, escrevia-se nos jornais lá fora.

Já não somos o grande país da era das Descobertas, mas não deixamos de ter muito de que nos orgulhar – como essa democracia que construímos desde o 25 de Abril de 1974 e que hoje nos convida, e incita, a votar para expressar as nossas escolhas como cidadãos.

Também nos podemos orgulhar de termos um Serviço Nacional de Saúde que não pede o cartão de crédito a ninguém na hora de chegar a uma urgência e que bravamente continua a combater a covid-19. Também nos podemos orgulhar de integrar a União Europeia, onde não só estão representados os países mais plurais e mais ricos do planeta (e por isso às vezes custa a dupla comparação, a com o nosso passado e a com estes nossos aliados), como perante a pandemia foram capazes de dar provas de unidade. Sim, nem tudo corre bem com a compra das vacinas, mas como seria se Portugal, com os seus dez milhões, tivesse de agir sozinho?

Nem tudo depende de nós, de cada um de nós, para o país ser melhor, para urgentemente ultrapassarmos a terrível crise trazida pelo coronavírus, uma crise sanitária e económica. Mas muito depende de nós. Na escolha do destino que queremos para Portugal. Isso passa por atos tão simples como usar a máscara, e até quando for preciso, ou votar, hoje e quando voltar a ter de ser.

Quando penso no Portugal de 2021 não gosto nada daquela ideia, que por vezes surge como ironia, de que os valentes se foram embora nas caravelas e que os que ficaram são os tetranetos do Velho do Restelo. Somos feitos de quê?

Leonidio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 24 de Janeiro de 2021

A esperança que sopra da América

Não é tempo de voltar para o sofá para ver os Trump deste mundo, como se fosse apenas um espetáculo. A mais nefasta das metáforas é que a extrema-direita é um balão que se vai esvaziar.

Joe Biden tomou posse, homenageando as 400 mil vítimas da tragédia que se abateu sobre a América e alertando que “a democracia é frágil” e tem de ser defendida da mentira, da desigualdade, da injustiça racial, do ódio.

O refluxo democrático começou a ser revertido, lá onde era mais importante que o fosse. Mas não é tempo de voltar para o sofá para ver os Trump deste mundo, como se fosse apenas um espetáculo. A mais nefasta das metáforas, que remonta aos anos de 1930, é que a extrema-direita é um balão que se vai esvaziar. Os seus líderes são bufões, mas não falhos de ideologia. Em A Conspiração contra a América, de Philip Roth, o candidato fascista é denunciado: “Como Hitler: todo o mundo acredita que ele não pensa o que diz”. Não era o que se dizia de Trump?

Biden anunciou as prioridades de uma nova política centrista humanista: a pandemia, a ecologia, a “justiça para todos” e a “reconstrução da classe média”. Para os primeiros dez dias de governo, Biden e Harris propõem regressar ao acordo de Paris, tudo fazer para reunir as crianças separadas das suas famílias emigrantes, propor uma lei para iniciar o processo de legalização de 11 milhões de emigrantes e um plano de relançamento da economia no valor de 1,9 mil milhões de dólares.

A tomada de posse de Biden e Harris é saudada pelos europeus, que encontrarão no governo americano um aliado para o renascimento da União Europeia e do multilateralismo, para a erradicação da pandemia e do vírus do racismo, e para vencer a tragédia social que vivemos. Para isso têm de superar o ceticismo que atravessa a opinião pública europeia sobre a capacidade dos americanos para reverterem a herança de Trump.

A democracia americana continua frágil: 72% dos eleitores republicanos ainda acreditam que Trump venceu as eleições. Os democratas enfrentam uma extrema-direita, com influência no Partido Republicano, da supremacia branca, do tristemente célebre America First, que sonha com o regresso à Presidência em 2025 do seu ídolo Trump.

Alimentam-se das notícias falsas, dos factos alternativos da propaganda da supremacia branca e do machismo, que as redes socais e as televisões exibem como espetáculo da tragédia democrática, conferindo-lhes credibilidade.

Para os democratas coloca-se o desafio de repor confiança ao discurso político. A prioridade será convencer os que continuam a negar a pandemia, as vacinas e a ciência, os que servem o obscurantismo e a morte. Em suma, o triunfo da razão.

As redes sociais devem ser consideradas como “empresas de comunicação”, sujeitas a regulamentação e fiscalização, com responsabilidade pelo que publicam. A decisão do Twitter de banir Trump deve servir de estímulo para a justiça ser muito mais severa para com o discurso de ódio e os incentivos à violência.

Para o discurso político democrático se tornar audível, é preciso vencer a desconfiança de muitos para com as palavras das elites, a quem responsabilizam pelas suas angústias e misérias.

Para tal, é necessário repor os princípios do “governo do povo, pelo povo, para o povo”, ou seja, de que os governantes estão ao serviço dos interesses dos cidadãos e não dos grupos económicos que financiam as suas campanhas. Este é o objetivo que será mais difícil de vermos cumprido.

Biden propõe-se ser “o Presidente de todos os americanos”, na pluralidade das opções políticas e na sua diversidade étnica, e realizar o sonho de Martin Luther King. Para ser bem-sucedido terá de continuar a ouvir a sociedade civil americana, cuja mobilização, da marcha das mulheres ao Black Lives Matter, o levou à presidência e permitiu a Kamala Harris, mulher e afro-americana, ser vice-presidente. Não tinham razão os que consideravam que o Partido Democrático não voltaria ao poder se continuasse a ser o partido defensor dos direitos das mulheres e das minorias. Ao fazer a sua defesa, está a defender os valores da nossa humanidade comum.

Perante a magnitude dos desafios, a Presidência Biden/Harris, se bem-sucedida, no que acredito, será uma das mais marcantes da história americana.

É altura para voltarmos a ouvir as vozes que nos vêm da América, pois, como outrora, The answer is blowin’ in the wind.

Álvaro Vasconcelos, Público, 20 de Janeiro de 2021

Pobreza e desigualdade

Nas festas foi um tempo de se falar dos pobres. Epidemia, mais pobres, mais desigualdade. Vão aumentar. Ora, se há pobres é porque há desigualdade. Nenhum país é só de pobres ou só de ricos. É o “sistema”, dizem. Se há pobres há insegurança alimentar, más condições de habitação. Estas situações são causa de vida sem saúde e de mais anos com doença. E se há pobres e desigualdades é porque há muito ricos, para chamar as coisas pelos nomes. Estes não encontram formas de repartir, no mínimo aumentando os salários. É o “sistema” da concorrência, dizem. Pois então é contra este “sistema” que temos que lutar. Porque a pobreza e a desigualdade não podem ser eternas.

Em todos os países estudados há desigualdade, mas é diferente de uns para outros. Com uma constante: quanto mais desigualdade, mais pobreza. Mesmo nos países menos desiguais, os escandinavos, social-democracia real, os 10% mais ricos detêm 25% do rendimento do trabalho e do capital, enquanto 50%, os mais pobres, detêm 30%. Desigual, mas menos mal, se tivermos em conta que a saúde, a educação e outros bens públicos são universais e gratuitos. Mas se formos para o farol do capitalismo, os Estados Unidos da América (EUA), a nação de Reagan e de Trump, sempre grande, polícia do mundo, autoritária, a vender armas e a fazer guerras, os 10% mais ricos detêm 60% do rendimento do capital e do trabalho e 50%, que são os mais pobres, detêm 15%. Estreitando a divisão em percentis, nos EUA, um país com 260 milhões de adultos, 1% detém o principal da riqueza e os outros têm 99%, slogan do movimento Occupy Wall Sreet. Mas 1% são 2,6 milhões de pessoas! É muita gente com muito poder – financeiro, político, cultural, comunicacional, militar. E chamam a isto o apogeu da democracia!

É a esta gente que o Reino Unido e o resto da Europa, nós próprios, temos buscado inspiração. Das suas agências ou afins ouvimos notícias, as suas redes de comunicação mandam em nós, vemos os seus filmes, a agência de medicamentos inspira as directivas europeias. A cultura da desigualdade tem sido aquela que nos domina. A Europa é menos desigual, mas tem sido o suficiente para ter pobreza bem visível. Os países menos desiguais têm menos pobreza, mais distribuição de rendimento. Mas globalmente, na Europa, 60% do património nacional pertence a 10% da população e 50%, que são os mais pobres, detêm 5 a 10%. Em Portugal melhorou, mas em 2017 estava com um nível de 17,3% da população na pobreza, mesmo depois das transferências sociais serem feitas (INE, 2017). Uma grande parte desta população (10%) são pessoas que trabalham. Se formos ver os Açores, são 32% os que estão abaixo do limiar da pobreza. Serão mais agora que lhes vão tirar as transferências sociais, decisão da nova coligação parlamentar.

Estes números crescerão muito em 2020, em todos os países, com os novos pobres da pandemia. As desigualdades também. Nos países onde já foram estudadas, os ricos estão mais ricos. O Institute of Policy Studies dos EUA publicou: as fortunas combinadas dos 647 mais ricos do país cresceram quase um milhão de milhões (1 bilião) entre Março e Novembro de 2020. Em Portugal estamos a falar de um limiar de pobreza calculado em 501€. Mas quem recebe o salário mínimo não está rico com certeza. Quanto aos mais velhos, há 1.457.205 pensionistas a receberem uma pensão abaixo do salário mínimo. A pensão mínima da Segurança Social é de 275,28€ e a da Caixa Geral de Aposentações é de 257,28€. O aumento de 10€ para as pensões abaixo de 658,20€ aprovado pelo Orçamento Geral do Estado de 2021 talvez desse para comprar alguns iogurtes e fruta, poucos, durante um mês, mas serão talvez para acrescentar aos pagamentos da água, da electricidade e do telefone.

Não é de estranhar que 10% da população tivesse em 2015 insegurança alimentar, dificuldade de acesso a alimentos seguros e nutritivos, que permitam uma vida saudável, e que cerca de 50% não comam vegetais e fruta suficientes (Carla Lopes e col., Inquérito Nacional de Alimentação e Actividade Física). Quanto à habitação, em Portugal há 4,1% de pessoas com privação severa das condições de habitação (Eurostat, Observatório das Desigualdades, 2017). Os critérios para considerar “severa” são muito apertados e não se sabe até que ponto estão incluídos os bairros ilegais. Com estas condições de rendimento, de alimentação e de habitação, os pobres têm mais doenças, mais obesidade, mais diabetes, mais doenças cardiovasculares, mais pneumonias, maior mortalidade.

Claro que o aspecto exterior das famílias foi mudando. Uma casa de família pobre e sem comida na mesa, mas com sofá, televisão e as pessoas vestidas e calçadas, pareceria rica, aos olhos de observadores do Barreiro onde nasci e vivi. Os bens e o consumo evoluem, mas a pobreza e a desigualdade também. A crise vai agravar tudo. Na anterior crise financeira, 2008 a 2015, as consequências foram graves: o SNS gastou menos 540 milhões de euros em medicamentos e 15,1% dos utentes diziam não os ter adquirido por falta de dinheiro, cerca de 9% não foram à urgência por dificuldades económicas, 5% por falta de dinheiro para os transportes; fizeram-se menos cinco milhões de consultas nos Centros de Saúde entre 2008 e 2015, as camas hospitalares decresceram entre 2010 e 2014 (Observatório Português dos Sistemas de Saúde, Relatório da Primavera 2015). Quanto ao que se passava nos lares, o presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos, era uma voz a pregar no deserto. Durante a crise aumentaram as doenças mentais, as anemias por falta de ferro, as doenças respiratórias. Não foram estudadas as carências nutricionais no sangue, mas deviam ter sido. Perante este quadro dramático levantou-se o movimento “Que se lixe a Troika”, mas não houve tumultos, revoltas desordenadas, pedras, barricadas… Mansamente caminhámos através das cidades, em multidão. Mas não houve mudança, pelo menos imediata. Quanto às vozes que agora se levantam diariamente, nessa altura estiveram caladas.

E se há desigualdade é porque há ricos. As 25 famílias mais ricas de Portugal detinham em 2018 19 mil milhões de euros, o que equivalia a 10% do PIB. São elas, concentradas para abreviar, a Corticeira Amorim, a Jerónimo Martins e sociedades ligadas, o Grupo José de Mello, a Sonae, o Grupo Simoldes, a Alves Ribeiro Construção, a Visabeira, a Portucel, o Grupo Pestana, o Violas SGPS, a RAR, a Mota Engil, Mário Ferreira, a Farfecht, a Salvador Caetano, a Nutrinveste, a Lusiaves, a Out Systems, a Ascendum. Sabe-se que algumas destas sociedades põem o seu dinheiro em projectos não rentáveis, com benefício público. Calcula-se também que algumas terão gestos de solidariedade importantes. Também não se trata de “diabolizar” os ricos, de forma primária. Trata-se de, mais uma vez, pensar no “sistema”.

Os possuidores de tanto património, para além de o colocarem em offshores, portanto numa nuvem sem impostos, que lhes deve dar uma sensação de poder, não têm onde gastar tanto dinheiro. Acumulam. A acumulação agrava a desigualdade. Rousseau dizia que a igualdade é uma aspiração inata da alma ou do coração dos humanos. Será? O ímpeto da igualdade fez parte dos movimentos cristãos iniciais, mas bloqueou quando se tornou religião do Estado e quando o proselitismo se transformou em massacres. Passou a religião e liturgia dos ricos e foi necessário que passassem séculos para novos profetas tentarem recuperá-la como religião dos pobres. O ímpeto da igualdade foi também motor das revoluções que triunfaram numa parte do mundo e foram a esperança dos deserdados e humilhados. Mais uma vez, como catecismo do Estado, a esperança foi morta e massacrada, sem respeito pelos seres humanos.

E nós? Será que o ímpeto inato da igualdade morreu em nós? Não bastam esmolas nem remendos. A cada um a responsabilidade de lutar pela igualdade. Porque há desigualdade, há pobreza, há crise e há um mundo natural a ser destruído em nome do lucro.

Isabel do Carmo, Público, 18 de Janeiro de 2021

Lábios vermelhos: ataque demonstra quem é André Ventura

Se o objetivo era atacar a feminilidade de uma mulher, a verdade é que tanto elas como eles encheram esta sexta-feira, 15 de janeiro, as redes sociais de fotografias de lábios pintados de vermelho. Tudo porque Marisa Matias, candidata às Presidenciais apoiada pelo Bloco de Esquerda, foi politicamente apontada pelo líder e deputado único do Chega, André Ventura, de usar batom vermelho.

Ela “não está muito bem em termos de imagem, com aquele batom vermelho, como se fosse uma coisa de brincar”, afirmou, ao quarto dia de campanha presidencial. Um comentário que levou até rivais na corrida a Belém, como Ana Gomes, a publicar um vídeo onde surgia a pintar os lábios dessa cor. A tag #vermelhoembelem dominou as redes sociais portuguesas nas últimas horas.

Como forma de repúdio, #VermelhoEmBelem(link is external) invadiu as redes sociais e subiu ao trending do Twitter, que conta já com 12.6 mil tweets com a hashtag. No Instagram e Facebook são também já milhares as publicações de lábios vermelhos que se fazem acompanhar de #VermelhoEmBelem(link is external). Entre as inúmeras personalidades que já expressaram a sua solidariedade com Marisa Matias figuram, inclusive, o candidato da esquerda nas recentes eleições para a Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, e o ex-deputado que foi voz das causas LGBT+ no parlamento brasileiro, Jean Willys.

O burlão que saiu do frio

De um político do séc. XXI, espera-se, ideologias à parte, que carregue o património civilizacional conquistado ao longo de séculos

Escondidos da vaga polar, a dias do novo confinamento, assistimos à campanha presidencial mais estranha de sempre: sem ruas, sem praças e sem beijinhos. Odioso, o vírus obriga os candidatos à agilidade mediática, sobrecarregando assessores e jornalistas, e à proficuidade digital, com rios de dinheiro investidos no online. Do outro lado do Atlântico, o exército fanático de Trump assalta a casa da democracia americana, como que concretizando o fetiche sádico de um vilão netflixiano. Tal como no final apoteótico de um filme mau, a invasão do Capitólio por um bando de fanáticos foi o previsível clímax de quatro anos de ódio, mentira e destruição democrática. Para a Europa, onde uma vaga de pupilos de Trump lhe copia o método, torna-se evidente a urgência de fortificar a Democracia contra o populismo barato e retrógrado. E esse processo já começou: em Portugal também.

Se, neste amado retângulo à beira-mar plantado, as modas chegam frequentemente com atraso, há momentos em que o nosso estatuto de país periférico se torna vantajoso. No caso da vaga mundial de oportunistas de extrema-direita, essa realidade evidencia-se. Se, como um irmão mais novo, formos capazes de aprender com os exemplos que nos precedem, prevenindo erros crassos e respondendo à altura, conseguiremos não cair na esparrela.

Esta semana, os Estados Unidos da América escancararam a falência da sua democracia, até para quem não acreditava ou se recusava a fazê-lo. Uma sociedade fragmentada, moralmente falida e sem rumo, vigiada pela Estátua da Liberdade como o espelho de um sistema em desabamento. Outrora tida como sólida e, para alguns, até um “farol do mundo”, a democracia americana foi deixada em cinzas por um homem que, tal como os aprendizes que o seguem, se aproveitam do legítimo cansaço, do descontentamento e da frustração das pessoas, para tomar o poder e deitar por terra o castelo de areia. Se a queda de Trump foi uma das poucas boas notícias de 2020, a recuperação americana desse vírus político levará bem mais do que quatro anos. Mas como é que alguém assim foi lá parar?

Há certas características que fazem de Trump um protótipo de populista radical e é importante que saibamos encontrá-las nos políticos que as replicam. Tornado célebre no seio de uma cultura mediática dependente do grotesco e do escândalo, Trump conquistou os holofotes da televisão e a atenção do público por via de um estilo diferente do habitual nos políticos: um registo “sem papas na língua”, que diz “o que lhe apetece” e “sem medo de ser politicamente incorreto”. Este cunho difere muito, felizmente, da pose natural de um político democrático moderno – que, quando fala ou age em público, tenta, por norma, seguir uma linha de racionalidade, escolhendo gestos e palavras dentro de um quadro de valores culturais e civilizacionais. De um político do séc. XXI, espera-se, ideologias à parte, que carregue o património civilizacional conquistado ao longo de séculos. Afastando-se do polimento esperado de um político, os novos populistas aproximam o seu discurso do modo como falam as pessoas nas novelas, nos reality shows ou no comentário desportivo – sem filtros e sem regras -, tornando tudo extremamente mais simplista e, portanto, “viral”. Certas camadas da população, vítimas de um sistema desigual e incapaz de lhes dar oportunidades, sentem-se próximas deste discurso e identificam-se com ele. De seguida, a receita manda “dividir para reinar”: tanto Trump, como Bolsonaro, Modi, Erdogan, Salvini, Strache ou Abascal se apressam a criar inimigos, sejam eles os imigrantes, os pobres, os media, “a esquerda”, ou “aqueles que não querem trabalhar”. Não interessa quem são os inimigos, desde que sejam, alegadamente, bastantes. Por fim, a desinformação: todos estes populistas criam os seus próprios circuitos fechados de comunicação, com especial aposta nas redes sociais, nos grupos privados e nos canais de Youtube, para manipular e radicalizar a sua base de apoio. Todos apressam-se a descredibilizar os meios de comunicação convencionais, como os jornais, a televisão ou a rádio, convencendo os seus seguidores de que são detentores “da verdade”. Soará esta estratégia familiar a Portugal?

As eleições presidenciais estão ao virar da esquina e os debates têm evidenciado uma série de aspetos. Em 2021, candidata-se à Presidência da República um grupo diversificado de pessoas com posições e ideologias muito diferentes, face ao qual cada português exercerá a sua livre escolha. Mas, mais do que insistir na divisão simplista e enganadora entre esquerda e direita, há que olhar para este espectro com o filtro da democracia, infalível como o algodão. Há candidaturas democráticas e uma candidatura antidemocrática. Entre as várias candidaturas, há uma, e apenas uma, que pertence à família de Trump. Há uma candidatura cujas propostas negam o nosso progresso civilizacional e recusam o património coletivo do respeito pelos Direitos Humanos, apelando à intolerância, à divisão e à discriminação. Apesar de não ter a mínima hipótese nestas eleições, há uma força política que se diz nacionalista e católica, mas segue o modelo da extrema-direita internacional (o que é, no mínimo, estranho para um movimento dito nacionalista) e vai contra a doutrina social da Igreja e contra todos os valores da cristandade. Essa força política assenta a sua campanha na ideia da divisão entre os “portugueses de bem” e os outros, quando, curiosamente, foi exatamente isso que Trump chamou aos invasores do Capitólio: “pessoas de bem”. Perante esta afronta, a democracia terá de se defender. E todos os democratas, de esquerda e de direita, são chamados à defesa.

Depois de quatro anos em que o “assalto à democracia” pelo populismo americano foi uma força de expressão dos comentadores políticos, a democracia foi, de facto, assaltada, no Capitólio. A literalização desta figura de estilo é, uma vez mais, a prova de que as palavras não são “só palavras”: o discurso de ódio fragmentário resultará sempre em ódio real e divisão. Para combater a fria vaga dos extremismos, há duas vias claras: primeiro, traçar linhas vermelhas, não dando confiança a projetos antidemocráticos, e acabando com a tolerância para com os intolerantes. Segundo, atacar os problemas que motivam o descontentamento legítimo das populações: sem justiça e direitos sociais, sem combate à corrupção e às desigualdades, nenhuma sociedade será saudável. As democracias sólidas têm tudo aquilo de que precisam para eliminar as forças extremistas: inteligência, valores e humanismo.

Democratas de todo o mundo, uni-vos!

Henrique Costa Santos, Visão, 11 de Janeiro de 2021