Sessão de cinema no Auditório da Escola Secundária de Camões com uma homenagem ao Luís Ribeiro

No próximo dia 16, 2ª feira, às 19 horas haverá uma sessão de cinema no Auditório da Escola Secundária de Camões com uma homenagem ao Luís Ribeiro.
Peço que divulguem.
Dado que o espaço do Auditório, face às regras de distanciamento exigidas é limitado, peço que confirmem a vossa presença para este e-mail:
m.cecilia.cunha@gmail.com

Há um ano ocorria o 2.º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: Uma nota


Há um ano tivemos a realização do II FÓRUM LIBERDADE
OU CRÍTICO, inserido no clima de comemoração dos Centenários de
Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner.

Olhando para o futuro, parece crucial que a Comissão Organizadora se pronuncie sobre a nova realidade decorrente das profundas alterações que foram produzidas pela pandemia que nos assolou. O inevitável novo comportamento de cada indivíduo, de cada família, de cada grupo profissional, da sociedade em geral, exige que o Movimento Liberdade e Pensamento Crítico” se posicione de forma clara, até porque a responsabilidade dos seus militantes aumenta acentuadamente, de acordo com o objetivo de disseminação de uma atitude cada
vez mais interventiva no aliciamento de nova(o)s companheira(o)s
que sejam cativados para engrossar a corrente e, sobretudo, estimular
o “pensamento criativo” e o “pensamento crítico”.

Quanto maior a capacidade do “pensamento crítico” mais vivas e estimulantes serão as manifestações do “pensamento criativo” com novas interpretações dos caminhos para a sociedade, garantindo não apenas
a afirmação da individualidade, mas a abertura de outros campos de
exercício de ambos os “pensamentos”, todo um movimento que se desenvolve
na simultânea e permanente luta pela plena Liberdade.
Refletindo mais uma vez sobre a mensagem de Agostinho, acreditamos
que, apesar de não recordarmos leu ou ouvir, em seus textos ou oralmente,
o uso da expressão “pensamento criativo”, era este, exatamente,
que mais o interessava, o estímulo a que cada indivíduo seja motor de
transformação, como ele próprio demonstrou durante toda a sua vida.
E por todas estas razões e motivações, repetimos, aumenta significativamente
a exigência aos militantes do MLPC; em o fazer crescer, de
modo a estar presente em todo o território nacional, como lá atrás se
enfatiza, os que já o são e os que virão, ou seja, manter, sem vacilo, uma
intervenção cívica permanente e objetiva.
A Comissão Organizadora anuncia que NÃO SE REALIZARÁ EM
2020 o III FÓRUM LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO, dada
a situação de pandemia do Covid 19, aliás com sinais claros de continuidade,
se não mesmo de seu recrudescimento. Não poderíamos de
modo algum promover um evento que reuniria cerca de 300 pessoas,
sem condições portanto de cumprimento da exigência de distanciamento
social, em vigor.
Mais ainda porque o FÓRUM se realiza no Liceu Camões, onde iríamos
introduzir “intrusos”, que poderiam transmitir o vírus a todos os
docentes, alunos e funcionários, enfim um conjunto de razões justificativas
de seu adiamento.
Naturalmente, Direção de Cultura da CML e a Diretoria do Liceu Camões,
estão absolutamente de acordo com nossa decisão.
A Comissão Organizadora

CONCEITO DE PENSAMENTO CRÍTICO
DEFINIÇÃO E SIGNIFICADO. SEM PRECONCEITOS
Camilo Mortágua*
O pensamento crítico consiste em analisar e avaliar a consistência dos
raciocínios, em especial as afirmações que a sociedade considera verdadeiras
no contexto de vida cotidiana.
Essa avaliação pode realizar-se através da observação, da experiência,
do raciocínio ou do método científico. O pensamento crítico exige
clareza, precisão, equidade e evidências, já que visa evitar impressões
particulares. Neste sentido, está relacionado com o ceticismo e com a
deteção de falácias
Através do processo que implica o pensamento crítico, recorre-se ao
conhecimento e à inteligência para alcançar uma posição razoável sobre
um determinado tema ou assunto.
Entre os passos a seguir, os especialistas registam que é necessário adotar
a atitude de um pensador crítico; reconhecer e evitar os preconceitos
cognitivos; identificar e caracterizar argumentos; avaliar as fontes
de informação; e, finalmente, avaliar os argumentos.
Para isso, a pessoa que se utiliza desse tipo de pensamento precisa deixar
de lado crenças pessoais e fazer uso de análises. Seria como se essa
pessoa agora enxergasse as coisas como um espectador, como um juíz
totalmente imparcial, ou seja, como alguém que não participa da situação,
somente a analisa.
Nos dias atuais, o termo “crítico” está amplamente associado ao criticar
uma opinião, idéia ou mesmo alguém. No entanto, no tocante ao
pensamento crítico, isso nem sempre é verdade. Ele deve ser usado, em
muitas das vezes, para analisar se uma idéia ou argumento são viáveis.
Cabe portanto destacar que o pensamento crítico não implica pensar
de forma negativa nem com predisposição para encontrar defeitos e
falhas. Muito menos em tentar mudar a forma de pensar das pessoas
ou substituir os sentimentos e as emoções.
A pessoa que possui um pensamento crítico acaba também adquirindo
mais criatividade, conseguindo desenvolver idéias que a ajudarão tanto
quanto as pessoas à sua volta. Já que questionar os outros e a si mesmo
ajuda igualmente a ampliar seu conhecimento. Implica na capacidade
de sempre analisar uma situação de forma racional e distante.
Outro importante objetivo do pensamento crítico é evitar as pressões
sociais que levam à estandardização e ao conformismo O pensador
crítico procura entender como reconhecer e mitigar ou evitar os diferentes
enganos ou erros a que é submetido no dia-a-dia. Por essa
mesma razão, desconfia das fontes de informação, tais como os meios
de comunicação, pelo facto destes terem a tendência de distorcer a realidade.
A premissa do pensamento crítico é pôr em causa tudo aquilo
que se lê e ouve e, pela capacidade analítica, aproximar-se dos dados
objetivos – da verdade? — com o rigor indispensável.
No ambiente de trabalho, por exemplo, o pensamento crítico ajuda os
líderes a serem imparciais na hora de resolverem problemas entre seus
funcionários. Nesse caso também, o pensamento crítico se desvia de
opiniões pessoais e mantém o foco nos factos.

  • Dirigente do Movimento Liberdade e Pensamento Crítico

La venganza del “barrio horrible” de Atlanta

En enero de 2017, uno de los primeros insultos por Twitter de Donald Trump como presidente estuvo dedicado a los 292.000 vecinos de un barrio de sur Atlanta. “Es horrible”, “se está cayendo a pedazos” o “es un barrio infestado de crimen” fueron algunas de las perlas que el magnate republicano, por entonces recién instalado en la Casa Blanca, dirigió al condado de Clayton, un suburbio mayoritariamente negro y popular de la capital de Georgia.

Como un búmeran, la dirección de aquel mensaje ha dado ahora la vuelta para estamparse en la frente de Trump. El “barrio horrible” ha sido el gran protagonista en el vuelco en los resultados electorales en el Estado. Trump empezó ganando, pero el masivo apoyo demócrata de los vecinos de Clayton (84%, el mayor en los 150 condados del Estado) precipitó el viernes las primeras ventajas de Biden, que con el 99% escrutado, acariciaba este domingo la histórica primera victoria demócrata en Georgia en 24 años.

“Trump está pagando el precio de sus palabras. Nunca ha respetado a nadie y menos a nosotros”, dice a las puerta de su casa Alex Martens, un profesor de escuela jubilado de origen nigeriano y vecino de Clayton desde hace casi 20 años. Martens vive con su nieto Tony en una de las casitas prefabricadas de dos dormitorios distribuidas en hileras por una de las zonas residenciales del barrio. Un frondoso parque rodea la urbanización, pero sin iluminación pública en ninguna de las calles. “Es tranquilo aunque a veces pasan cosas”, reconoce Martens. Según los datos de la policía del condado, la tasa de casi todos los delitos se han mantenido a raya durante los últimos años. Salvo las violaciones, que se duplicaron el año pasado. “No es un barrio ideal pero aquello que dijo Trump fue por una pelea entre políticos. Él ni siquiera ha estado nunca aquí”, apunta otro vecino mientras come palomitas sentado en el soportal de su casa.

La pelea a la que se refiere, el origen de aquel insulto, fue su enfrentamiento con el legendario congresista John Lewis, el último representante de la generación de líderes negros que impulsaron en los sesenta la lucha por los derechos civiles en Estados Unidos. Fallecido en verano a los 80 años, la última batalla de Lewis fue plantar cara a Trump. Con más de tres décadas de carrera en el congreso representando el quinto distrito de Atlanta, del que forma parte Clayton, Lewis confrontó desde el primer momento al magnate republicano. Defendió abiertamente que no lo consideraba un presidente legítimo, por las dudas respecto la participación de ciberespías rusos que ayudaron a Trump en la elección de 2016. Y hasta se negó a participar en la toma de posesión, arrastrando con su enorme predicamento moral a más de una cincuentena de congresistas demócratas, que también boicotearon el acto. La presión del icónico líder afroamericano desencadenó la respuesta furiosa de Trump contra su condado.

“Me encanta el hecho de Clayton County, el territorio de John Lewis, pueda dar la victoria a Biden en Georgia. Ahora mismo debe estar celebrándolo en cielo con uno de sus famosos bailes”, dijo el viernes la exsenadora por Missouri, Claire McKaskill. Más allá del guiño a la justicia poética, Georgia, la tierra de Martin Luther King, es un Estado con una enorme tradición en la lucha por los derechos civiles. Pero no solo ha pesado el aura de las grandes figuras históricas en el vuelco electoral. El trabajo de una nueva generación de políticos afroamericanos, fundamentalmente mujeres, está empezando a dar sus frutos.

La abogada Stacey Abrams, 46 años, lleva una década dando la batalla contra la burocracia electoral, garantizando los derechos de los votantes más olvidados que muchas veces quedaban fuera por argucias y cuestiones formales como errores tipográficos en la papeleta. Abrams, la primera mujer negra en ser elegida candidata a gobernadora, ha logrado involucrar en el sistema a más de 800.000 nuevos votantes durante los últimos dos años. Desencadenado a su vez un efecto dominó en las instituciones, que ha aupado también a otra mujer afroamericana, Keisha Lance, 50 años, a la silla del ayuntamiento de Atlanta.

“Llevamos mucho tiempo trabajando en las comunidades. Tratando de recomponer lo que Trump ha roto en los últimos cuatro años”, explica Loretta Pereira, 60 años, una de las organizadoras de la campaña demócrata en Clayton, que reconoce que detrás de la gigantesca participación electoral —Georgia batió su récord histórico en estos comicios— hay un fuerte componente de voto de castigo. “Trump ha despertado mucho rechazo. Ha dado alas al supremacismo blanco. Incluso hay vecinos afroamericanos que le votaron en 2016 y que por primera vez han apoyado ahora a un candidato demócrata. Existe hasta una asociación en Clayton: ‘Republicanos contra Trump”.

El voto afroamericano, espoleado además por el repunte del movimiento por la justicia racial Black Lives Matter ante los sucesivos episodios de violencia policial, ha sido decisivo para encarrilar la probable victoria de Biden en Georgia, pendiente todavía de un casi seguro recuento, dada el mínimo margen entre los dos candidatos. De lograrlo finalmente, se convertiría en el único oasis demócrata en medio del cinturón negro sureño. Trump ha arrasado en Alabama, Misisipi, Luisiana o Arkansas. Según los datos que se van cribando de estas elecciones interminables, Trump ha mantenido su cuota entre los votantes afroamericanos, así como otras minorías como los hispanos o los asiáticos. El mordisco diferencial ha llegado entre los votantes blancos, que son dos tercios del total del electorado. En 2016 Trump ganó el voto blanco con 20 puntos sobre Hillary Clinton. Mientras que en esta ocasión solo se ha impuesto por 15 sobre Biden.

David Marcial Pérez

Atlanta (Georgia) 

El País, 9 de Novembro de 2020

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, felicitou Joe Biden e Kamala Harris, afirmando esperar empenho para uma “forte parceria transatlântica”.

“AUnião Europeia [UE] está a acompanhar de perto as eleições presidenciais e do congresso nos Estados Unidos. Tomamos nota dos últimos desenvolvimentos no processo eleitoral e, nesse âmbito, a UE felicita o presidente eleito Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris”, afirmou Charles Michel, numa declaração divulgada à imprensa em Bruxelas.

Na nota, Charles Michel sublinha que “a UE está empenhada numa forte parceria transatlântica e pronta a envolver-se com o presidente eleito, o novo congresso e a nova administração” norte-americana.

Michel congratulou-se, ainda, com “a participação recorde dos eleitores”.

O candidato democrata Joe Biden foi hoje anunciado como vencedor das eleições presidenciais de 03 de novembro, segundo projeções dos ‘media’ norte-americanos.

Segundo essas projeções, Biden totaliza 284 “Grandes Eleitores” do Colégio Eleitoral, derrotando o candidato republicano e atual Presidente, Donald Trump.

A posse de Biden como 46.º Presidente dos Estados Unidos está marcada para 20 de janeiro de 2021.

As eleições numa democracia doente

Manuel de Carvalho, O Público, 5 de Novembro de 2020

A democracia na América está doente e, sabia-se, o remédio
convencional das eleições jamais seria suficiente para a recuperar.
Num corpo político e social com fracturas intransponíveis, sem espaço
de diálogo e de compromisso, a braços com uma crise crescente de confiança nas instituições, com uma parte da população fixada na ideia de que a democracia é apenas um artifício dos políticos para lhe roubar o direito à cidade, é difícil afirmar valores morais, princípios republicanos, ideias de soberania ou de legitimidade baseadas na vontade popular. A América elegeu Donald Trump com a sensação difusa de que a democracia liberal se tornara uma farsa e voltou a entregar-lhe mais de 67 milhões de votos por acreditarque essa farsa continua. Uma vitória de Joe Biden permite acreditar numa convalescença longa e penosa; a reeleição de Trump confirmará talvez a sua agonia.
Se os americanos elegeram em 2016 um fanfarrão demagogo e impreparado, era possível suspeitar que o fizeram por desconforto, por
raiva ou, simplesmente, por protesto contra a sua adversária. Mas se tantos
americanos insistiram em Trump em 2020, depois de anos de erros, de
mentiras, de logros, de falsas promessas, de perturbações e
ameaças, de cumplicidade com a guerra racial ou cultural, de falta de
transparência em questões cruciais como os impostos, é porque a
democracia se tornou uma moeda de escasso valor facial. Não é a velha
clivagem saudável entre esquerda e direita, entre progressismo e
conservadorismo que está em causa: é a oposição entre a decência e a falta de escrúpulo. Se a democracia hesita nesta escolha, é porque se tornou uma
banal formalidade. A responsabilidade do problema não é, como tantos dizem, da imprensa liberal, que fez o seu dever de expor mentiras, o nepotismo ou a crendice no combate à pandemia.
Nem das divergências de um país de extremos, apesar das feridas abertas
do racismo. Na procura de uma resposta para a doença da
democracia, o efeito Trump pode então ter uma utilidade — a de
demonstrar que não há democracia na desigualdade extrema. Quando as
classes trabalhadoras dos subúrbios empobrecem, quando 1% dos
americanos controla 40% da riqueza nacional, a tolerância acaba, a revolta
cresce e a democracia degrada-se.
É neste pântano social e político que nascem fenómenos como o de Trump.
Ele, está provado, não tem soluções para o problema (até o agrava via
política fiscal). Mas, ao continuar a ser capaz de captar a indignação e o
descontentamento, prova que as democracias adoecem, quando deixam
de se preocupar com as pessoas. Mesmo que perca, a força de Trump
está aí como um aviso. Deixou de ser possível vê-lo como um acidente.

Mudar de Vida, , José Mário Branco, vida e obra

Na próxima 2ª feira, dia 9 de novembro, pelas 19h, no Auditório Camões. Mudar de Vida, , José Mário Branco, vida e obra é um documentário sobre a vida e obra do músico, compositor, poeta, actor, activista, cronista, produtor musical, José Mário Branco, um homem dos 7 ofícios que usa as suas canções, cuja actualidade se mantém, como instrumento transformador da realidade. A rodagem começou em Abril de 2005 e durante sete anos passou por Portugal e França, por ensaios, gravações de discos, conversas e concertos. No filme José Mário Branco fala de música, das suas convicções, da sua geração, do Estado Novo, da guerra colonial, da sua prisão e exílio. Trata-se do retrato de um homem que marcou o panorama artístico e cultural português e para quem a cantiga foi [sempre] uma arma.Mario Branco, vida e obra é um documentário sobre a vida e obra do músico, compositor, poeta, actor, activista, cronista, produtor musical, José Mário Branco, um homem dos 7 ofícios que usa as suas canções, cuja actualidade se mantém, como instrumento transformador da realidade. A rodagem começou em Abril de 2005 e durante sete anos passou por Portugal e França, por ensaios, gravações de discos, conversas e concertos. No filme José Mário Branco fala de música, das suas convicções, da sua geração, do Estado Novo, da guerra colonial, da sua prisão e exílio. Trata-se do retrato de um homem que marcou o panorama artístico e cultural português e para quem a cantiga foi [sempre] uma arma.

Mudar de Vida, José Mário Branco, vida e obra

Pedro Fidalgo, Nelson Guerreiro

Documentário, 2013, 115′

‘Não rejeitamos estrangeiros se forem turistas, cantores ou atletas famosos, rejeitamos se forem pobres’

A escritora e filósofa Adela Cortina (nascida em Valência, Espanha, em 1947) tem, entre suas muitas realizações, a de ter levado à língua espanhola um termo que a Real Academia da Língua adotou para definir o ódio aos indigentes, a aversão aos desfavorecidos.

E é precisamente esse termo que abre o título de seu último, Aporofobia, el rechazo al pobre (Aporofobia, a rejeição ao pobre, em tradução livre). Nascida em Valência, Espanha, em 1947, Adela é doutora honoris causa por diversas universidades, membro da Real Academia de Ciências Morais e Políticas de Espanha (foi a primeira mulher em fazer parte dessa instituição), professora emérita de Ética da Universidade de Valência e diretora da fundação Étnor.

Ela concedeu entrevista à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, no Hay Festival Arequipa 2020, no Peru, um encontro virtual de escritores e pensadores.

BBC Mundo – Você cunhou há mais de 20 anos o termo “aporofobia”, reconhecido pela Real Academia da Língua e incluído em seu dicionário. Como surgiu? De onde vem etimologicamente?

Adela Cortina – O termo “aporofobia” vem de duas palavras gregas: “áporos”, o pobre, o desamparado, e “fobéo”, que significa temer, odiar, rejeitar. Da mesma forma que “xenofobia” significa “aversão ao estrangeiro”, aporofobia é a aversão ao pobre pelo fato de ser pobre.

E a palavra surgiu da forma mais simples, quando percebemos que não rejeitamos realmente os estrangeiros se são turistas, cantores ou atletas famosos, rejeitamos se eles são pobres, imigrantes, mendigos, sem-teto, mesmo que sejam da própria família.

BBC Mundo – Por que é importante que haja uma palavra para denominar o ódio aos sem-teto?

Cortina – Porque as pessoas precisam dar nomes às coisas para reconhecer que existem e identificá-las; ainda mais se forem fenômenos sociais, não físicos, que não podem ser apontados com o dedo.

Nomear a rejeição aos pobres permite-nos tornar visível esta patologia social, investigar as causas e decidir se concordamos que continue a crescer ou se estamos dispostos a desativá-la por nos parecer inadmissível.

BBC Mundo – A aporofobia é um fenômeno especialmente de nossos tempos, em que o sucesso e o dinheiro são concebidos por muitos como valores supremos?

Cortina – Infelizmente, a aporofobia sempre existiu, está nas entranhas do ser humano, é uma tendência universal.

O que acontece é que algumas formas de vida e algumas organizações políticas e econômicas promovem a rejeição aos pobres mais do que outras.

Se em nossas sociedades o sucesso, o dinheiro, a fama e o aplauso são os valores supremos, é praticamente impossível fazer com que as pessoas tratem todas as pessoas igualmente, reconhecendo-as como iguais.

BBC Mundo – Como a aporofobia se manifesta na sociedade? Você pode nos dar alguns exemplos?

Cortina – Claro. Imigrantes e refugiados não são bem-vindos em todos os países, inclusive alguns partidos políticos ganham votos quando prometem fechar suas portas.

Tratamos com muito cuidado pessoas que podem nos fazer favores, nos ajudar a encontrar um emprego, ganhar uma eleição, nos apoiar a vencer um prêmio e abandonamos aquelas que não podem nos dar nada disso.

A sabedoria popular diz que você deve trocar favores em frases como “hoje por você, amanhã por mim”, e os pais muitas vezes aconselham seus filhos a se aproximarem de crianças em melhor situação. O bullying escolar é um exemplo de aporofobia.

BBC Mundo – De onde vêm a aversão e o medo dos pobres, de que se alimenta a aporofobia? É algo biológico, neuronal ou cultural?

Cortina – Para colocar em uma palavra muito bonita e muito apropriada, é biocultural.

A evolução do nosso cérebro e da nossa espécie é biológica e cultural, ambas as dimensões estão interligadas, influenciam-se mutuamente.

No caso da aporofobia, existe uma base biológica, uma tendência a colocar o que não interessa entre parênteses, o que pode ser reforçado pela cultura ou desativado, cultivando outras tendências, como simpatia ou compaixão.

BBC Mundo – Você argumenta que a aporofobia é universal e que todos os seres humanos são aporófobos. Em que você baseia essa afirmação?

Cortina – No fato de a antropologia evolutiva mostrar que os seres humanos são animais recíprocos, estão dispostos a dar aos outros, mas desde que recebam algo em troca, seja da pessoa a quem deram ou de outra em seu lugar.

Este mecanismo tem sido denominado “reciprocidade indireta” e é a base biocultural de nossas sociedades contratuais, tanto políticas quanto econômicas.

Estamos prontos para cumprir nossos deveres se o Estado proteger nossos direitos, estamos prontos para cumprir nossos contratos se outros o fizerem.

Mas quando há pessoas que parecem não conseguir nos dar nada de interessante em troca, nós as excluímos desse jogo de dar e receber. Esses são os pobres, os excluídos.

BBC Mundo – As religiões tradicionalmente pregam em favor dos pobres. O catolicismo garante, por exemplo, que deles será o reino dos céus, e o papa Francisco está constantemente mostrando seu apoio aos pobres. A crise das religiões está relacionada à aporofobia?

Cortina – Mais do que uma crise de religiões, eu falaria sobre o fato de que, com algumas exceções, vivemos em sociedades pós-seculares.

Nelas, o poder político e o religioso não se unem, o que é excelente, porque então o pluralismo é um fato, mas as religiões não desapareceram, continuam a ser fonte de vida e de sentido para muitas pessoas e para muitos grupos sociais.

Até mesmo seus valores, junto com outros, estão na raiz dos valores da ética cívica nesses países.

Quanto ao cristianismo, efetivamente aposta em todos os seres humanos e no cuidado da natureza, mas por isso mesmo, num mundo onde há ricos e pobres, faz uma opção preferencial pelos pobres, exigindo que eles sejam fortalecidos para que possam sair da pobreza.

BBC Mundo – A pandemia de coronavírus e a crise econômica que ela desencadeou podem aumentar a aporofobia?

Cortina – Por um lado, sim, porque quando as pessoas se encontram em situações de incerteza e medo, tendemos a fechar-nos em nós mesmos. Mas, por outro lado, o que a pandemia está mostrando é que foi a solidariedade que salvou vidas e evitou mais sofrimento.

Mostrou que somos interdependentes, e não independentes, que o apoio mútuo é o que nos salva. E essa força de solidariedade e compaixão é o que deve ser cultivado como o melhor aprendizado com a pandemia.

BBC Mundo – Você acha que a rejeição aos pobres está por trás da onda de xenofobia que nos últimos anos atingiu os Estados Unidos e a Europa? Se sim, por quê?

Cortina – Porque quando a situação política e econômica é ruim, buscam-se bodes expiatórios e os estrangeiros pobres são bodes expiatórios. Fechar as portas para eles, garantir que sejam um perigo e defender os de dentro contra os de fora é a tática dos supremacistas. Mas principalmente diante dos pobres.

BBC Mundo – Você considera que Donald Trump sofre de aporofobia? É possível que muito de seu sucesso político resida precisamente em sua aporofobia?

Cortina – Sim, acho que sim, e o mais triste é que isso gera votos. Ele não é um personagem extravagante e perturbado, mas um que sabe perfeitamente que muitas pessoas concordam com ele e, com isso, reforça sua aporofobia.

Veremos o que acontecerá na eleição e esperamos que a estratégia não dê bons resultados. Mas o pior é que Trump não é um caso isolado.

Em cada um de nossos países, o supremacismo nacionalista rejeita os que estão em pior situação e essa tática lhes dá votos. No século 21, devemos reverter essa tendência.

A aporofobia ameaça a democracia porque viola a igual dignidade de todas as pessoas, exclui os pobres, os que parecem não ter o que trocar.

É radicalmente excludente, quando a democracia deveria ser inclusiva.

BBC Mundo – E qual dano a aporofobia causa a quem sofre dessa patologia social? Estamos cientes de que somos aporofóbicos?

Cortina – Não estamos. Por isso é necessário falar sobre essa patologia na esfera da opinião pública e tentar descobrir em que medida a aporofobia está envolvida em nossas vidas.

Felizmente, existem grupos trabalhando nesse sentido, jovens realizando projetos de licenciatura, mestrado e projetos de pesquisa sobre aporofobia.

BBC Mundo – A aporofobia também se manifesta entre países? Os estados mais ricos mostram aversão aos mais pobres? E dentro dos países pobres também há aporofobia ou é mais prevalente nos países ricos?

Cortina – Claro, os países procuram a ajuda dos mais poderosos e isso explica, por exemplo, que se aproximem da China, esquecendo que o país não quer falar de direitos humanos.

E, dentro de cada país, acredito que em todos eles há também uma tendência de se afastar dos em situação pior, tratá-los como leprosos, no sentido bíblico da palavra.

BBC Mundo – Como a aporofobia pode ser combatida?

Cortina – Percebendo que ela existe e que não é apenas uma questão econômica, mas a rejeição dos piores colocados em cada situação.

Creio que se luta construindo instituições baseadas na igualdade de valor das pessoas, e educando no respeito pela dignidade de todas elas, e não só com palavras, mas também mostrando no dia a dia que nos reconhecemos e nos sentimos igualmente dignos.

Escritora Maria Teresa Horta distinguida com Medalha de Mérito Cultural

A escritora e jornalista Maria Teresa Horta vai ser distinguida com a Medalha de Mérito Cultural pelo seu “percurso ímpar na história da cultura portuguesa”, anunciou o Ministério da cultura.

A cerimónia chegou a estar programada para meados deste mês, mas a atual situação pandémica obrigou ao seu cancelamento, que terá lugar em “data mais oportuna”, no próximo ano, disse à Lusa fonte do gabinete da ministra.

Para Graça Fonseca, “Maria Teresa Horta tem um percurso ímpar na história da cultura portuguesa: como artista, foi sempre completa; como romancista, inovadora; como poeta, insubmissa; como cidadã, combateu sempre ao lado da liberdade das mulheres e dos homens”.

“Esta homenagem que lhe prestamos é, por isso, justa e necessária”, acrescentou.

A atribuição da medalha, este ano, verifica-se quando se comemoram os 60 amos de vida literária de Maria Teresa Horta. Em 2021, quando a medalha for entregue, assinalam-se os 50 anos sobre o início de conceção das “Novas Cartas Portuguesas”, que a autora escreveu com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.

Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa, onde frequentou a Faculdade de Letras, tendo-se estreado na poesia em 1960, com “Espelho Inicial”.

A sua obra poética editada em Portugal foi coligida em “Poesia Reunida” (2009), a que se seguiu “Poemas para Leonor” (2012), “A Dama e o Unicórnio” (2013), “Anunciações” (2016) — Prémio Autores SPA / Melhor Livro de Poesia 2017 –, “Poesis” (2017) e “Estranhezas” (2018).

Na ficção, é autora dos romances “Ambas as Mãos sobre o Corpo” (1970), “Ema” (1984) e “A Paixão segundo Constança H.” (1994), e coautora, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, das “Novas Cartas Portuguesas” (1972).

Em 2011, publicou “As Luzes de Leonor”, romance sobre a Marquesa de Alorna distinguido com o Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus.

Em 2014, ano em que lhe foi atribuído o Prémio Consagração de Carreira pela Sociedade Portuguesa de Autores, editou o volume de contos “Meninas”.

No ano passado, publicou “Quotidiano Instável”, designação da coluna que assinou no suplemento Literatura & Arte do jornal A Capital, entre 1968 e 1972, reunindo o conjunto de crónicas desse período.

Ao longo dos anos, esta coluna foi assumindo uma caráter cada vez mais ficcional, no percurso da escritora, e surge na sua bibliografia como “quase um romance”, de valor “literário, político e social”, nos derradeiros anos da ditadura.

Com livros editados no Brasil e em França, Maria Teresa Horta foi a primeira mulher a exercer funções dirigentes no cineclubismo em Portugal, e é considerada uma das mais destacadas feministas da lusofonia.

No mês passado, o seu nome foi incluído numa lista de 50 escritores que formam “O Cânone” da literatura portuguesa, numa obra de crítica literária editada pela Tinta-da-China, coordenada pelos professores e investigadores António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen.

RTP Notícias, 3 de Novembro de 2020

Rótulos, anátemas e ódios

Os ataques à França não podem nem devem ficar impunes, no que respeita a quem os levou a cabo. Nenhum de nós, são de espírito, pode deixar de os condenar, mas a forma como os mesmos foram noticiados é perigosa porque rotula, aumenta o fosso entre etnias, fomenta estereótipos.

e cada vez que ouço notícias ou percorro as redes sociais fico estarrecida com a facilidade com que aumentam as narrativas de ódio associadas a rotulagens nunca inocentes.

É como se de repente só houvesse uma única árvore podre e toda a Amazónia tivesse que ser arrasada.

Os ataques à França não podem nem devem ficar impunes, no que respeita a quem os levou a cabo. Nenhum de nós, são de espírito, pode deixar de os condenar, mas a forma como os mesmos foram noticiados é perigosa porque rotula, aumenta o fosso entre etnias, fomenta estereótipos e, sobretudo, porque não resolve problema algum.

Para além do horror do ataque o que retemos da notícia?

Que aconteceu num local de culto que faz parte da nossa religião, que uma mulher que podia ser  a nossa mãe, tia, avó foi decapitada, que outros inocentes encontraram a morte num santuário e… que o ataque foi feito por um jovem de pouco mais de 20 anos recém-chegado como migrante a França.

Não posso nem quero desculpar semelhante ato bárbaro. Mas temos que começar a olhar a forma como rotulamos os outros que são diferentes de nós e aos quais atribuímos estereótipos que perduram como anátemas durante séculos.

Senão vejamos: os pretos são todos calaceiros, os árabes são todos terroristas e fanáticos, os ciganos são todos ladrões.

Esta é a “narrativa de tasca” que os partidos radicais utilizam para passar as suas mensagens, que têm apenas como objetivo criar e fomentar o ódio.

As minhas raízes estão numa aldeia da raia, empoleirada entre Portugal e Espanha, de tal forma que se torna difícil muitas vezes dizer em que país estamos. Desde sempre me lembro de ver ciganos na aldeia, alguns de passagem, outros que acabaram por ficar, ali casaram dentro e fora da sua… Chamemos-lhes etnia apenas para contextualizar, de tal forma que, indo já na sexta ou sétima geração, algumas destas famílias adoptaram como sobrenome Cigano. Não como um estigma, mas com orgulho e apenas pelo que é: um nome!

Integrar alguém é torná-lo igual em direitos e deveres. Ora, no caso dos ciganos, esta questão não se coloca, pois eles são portugueses há centenas de anos! O que é que há para integrar? Posso obrigar alguém a gostar e a viver da mesma forma que eu? Não!

Na minha aldeia nunca ninguém ouviu falar de integração e acredito que em todas as aldeias da raia tão pouco. De diferente sempre lhe conhecemos a alegria das festas e dos cantares, lá isso… Mas até esses, nós, os outros, adotamos.

Integrar alguém é torná-lo igual em direitos e deveres. Ora, no caso dos ciganos, esta questão não se coloca, pois eles são portugueses há centenas de anos! O que é que há para integrar? Posso obrigar alguém a gostar e a viver da mesma forma que eu? Não! Posso e devo, isso sim, fazer cumprir os elementares deveres de cidadania e respeito pelo ser humano, mas esses são transversais.

Olhemos para as parangonas dos jornais, para as agressões domésticas, para os grandes roubos, para os desfalques, para os assassinatos… Não me consta que todos, nem sequer uma ínfima parte, tenham sido feitos por pretos, árabes ou ciganos.

Pelo contrário: todos eles eram “bons rapazes/raparigas”, “cumprimentava toda a gente”, “não se metia com ninguém”, “nada fazia prever”, “quem havia de dizer… “

No que se refere à comunidade cigana, temos muito a aprender com eles: o respeito pelos mais velhos, a importância da família e da comunidade, o despojamento, a alegria das pequenas coisas.

Porém, continuamos agarrados aos rótulos e aos estereótipos que criámos e não somos capazes de ver a realidade tal como ela é. Continua a ser notícia a cigana que chegou a advogada. O cigano que chegou a deputado, a juíz, a médico. Isto não devia ser notícia. Não pode ser notícia porque reflete uma exceção que nós mesmos ajudámos a criar muitas vezes, impondo barreiras com base nos estereótipos, nas narrativas que fomos criando ao longo do tempo. Continuamos a ser e a viver no nosso etnocentrismo.

As leis existem para serem cumpridas de acordo com o contrato social de cada sociedade. E nela têm que ser cumpridas por brancos, pretos, amarelos vermelhos, ciganos, judeus, católicos… A única exceção é quando a lei em vigor viola os direitos humanos e, aí sim, há espaço para a contestação, para a revolta.

Em tudo o resto, o não respeito dessas normas implica sanções, as mesmas para qualquer um. Porque raça só há uma: a humana.

Manuela Niza Ribeiro, Revista Visão, 2 de Novembro de 2020