A promoção da cultura científica não é só política simpática

Numa família que a minha família conhece, num país estrangeiro, um dos filhos deu já há anos
em islamista radical. Há poucos meses, a novidade é que esse filho é agora fundamentalista antivacinas; nas manifestações a que vai e nos círculos onde recolhe desinformação, partilha agora a causa e os objetivos de islamofóbicos radicais. Uma teoria da conspiração nunca vem só, e provavelmente ele e os seus inimigos figadais são ainda capazes de partilhar elementos de anti-semitismo clássico, negacionismo das alterações climáticas e por aí afora. Crenças são crenças; uma das suas características mais perenes é ser praticamente impossível persuadir alguém a abandonar racionalmente uma crença que não adotou de forma racional ou, como dizia o filósofo David Hume, “não se consegue tirar racionalmente uma pessoa de uma crença na qual não entrou racionalmente”. A única forma é combater por antecipação: preparar as pessoas para exercerem o seu raciocínio e espírito crítico por si mesmas, de acordo com princípios lógicos, inferências prováveis e uma base de conhecimentos adquirida penosamente ao longo de séculos, sempre possível de revisão, mas a mais sólida e certa que temos. A isto chama-se normalmente “promover a cultura científica”. Em geral, ninguém se opõe à promoção da cultura científica, que costuma ser considerada uma política “simpática”. Mas nos tempos que correm, porém, promover a cultura científica é mais do que isso: é uma questão literalmente de vida ou de morte, urgente e decisiva.
O exemplo do negacionismo anticovid, ou antivacinas, é evidente e fácil de explicar. Quando há uma bolsa
suficientemente grande de gente que não se vacina, todos ficamos em risco pela possibilidade de aparecimento de novas variantes que aí encontram terreno fértil para se desenvolverem. Mas se é nesse momento apenas que temos de fazer a pedagogia das vacinas, então já chegámos tarde demais. A promoção da cultura científica não se dá bem quando é preciso vociferar; ela tem de ser feita com vagar, com paciência e serenidade durante décadas, desde o início da exploração consciente do mundo, de várias formas diferentes. E não tem havido políticas de promoção
científica suficientemente amplas para isso tudo. A covid-19 é uma urgência — e agora vemos a falta que a literacia
científica faz às sociedades. Mas as alterações climáticas são uma urgência também — e um problema de uma magnitude acrescida a que não conseguiremos responder se também aí tivermos de estar agora a fazer o combate de retaguarda, pela confiança nos dados científicos, que deveria já estar ganho há muito tempo. E o impacto da Inteligência Artificial nas próximas décadas, ou da desinformação na rede, são mais outras de tantas urgências que não
é possível resolver sem promoção da cultura científica.
Infelizmente, aí esbarramos noutro problema — o da própria visão estreita da cultura científica que tantas vezes prevalece no espaço público. Promover a cultura científica não significa só meter cientistas no governo ou pôr políticos a transferirem as suas responsabilidades para a ciência, como quem diz “nós seguimos a ciência” e já está. Significa ter cada vez mais cidadãos capazes de entender o debate científico mesmo como não especialistas, e até de participar em projetos da chamada “ciência cidadã” (por exemplo, de recolha de dados estatísticos sobre o ambiente, o clima, etc.). Promover a cultura não significa insuflar a arrogância de cientistas ou a insularidade da ciência — pelo contrário, significa lançar mais pontes entre as ciências e as humanidades, entre estas e as artes, entre todas elas e a
cidadania. Isto é trabalho que demora décadas, que começa cedo na escola, que prossegue ao longo da vida de várias formas diferentes. Que nos habilita a fazer crítica de fontes, a saber debater de forma construtiva e serena, a pesar argumentos e a medir riscos. Um dos elementos de sedução do negacionismo está no facto de os negacionistas afirmarem que chegaram às suas verdades sozinhos. Pois bem, promover a cultura científica não pode
significar dizer às pessoas para aceitarem acriticamente o que lhes dizem, mas antes de as habilitar a serem capazes de encontrar o seu caminho e de lhes dar as ferramentas de que todos hoje necessitamos para navegar umarealidade na qual a cultura científica é decisiva. Sem isso, nenhum dos nossos problemas presentes e do futuro próximo é resolúvel.

Rui Tavares, Público, 11 de Agosto de 2021

Analista: ‘ou instituições democráticas atuam ou há grande chance de regressão democrática no Brasil’

A polarização política é a grande tensão social no Brasil, segundo levantamento Guerras Culturais, da empresa Ipsos. A cada dez brasileiros, oito dizem acreditar que há tensão elevada entre pessoas que defendem bandeiras partidárias diferentes no país.

“Os resultados trazem uma importante contribuição ao debate que se estabelece no Brasil neste momento, em que a polarização política, que tem se espraiado para todos os setores da nossa sociedade, atinge contornos críticos e sem perspectivas de arrefecimento”, afirma Helio Gastaldi, diretor de segmento de opinião pública da Ipsos.

Polarização é natural e desejável

Segundo a pesquisa da Ipsos, 83% da população brasileira diz acreditar que há muito conflito entre apoiadores de diferentes partidos. A média global é de 69%. André Luis Coelho, professor adjunto da Escola de Ciência Política (ECP) da Unirio, explica que, a princípio, a polarização política é natural, desejável e boa.

“Não tem como pensar em política sem pensar em polarização política […]. A política existe para diminuir ou evitar o derramamento de sangue […] a política tenta resolver esses conflitos que no passado geravam guerras e mortes de maneira pacífica. Então a polarização é natural e desejável. O problema é quando ela ultrapassa os limites do desejável”, afirma Coelho em entrevista à agência de notícias Sputnik Brasil.

O cientista político destaca que o problema é quando a polarização atinge um nível em que ambos os lados não se suportam, em que ambos os lados não querem mais conviver com o outro. Ou quando efetivamente alguma das instituições políticas, ou seja, o Judiciário, o Legislativo ou o Executivo, ultrapassa seus limites e acaba ampliando a polarização ou usando da polarização para ser majoritário em relação a outros poderes.

“A polarização acontece de maneiras distintas. Ela pode ser dada em termos religiosos, étnicos, a posição em relações a migrantes e não migrantes, entre direita e esquerda. A questão da ideologia é muito importante. A polarização pode ocorrer também de maneira muito simples entre quem faz parte do governo e quem faz parte da posição.”

Enfraquecimento das instituições

Em 2014, após perder a eleição para presidente para o PT, o PSDB pediu à Justiça Eleitoral uma auditoria no resultado do segundo turno. Na ocasião, o tucano Aécio Neves perdeu para a presidente Dilma Rousseff por uma diferença de 3,459 milhões de votos, na disputa mais apertada da história.

André Luis Coelho enxerga essa situação como o momento em que começa o enfraquecimento das instituições brasileiras.

“Quando o Aécio Neves perde para a Dilma Rousseff e se nega a aceitar os resultados, ele questiona a apuração. Esse processo é muito importante para entender o contexto de Bolsonaro questionando a apuração das eleições do Brasil”, garante.

Este ano, após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ter afirmado diversas vezes, sem apresentar provas, que as eleições de 2014 e de 2018 teriam sido fraudadas, o agora deputado federal Aécio Neves disse não haver indícios de fraude nas eleições presidenciais de 2014: “Não tenho nenhum indício que aponte para fraudes naquela eleição”.

O professor da Unirio frisa que é importante que as instituições deixem claro que todos têm que jogar dentro das regras, caso contrário a polarização só vai aumentar.

“Até 2014, os perdedores aceitavam o resultado das eleições. E tudo ocorria, salvo raríssimas exceções isoladas, dentro das instituições, dos marcos legais. O problema é quando um dos lados claramente não quer jogar dentro das instituições, ele diz que não aceita a derrota e que só Deus pode tirar ele da presidência. Não dá para jogar nas mesmas regras, com um adversário que não aceita as regras. Este é o ponto principal […]. Se meu adversário está jogando fora das regras, qual é o incentivo que eu tenho para jogar dentro das regras?”, questiona.

Outro ponto que André Luis Coelho destaca é que grupos negacionistas e extremistas ganharam espaço com as redes sociais e eles são um perigo para a democracia.

“[É preocupante] quando grupos extremistas, tanto de esquerda quanto de direita, que questionam a democracia, que questionam o bom senso, acabam tendo reverberação dentro do Executivo ou junto a parlamentares. Você tem a destruição por dentro do próprio sistema. Utilizando as redes sociais para minar as instituições”, comenta.

Por isso, o cientista político defende que é necessário algum controle e regulação no uso da tecnologia.

“As redes sociais têm que ter algum controle sim, e efetivamente tem que derrubar perfil falso, discurso de ódio, seja ele de qualquer autoridade constituída ou não, esses discursos devem ser encerrados nas redes sociais porque esses discursos acabam se retroalimentando […]. É muito fácil você chegar nas redes sociais e falar que odeia, mas na vida real você não faria isso. Temos comportamentos mais radicais que a gente não via antes das redes sociais.”

Instituições precisam reagir

André Luis Coelho acredita que atualmente Jair Bolsonaro utiliza o Executivo para minar e enfraquecer as outras instituições que fazem oposição a ele. Não oposição política ou partidária, mas simplesmente utilizam o sistema de freios e contrapesos que norteiam o processo democrático.

“O sistema de freios e contrapesos mostra que nenhum dos três poderes pode ser mais forte do que outro poder […]. Quando um poder tenta ser mais forte do que outro, a gente chama isso de hiperpresidencialismo, quando o poder Executivo, nos sistemas presidencialistas, busca ser mais forte, a gente espera que os outros poderes possam controlar os arroubos do Executivo. E o mesmo pode acontecer quando, em algum momento, o Legislativo ascende de maneira mais forte. Acho que o fortalecimento das instituições é o caminho, mas o problema é quando as instituições estão fragilizadas justamente por uma série de atos extrainstitucionais […] [que] enfraquece esse controle mútuo das instituições.”

O professor da Unirio afirma que é preciso agir concretamente, com responsabilizações e penalizações, contra grupos que são contrários à democracia e ir além de notas de repúdio.

“Já teve, há algum tempo, pessoas que foram presas porque organizam atos contra ao STF [Supremo Tribunal Federal], mas a gente não vê do Supremo a mesma atuação quando outros grupos também são vítimas desses ataques. Gostaria que o mesmo tom usado contra aqueles que foram contra o STF fosse utilizado contra outros grupos que fazem discursos de ódio, racista, misógino ou que questionam o sistema como um todo. Acho que estamos em um momento limiar: ou as instituições democráticas resolvem atuar ou a gente tem uma chance muito grande de regressão democrática no Brasil”, alerta.

Polarização e as eleições em 2022

André Luis Coelho acha pouco provável que a polarização diminua antes da eleição presidencial do ano que vem. Inclusive, o cientista político defende que a pandemia do novo coronavírus acirrou ainda mais a polarização no país, entre quem está com Bolsonaro e quem está contra o presidente.

“Como qualquer presidente, ou como qualquer membro do Executivo, seja ele presidente, governador etc. quem está na situação vai sempre ser vidraça, vai ser sempre questionado. No caso de Bolsonaro mais ainda por causa do controle da pandemia, ou do descontrole da pandemia. Então você tem de fato uma megapolarização entre quem é contra Bolsonaro e quem é favorável”, comenta sobre o cenário para 2022.

Dessa forma, o cientista político acredita que mesmo que Lula saia candidato pelo PT ano que vem, os presidenciáveis da terceira via vão focar seus esforços, pelo menos em um primeiro momento, em atacar o presidente Bolsonaro.

Por outro lado, se não surgirem candidatos viáveis na terceira via, o professor da Unirio acredita que Lula, teoricamente, teria tudo para vencer as eleições, mas faz duas ressalvas:

“Lula tem tudo para vencer as eleições neste momento. Se fosse hoje, Lula teria tudo para vencer, mas não cravaria uma vitória por duas questões: eu não sei se Lula será candidato, não sei se vão permitir, como não permitiram que ele fosse candidato no passado, nada garante que não o permitam novamente. Também não está claro se esses grupos que foram contrários ao PT no passado, mas que hoje estão sentados ao lado do PT contra Bolsonaro, se eles vão apoiar Lula ou não vão apoiar Lula. Isso não está claro.”(com agência Sputnik Brasil)

Jornal do Brasil, 06 de Agosto de 2021

Ainda (e sempre) Otelo

Aminha avó materna, nascida em 1914, não tinha o que chamaríamos hoje de grande consciência política. Tinha algumas convicções, poucas e absolutamente seguras, que valem o que valem: a de que Salazar e Marcello Caetano eram simplesmente uns “cínicos”, o que, para ela, significava que provavelmente pensavam uma coisa e diziam outra; e que Otelo e Jorge Sampaio eram as melhores pessoas que lhe tinham aparecido, no seu julgamento simultaneamente sábio e ingénuo, como figuras políticas depois do 25 de Abril. Várias vezes a ouvi, eu criança, provavelmente passeado por ela em direção ao Mercado de Campo de Ourique, elogiar Otelo – e estamos a falar de 1981, 82, 83. Tal como, depois, a via com imensa atenção às intervenções públicas, na televisão, de Jorge Sampaio.

Otelo tem desde logo uma característica rara. Bastava o seu primeiro nome. Em relação aos nossos atuais servidores públicos de topo, há diferenças. O “Costa” pode ser o primeiro-ministro, mas pode ser também o dono da oficina do bairro. O “Marcelo” pode ser este que está, mas pode ser também o anterior dono da cadeira do poder, tal como pode ser, para muitos dos mais novos, o Marcelo Twelve, youtuber brasileiro com 1,25 milhões de seguidores. O “Otelo”, para nós, era o Otelo. Amado ou odiado, era o Otelo (como o Cunhal, o Soares ou o Eanes).

Depois de morto, é muito mais fácil ser herói. Otelo não terá sido sempre herói, pelo menos para todos. Mas provavelmente foi-o num período decisivo, para quem acredite que a queda da ditadura era fundamental e eram precisas pessoas sem medo para executar uns “detalhes”… – no caso, um golpe de Estado militar que anulasse um regime político com décadas de existência e viesse a permitir uma Constituição e um Estado efetivamente democráticos, descolonizadores e livres. E um herói, talvez estranhamente, que surge nesse momento como frio, eficaz e decente. Afinal, teria sido razoavelmente fácil mandar em 1974, então sim, fuzilar uns quantos (desde logo pides e afins, esses proscritos imediatos com os quais todos os regimes recém-democráticos têm tanta dificuldade em lidar: os delatores e torturadores que permanentemente vivem entre nós).

Tal nunca aconteceu. E é preciso procurar muito na história por revoluções sem sangue (a não ser as mortes, por desespero de uns quantos desgraçados do regime que finava e basicamente por medo físico, à porta da sede da PIDE), seja um sangue justiceiro, devido ou só injusto.

E, se gostamos do resultado final do 25 de Abril, houve pessoas concretas que o fizeram. E Otelo foi um deles, à cabeça.

Nunca conheci Otelo pessoalmente – e devo dizer que tenho pena disso. Por vezes, ao ouvir a canção Maluco Beleza, de Raul Seixas (do ano em que nasci, 1977), lembrei-me de Otelo, nem sei exatamente porquê. Talvez me pareça ser um epíteto que lhe cairia bem, na sua melhor versão imaginável, sem qualquer apoucamento ou menorização, antes pelo contrário:

“Esse caminho que eu mesmo escolhi,
É tão fácil seguir, por não ter onde ir.”

À nossa volta, temos agora, como eventual futuro político feito de nomes, Pedro Nuno Santos, Ana Catarina Mendes, Jorge Moreira da Silva, Paulo Rangel, João Cotrim de Figueiredo, André Ventura, Catarina Martins, João Ferreira, etc., entre outros. Tantos nomes… Podem ser excelentes – ou nem por isso, consoante as convicções naturais e circunscritas de cada um de nós. Mas Otelos? Aqui não há nenhum. E esta amplitude de escolha deve-se em boa medida e graças: a ele.

Miguel Romão, Diário de Notícias, 30 de Julho de 2021

O Chega vive do nosso medo e está a vencer

Ignorar é a maneira que se pensa politicamente correcta de olhar para os problemas criados pelos partidos xenófobos, racistas, homofóbicos e tudo o mais que lhes apetece ser em nome de uma suposta liberdade de expressão. Mas tudo tem limites e, como tanto gostam de dizer os politicamente incorrectos, a vida não está para meias tintas. Por isso, sugiro às autoridades deste país que façam cumprir a lei. Não vale tudo e os ataques racistas e homofóbicos dos últimos dias exigem que se perceba de vez que André Ventura é perigoso e põe em causa a liberdade em Portugal.

A limitação do líder do Chega e dos principais dirigentes leva-os a imitar comportamentos de partidos estrangeiros e a repetir à exaustão ataques a diferentes comunidades, procurando utilizar a ignorância de uma parte da sociedade para a dividir e liderarem os mais intolerantes e violentos. O medo que cresce em tempos de maior incerteza leva a que muitos de nós procuremos culpas nos que são diferentes. Diferentes na cor da pele, nos costumes, na religião que professam, na orientação sexual e até no campo político em que militam. Este medo natural que pode existir em relação ao que nos reserva o futuro é o único território em que prosperam os extremismos. Dos ciganos aos africanos, dos muçulmanos aos judeus, dos da ala esquerda aos da ala direita, dos homossexuais aos outros LGBTQI+, todos servem para mostrar que há uns “puros” que devem impor as regras aos outros. A vida em ditadura é a solução que preconizam para não terem de aturar ciganos e africanos ou “atitudes espalhafatosas de pessoas de orientação sexual diferente”, gente que é agredida por culpa “deles e só deles próprios”, como defende Ventura.

Estes ensaios de “porrada” que se vão repetindo aqui e ali pretendem espalhar o medo e fazer com que as minorias deixem de defender os seus direitos ou que entrem no jogo e façam crescer o confronto no terreno que agrada ao Chega. Num país democrático, isto é inconcebível e, num Estado de direito, isto são crimes puníveis por lei. Não apenas as agressões e os insultos, também a apologia do caminho da confrontação anti-democrática. Acobardámo-nos, quando decidimos ser tolerantes com a intolerância, quando julgamos ser possível convencê-los pelo exemplo, dando a outra face, quando tememos confrontá-los com a lei e a ordem, imaginando que isso os tornaria mais fortes. Eles vivem do nosso medo e estão a vencer.

Ciganos perseguidos sistematicamente pelo líder do Chega, insultos constantes a portugueses descendentes de africanos, discriminação de outras nacionalidades, ataques homofóbicos com agressões físicas, ameaças a jornalistas, infiltração das forças de segurança… Há uma responsabilidade dos partidos democráticos na Assembleia da República. É tempo de acabarem com os sorrisinhos cúmplices com o deputado racista. Ele não tem piada e representa uma ameaça séria para a sociedade portuguesa. Há uma responsabilidade acrescida dos partidos à direita (PSD, CDS e IL), que não podem defender nenhum tipo de conversação com o partido de todas as intolerâncias para chegar ao poder. Num país de cobardes, quando é que a lei se aplica ao Chega e a Ventura?

Paulo Baldaia, Diário de Notícias, 26 de Julho de 2021

Um grito. Reflexões sobre as manifestações em Cuba

Parece bem possível que tudo o que aconteceu em Cuba desde o último domingo, 11 de julho, tenha sido encorajado por um maior ou menor número de pessoas contrárias ao sistema, algumas delas até mesmo pagas, com o objetivo de desestabilizar o país e causar uma situação de caos e insegurança. Também é verdade que em seguida, como costuma acontecer nesses eventos, ocorreram atos oportunistas e lamentáveis de vandalismo. Mas acredito que nenhuma das evidências tira um pingo de razão do grito que escutamos. Um grito que também é fruto do desespero de uma sociedade que atravessa não só uma longa crise econômica e uma crise pontual de saúde, mas também uma crise de confiança e uma perda de expectativas.

A esse clamor desesperado, as autoridades cubanas não deveriam responder com os habituais lemas, repetidos há anos, e com as respostas que essas autoridades querem ouvir. Nem mesmo com explicações, por mais convincentes e necessárias que sejam. O que se impõe são as soluções que muitos cidadãos esperam ou exigem, alguns se manifestando na rua, outros dando sua opinião nas redes sociais e expressando sua desilusão ou discordância, muitos contando com os poucos e desvalorizados pesos que têm em seus empobrecidos bolsos e muitos, muitos mais, fazendo filas em um silêncio resignado por várias horas sob sol ou chuva, inclusive com a pandemia, filas nos mercados para comprar comida, filas nas farmácias para comprar medicamentos, filas para conseguir o pão nosso de cada dia e para tudo imaginável e necessário.

Acredito que ninguém com um mínimo de sentimento de pertencimento, com um sentido de soberania, com uma responsabilidade cívica pode querer (ou mesmo acreditar) que a solução para esses problemas venha de qualquer tipo de intervenção estrangeira, muito menos de natureza militar, como chegaram a pedir alguns, e que, também é verdade, representa uma ameaça que não deixa de ser um cenário possível.

Também acredito que qualquer cubano dentro ou fora da ilha sabe que o bloqueio, ou embargo comercial e financeiro dos Estados Unidos, como queiram chamá-lo, é real e se internacionalizou e intensificou nos últimos anos. E é um fardo muito pesado para a economia cubana (como seria para qualquer outra economia). Aqueles que vivem fora da ilha e querem hoje ajudar seus familiares em meio a uma situação crítica, podem comprovar que existe e o quanto existe ao serem praticamente impedidos de enviar uma remessa para seus familiares, só para citar uma situação que afeta muitos. É uma política antiga que, aliás (às vezes alguns esquecem), praticamente todo o mundo tem condenado por muitos anos nas sucessivas assembleias das Nações Unidas.

E não acredito que alguém possa negar que também foi desencadeada uma campanha midiática na qual, até das formas mais grosseiras, foram divulgadas informações falsas que, do princípio ao fim, só servem para diminuir a credibilidade de seus gestores.

Mas acredito, junto a tudo o que foi dito acima, que os cubanos precisam recuperar a esperança e ter uma imagem possível de futuro. Se a esperança se perde, perde-se o sentido de qualquer projeto social humanista. E a esperança não é recuperada pela força. Ela é resgatada e alimentada com soluções, mudanças e diálogos sociais, que por não chegarem têm causado, entre tantos outros efeitos devastadores, os anseios migratórios de tantos cubanos e agora provocam o grito de desespero de pessoas entre as quais certamente havia criminosos oportunistas e pessoas pagas para tanto. Embora eu me recuse a acreditar que no meu país, a esta altura, possa haver tanta gente, tantas pessoas nascidas e educadas entre nós que se vendam ou cometam crimes. Porque se assim fosse, isso seria fruto da sociedade que os fomentou.

A forma espontânea com que um número notável de pessoas também tem se manifestado nas ruas e nas redes, sem se atrelar a nenhuma liderança, sem receber nada em troca ou roubar nada pelo caminho, deveria ser um alerta. E penso que é uma amostra alarmante das distâncias que se abriram entre as esferas políticas dirigentes e as ruas (e isso foi até mesmo reconhecido pelos dirigentes cubanos). Só assim se explica que o que aconteceu, sobretudo em um país onde quase tudo se sabe quando se quer saber, como todos nós também sabemos.

Para convencer e acalmar os desesperados o método não pode ser o das soluções de força e obscuridade, como impor um apagão digital que cortou há dias as comunicações de muitos, mas que não impede as ligações de quem quer dizer alguma coisa, a favor ou contra. Muito menos pode se empregar como argumento de convencimento a resposta violenta, especialmente contra os não violentos. E já se sabe que a violência pode ser não apenas física.

Muitas coisas parecem estar em jogo hoje. Talvez até depois da tempestade venha a calmaria. Talvez os extremistas e fundamentalistas não consigam impor suas soluções extremistas e fundamentalistas, e não se enraíze um perigoso estado de ódio que tem crescido nos últimos anos.

Mas, de qualquer forma, é necessário que cheguem as soluções, respostas que não deveriam ser apenas de natureza material mas também de caráter político. E assim uma Cuba melhor e inclusiva poderia responder às razões desse grito de desespero e perda de esperanças que, em silêncio, mas com força desde antes do 11 de julho, vinham de muitos de nossos compatriotas. Esses lamentos que não foram escutados e cujas chuvas originaram esse lamaçal.

Como cubano que vive em Cuba, trabalha e acredita em Cuba, presumo que tenho o direito de pensar e expressar minha opinião sobre o país em que vivo, trabalho e acredito. Já sei que em momentos como este e ao tentar expressar uma opinião, acontece de ser “sempre reacionário para alguns e radical para outros”, como disse certa vez Claudio Sánchez Albornoz. Também assumo esse risco, como um homem que almeja ser livre, que espera ser cada vez mais livre.

Leonardo Padura, La joven Cuba, 16 de Julho de 2021

Os ricos têm culpa da fome?

Olho duas chamadas para notícias de uma homepage de um site de informação. Uma titula: “ONU alerta para “agravamento dramático” da fome no mundo devido à pandemia”. Outra relata: “Richard Branson foi ao espaço e voltou astronauta”.

Hesito… Vou ler primeiro a aventura espacial do milionário ou a tragédia terrena do planeta miserável?

Cedo à fraqueza do prazenteirismo e leio o texto sobre o astronauta rico.

… Lida a prosa, direi que aquilo é um bocado pífio: um avião, desconfortável, sobe, depois de largar os propulsores não sei onde, até 88 quilómetros de altura, o que, para a concorrência e gozo de outro milionário, Jeff Bezos, não é bem no espaço, é só “quase no espaço”.

Os passageiros passam por esse sofrimento para terem direito a quatro minutos de experiência sem gravidade e uma visão, pela janela, de lá de cima cá para baixo.

A ideia é cobrar 200 mil euros a cada turista pela tortura. Parece que há 600 interessados.

Passo para a notícia sobre a fome.

… Cinco agências das Nações Unidas estimam que 10% da população mundial não consegue alimentar-se adequadamente.

Os dados de 2020 apontam para 720 a 811 milhões de pessoas com fome. Só em África são 282 milhões de pessoas. Por causa disso 149 milhões de crianças menores de 5 anos têm o crescimento atrofiado.

Trinta por cento da população mundial, 2300 milhões de pessoas, não tem acesso a uma alimentação adequada.

Para tirar 100 milhões de pessoas da desnutrição crónica são necessários 11,8 mil milhões de euros por ano até 2030.

Para atingir a fome zero na próxima década o esforço estimado seria de 33,72 mil milhões de euros anuais.

Fecho a notícia, convencido de que a ONU nunca vai arranjar o dinheiro para, como tem projetado, acabar com a fome no mundo até 2030. Não é surpresa.

Claro que acho surpreendente que Richard Branson tenha mudado a residência oficial para as Ilhas Virgens Britânicas e, graças a isso, não precise de pagar impostos há 14 anos – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?

Claro que é estranho que este homem se dedique a divertimentos dispendiosos em idas ao espaço, nos quais perde cerca de 150 milhões de euros anuais – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?

Claro que é bizarro o líder do Virgin Group ter as companhias de aviação tradicional em colapso e reclame apoios ao governo britânico, aos contribuintes ingleses, no valor de 7500 milhões de libras – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?

Claro que é um bocado chato que, ao mesmo tempo, no meio da pandemia, este mesmo Richard Branson, vendedor da experiência de imponderabilidade a 200 mil euros, tenha mandado os funcionários para casa durante oito semanas sem lhes pagar o salário – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?…

… Ai a fome no mundo, a fome no mundo….

Lembrei-me agora: ontem passaram 36 anos sobre o dia do maior concerto de rock de todos os tempos. Foi o Live Aid, que angariou, num espetáculo de 16 horas, simultâneo em Londres e Filadélfia, 180 milhões de euros para acudir a uma crise de fome na Etiópia.

A cara da iniciativa, o roqueiro Bob Geldof, quando foi confrontado com críticas a deficiências da organização e aos resultados práticos obtidos, respondeu o seguinte: “Levantámos uma questão que não estava em qualquer lugar da agenda política e, por meio da língua franca do planeta – que não é o inglês, mas o rock’n’roll -, fomos capazes de abordar o absurdo intelectual e o nojo moral de haver pessoas a morrer de carência num mundo de excedentes,”

Leio, na mesma notícia sobre o aumento da fome no mundo, esta frase do secretário-geral da ONU, António Guterres: “Num mundo de abundância” não há “desculpa para que milhares de milhões de pessoas não tenham acesso a uma dieta saudável”

Guterres diz agora exatamente a mesma coisa que Geldof dizia em 1985 e isso é uma ilustração irónica da nossa coletiva incapacidade homicida.

Não, claro que nada do que se passa com os ricos deste planeta tem a ver com a fome no mundo… ou tem?

Pedro Tadeu, Diário de Notícias, 14 de Julho de 2021

Justiça dá a mão ao populismo

O apoio aos mais pobres, aos pobres dos pobres, é uma gota no oceano dos gastos do Estado. Em Portugal, o rendimento mínimo garantido não chega a 40% do valor daquilo que é considerado o limiar da pobreza.

Ainda assim, há um discurso, outrora dominante à mesa do café, mas hoje transposto para a narrativa de uma certa política, a apresentar de forma pouco séria esse apoio aos que nada têm quase como responsável pela falência das finanças públicas. Uma narrativa populista e perigosa.

Ora na vizinha Espanha esse argumentário acabou de obter um apoio de peso. Um tribunal de Madrid recusou um pedido do Ministério Público para serem retirados cartazes, do partido de extrema-direita Vox, com a mensagem de que o apoio dado a crianças migrantes seria uma espécie de roubo aos idosos espanhóis. Os juízes não se limitaram a considerar tratar-se de um slogan eleitoral, cujas ideias não podem ser banidas. Foram mais longe. De acordo com o despacho judicial, citado pelo jornal “El País”, os magistrados asseguram que “independentemente dos valores em causa serem verdadeiros ou não” os menores estrangeiros “representam um evidente problema social e político”.

Um caminho perigoso está a trilhar a Justiça espanhola, colocando-se claramente ao lado de setores extremistas, legitimando em forma de lei o desrespeito pelos mais desprotegidos.

A onda populista ganha dimensão na Europa e também em Portugal. Ainda este fim de semana, não esqueçamos, André Ventura defendeu que se apurasse onde estão localizadas as comunidades subsiodependentes, a par da criação de um cadastro étnico-racial. Para já valha-nos a ministra do Trabalho, que tem em mãos a revisão do rendimento mínimo garantido, uma medida que considera ter sido visionária há 25 anos, e pretende manter em novos moldes.

Paula Ferreira, Jornal de Notícias, 6 de Julho de 2021

III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico

Escola Secundária de Camões

13 de novembro de 2021

Evento presencial e online

Apelo

Vivemos tempos marcados pelo empobrecimento das ideias e das coisas. Empobrecimento do pensamento, cada vez mais confinado nos limites da intolerância, da exclusão, contrariando a esperança que o 25 de Abril de 1974 nos fez acreditar.

Tempos em que o valor do trabalho e da solidariedade deram lugar à racionalidade da mão invisível do neoliberalismo que sustenta a acumulação da riqueza, o empobrecimento planetário das famílias e a destruição do planeta.

Tempos em que o pensamento crítico sobre o mundo em que vivemos é confrontado com a ideologia dominante, dos medos, das múltiplas formas de alienação e das ameaças.

Tempos em que o estado de guerra permanente, camuflado, subtil ou flagrante é imposto no Brasil, na Síria, em Cuba, nas Filipinas e por todo o planeta. Guerras externas e guerras internas contra um crescente número dos mais desprotegidos, mais vulneráveis, mais excluídos, mais racializados…

Tempos em que a Dignidade Humana está cada vez mais alheia do debate público, submersa por discursos de ódio, que os meios de comunicação públicos e privados alimentam 24 horas por dia, nas casas, nas escolas, nas universidades, nas ruas e praças de aldeias, vilas e cidades.

É neste contexto que a realização de III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico encontra a sua razão de ser, sobretudo em tempos de pandemia, onde é necessário manter bem alta a Voz da Liberdade.

O III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico, tem por referência o centenário do nascimento do educador Paulo Feire, que tem inspirado gerações de mulheres e homens que lutam pela justiça cognitiva, pela equidade e pela liberdade do pensamento que ajuda a compreender e a mudar o mundo em que vivemos.

O III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico, assume-se como um ato de resistência contra obscurantismo pela liberdade e pelo Pensamento Crítico em favor dos Direitos Humanos.

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”

“A educação faz sentido porque mulheres e homens aprendem que, aprendendo, podem se fazer e se refazer, porque mulheres e homens são capazes de assumir a responsabilidade por si mesmos.

“A educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”

“Nosso papel não é falar ao povo sobre nossa visão de mundo, ou tentar impô-la a ele, mas dialogar com ele sobre a sua e a nossa.”  

Mário Moutinho

Moema Silva

João Jaime Pires

Guadalupe Poretelinha