O Chega vive do nosso medo e está a vencer

Ignorar é a maneira que se pensa politicamente correcta de olhar para os problemas criados pelos partidos xenófobos, racistas, homofóbicos e tudo o mais que lhes apetece ser em nome de uma suposta liberdade de expressão. Mas tudo tem limites e, como tanto gostam de dizer os politicamente incorrectos, a vida não está para meias tintas. Por isso, sugiro às autoridades deste país que façam cumprir a lei. Não vale tudo e os ataques racistas e homofóbicos dos últimos dias exigem que se perceba de vez que André Ventura é perigoso e põe em causa a liberdade em Portugal.

A limitação do líder do Chega e dos principais dirigentes leva-os a imitar comportamentos de partidos estrangeiros e a repetir à exaustão ataques a diferentes comunidades, procurando utilizar a ignorância de uma parte da sociedade para a dividir e liderarem os mais intolerantes e violentos. O medo que cresce em tempos de maior incerteza leva a que muitos de nós procuremos culpas nos que são diferentes. Diferentes na cor da pele, nos costumes, na religião que professam, na orientação sexual e até no campo político em que militam. Este medo natural que pode existir em relação ao que nos reserva o futuro é o único território em que prosperam os extremismos. Dos ciganos aos africanos, dos muçulmanos aos judeus, dos da ala esquerda aos da ala direita, dos homossexuais aos outros LGBTQI+, todos servem para mostrar que há uns “puros” que devem impor as regras aos outros. A vida em ditadura é a solução que preconizam para não terem de aturar ciganos e africanos ou “atitudes espalhafatosas de pessoas de orientação sexual diferente”, gente que é agredida por culpa “deles e só deles próprios”, como defende Ventura.

Estes ensaios de “porrada” que se vão repetindo aqui e ali pretendem espalhar o medo e fazer com que as minorias deixem de defender os seus direitos ou que entrem no jogo e façam crescer o confronto no terreno que agrada ao Chega. Num país democrático, isto é inconcebível e, num Estado de direito, isto são crimes puníveis por lei. Não apenas as agressões e os insultos, também a apologia do caminho da confrontação anti-democrática. Acobardámo-nos, quando decidimos ser tolerantes com a intolerância, quando julgamos ser possível convencê-los pelo exemplo, dando a outra face, quando tememos confrontá-los com a lei e a ordem, imaginando que isso os tornaria mais fortes. Eles vivem do nosso medo e estão a vencer.

Ciganos perseguidos sistematicamente pelo líder do Chega, insultos constantes a portugueses descendentes de africanos, discriminação de outras nacionalidades, ataques homofóbicos com agressões físicas, ameaças a jornalistas, infiltração das forças de segurança… Há uma responsabilidade dos partidos democráticos na Assembleia da República. É tempo de acabarem com os sorrisinhos cúmplices com o deputado racista. Ele não tem piada e representa uma ameaça séria para a sociedade portuguesa. Há uma responsabilidade acrescida dos partidos à direita (PSD, CDS e IL), que não podem defender nenhum tipo de conversação com o partido de todas as intolerâncias para chegar ao poder. Num país de cobardes, quando é que a lei se aplica ao Chega e a Ventura?

Paulo Baldaia, Diário de Notícias, 26 de Julho de 2021

Um grito. Reflexões sobre as manifestações em Cuba

Parece bem possível que tudo o que aconteceu em Cuba desde o último domingo, 11 de julho, tenha sido encorajado por um maior ou menor número de pessoas contrárias ao sistema, algumas delas até mesmo pagas, com o objetivo de desestabilizar o país e causar uma situação de caos e insegurança. Também é verdade que em seguida, como costuma acontecer nesses eventos, ocorreram atos oportunistas e lamentáveis de vandalismo. Mas acredito que nenhuma das evidências tira um pingo de razão do grito que escutamos. Um grito que também é fruto do desespero de uma sociedade que atravessa não só uma longa crise econômica e uma crise pontual de saúde, mas também uma crise de confiança e uma perda de expectativas.

A esse clamor desesperado, as autoridades cubanas não deveriam responder com os habituais lemas, repetidos há anos, e com as respostas que essas autoridades querem ouvir. Nem mesmo com explicações, por mais convincentes e necessárias que sejam. O que se impõe são as soluções que muitos cidadãos esperam ou exigem, alguns se manifestando na rua, outros dando sua opinião nas redes sociais e expressando sua desilusão ou discordância, muitos contando com os poucos e desvalorizados pesos que têm em seus empobrecidos bolsos e muitos, muitos mais, fazendo filas em um silêncio resignado por várias horas sob sol ou chuva, inclusive com a pandemia, filas nos mercados para comprar comida, filas nas farmácias para comprar medicamentos, filas para conseguir o pão nosso de cada dia e para tudo imaginável e necessário.

Acredito que ninguém com um mínimo de sentimento de pertencimento, com um sentido de soberania, com uma responsabilidade cívica pode querer (ou mesmo acreditar) que a solução para esses problemas venha de qualquer tipo de intervenção estrangeira, muito menos de natureza militar, como chegaram a pedir alguns, e que, também é verdade, representa uma ameaça que não deixa de ser um cenário possível.

Também acredito que qualquer cubano dentro ou fora da ilha sabe que o bloqueio, ou embargo comercial e financeiro dos Estados Unidos, como queiram chamá-lo, é real e se internacionalizou e intensificou nos últimos anos. E é um fardo muito pesado para a economia cubana (como seria para qualquer outra economia). Aqueles que vivem fora da ilha e querem hoje ajudar seus familiares em meio a uma situação crítica, podem comprovar que existe e o quanto existe ao serem praticamente impedidos de enviar uma remessa para seus familiares, só para citar uma situação que afeta muitos. É uma política antiga que, aliás (às vezes alguns esquecem), praticamente todo o mundo tem condenado por muitos anos nas sucessivas assembleias das Nações Unidas.

E não acredito que alguém possa negar que também foi desencadeada uma campanha midiática na qual, até das formas mais grosseiras, foram divulgadas informações falsas que, do princípio ao fim, só servem para diminuir a credibilidade de seus gestores.

Mas acredito, junto a tudo o que foi dito acima, que os cubanos precisam recuperar a esperança e ter uma imagem possível de futuro. Se a esperança se perde, perde-se o sentido de qualquer projeto social humanista. E a esperança não é recuperada pela força. Ela é resgatada e alimentada com soluções, mudanças e diálogos sociais, que por não chegarem têm causado, entre tantos outros efeitos devastadores, os anseios migratórios de tantos cubanos e agora provocam o grito de desespero de pessoas entre as quais certamente havia criminosos oportunistas e pessoas pagas para tanto. Embora eu me recuse a acreditar que no meu país, a esta altura, possa haver tanta gente, tantas pessoas nascidas e educadas entre nós que se vendam ou cometam crimes. Porque se assim fosse, isso seria fruto da sociedade que os fomentou.

A forma espontânea com que um número notável de pessoas também tem se manifestado nas ruas e nas redes, sem se atrelar a nenhuma liderança, sem receber nada em troca ou roubar nada pelo caminho, deveria ser um alerta. E penso que é uma amostra alarmante das distâncias que se abriram entre as esferas políticas dirigentes e as ruas (e isso foi até mesmo reconhecido pelos dirigentes cubanos). Só assim se explica que o que aconteceu, sobretudo em um país onde quase tudo se sabe quando se quer saber, como todos nós também sabemos.

Para convencer e acalmar os desesperados o método não pode ser o das soluções de força e obscuridade, como impor um apagão digital que cortou há dias as comunicações de muitos, mas que não impede as ligações de quem quer dizer alguma coisa, a favor ou contra. Muito menos pode se empregar como argumento de convencimento a resposta violenta, especialmente contra os não violentos. E já se sabe que a violência pode ser não apenas física.

Muitas coisas parecem estar em jogo hoje. Talvez até depois da tempestade venha a calmaria. Talvez os extremistas e fundamentalistas não consigam impor suas soluções extremistas e fundamentalistas, e não se enraíze um perigoso estado de ódio que tem crescido nos últimos anos.

Mas, de qualquer forma, é necessário que cheguem as soluções, respostas que não deveriam ser apenas de natureza material mas também de caráter político. E assim uma Cuba melhor e inclusiva poderia responder às razões desse grito de desespero e perda de esperanças que, em silêncio, mas com força desde antes do 11 de julho, vinham de muitos de nossos compatriotas. Esses lamentos que não foram escutados e cujas chuvas originaram esse lamaçal.

Como cubano que vive em Cuba, trabalha e acredita em Cuba, presumo que tenho o direito de pensar e expressar minha opinião sobre o país em que vivo, trabalho e acredito. Já sei que em momentos como este e ao tentar expressar uma opinião, acontece de ser “sempre reacionário para alguns e radical para outros”, como disse certa vez Claudio Sánchez Albornoz. Também assumo esse risco, como um homem que almeja ser livre, que espera ser cada vez mais livre.

Leonardo Padura, La joven Cuba, 16 de Julho de 2021

Os ricos têm culpa da fome?

Olho duas chamadas para notícias de uma homepage de um site de informação. Uma titula: “ONU alerta para “agravamento dramático” da fome no mundo devido à pandemia”. Outra relata: “Richard Branson foi ao espaço e voltou astronauta”.

Hesito… Vou ler primeiro a aventura espacial do milionário ou a tragédia terrena do planeta miserável?

Cedo à fraqueza do prazenteirismo e leio o texto sobre o astronauta rico.

… Lida a prosa, direi que aquilo é um bocado pífio: um avião, desconfortável, sobe, depois de largar os propulsores não sei onde, até 88 quilómetros de altura, o que, para a concorrência e gozo de outro milionário, Jeff Bezos, não é bem no espaço, é só “quase no espaço”.

Os passageiros passam por esse sofrimento para terem direito a quatro minutos de experiência sem gravidade e uma visão, pela janela, de lá de cima cá para baixo.

A ideia é cobrar 200 mil euros a cada turista pela tortura. Parece que há 600 interessados.

Passo para a notícia sobre a fome.

… Cinco agências das Nações Unidas estimam que 10% da população mundial não consegue alimentar-se adequadamente.

Os dados de 2020 apontam para 720 a 811 milhões de pessoas com fome. Só em África são 282 milhões de pessoas. Por causa disso 149 milhões de crianças menores de 5 anos têm o crescimento atrofiado.

Trinta por cento da população mundial, 2300 milhões de pessoas, não tem acesso a uma alimentação adequada.

Para tirar 100 milhões de pessoas da desnutrição crónica são necessários 11,8 mil milhões de euros por ano até 2030.

Para atingir a fome zero na próxima década o esforço estimado seria de 33,72 mil milhões de euros anuais.

Fecho a notícia, convencido de que a ONU nunca vai arranjar o dinheiro para, como tem projetado, acabar com a fome no mundo até 2030. Não é surpresa.

Claro que acho surpreendente que Richard Branson tenha mudado a residência oficial para as Ilhas Virgens Britânicas e, graças a isso, não precise de pagar impostos há 14 anos – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?

Claro que é estranho que este homem se dedique a divertimentos dispendiosos em idas ao espaço, nos quais perde cerca de 150 milhões de euros anuais – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?

Claro que é bizarro o líder do Virgin Group ter as companhias de aviação tradicional em colapso e reclame apoios ao governo britânico, aos contribuintes ingleses, no valor de 7500 milhões de libras – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?

Claro que é um bocado chato que, ao mesmo tempo, no meio da pandemia, este mesmo Richard Branson, vendedor da experiência de imponderabilidade a 200 mil euros, tenha mandado os funcionários para casa durante oito semanas sem lhes pagar o salário – mas o que é que isso tem a ver com a fome no mundo?…

… Ai a fome no mundo, a fome no mundo….

Lembrei-me agora: ontem passaram 36 anos sobre o dia do maior concerto de rock de todos os tempos. Foi o Live Aid, que angariou, num espetáculo de 16 horas, simultâneo em Londres e Filadélfia, 180 milhões de euros para acudir a uma crise de fome na Etiópia.

A cara da iniciativa, o roqueiro Bob Geldof, quando foi confrontado com críticas a deficiências da organização e aos resultados práticos obtidos, respondeu o seguinte: “Levantámos uma questão que não estava em qualquer lugar da agenda política e, por meio da língua franca do planeta – que não é o inglês, mas o rock’n’roll -, fomos capazes de abordar o absurdo intelectual e o nojo moral de haver pessoas a morrer de carência num mundo de excedentes,”

Leio, na mesma notícia sobre o aumento da fome no mundo, esta frase do secretário-geral da ONU, António Guterres: “Num mundo de abundância” não há “desculpa para que milhares de milhões de pessoas não tenham acesso a uma dieta saudável”

Guterres diz agora exatamente a mesma coisa que Geldof dizia em 1985 e isso é uma ilustração irónica da nossa coletiva incapacidade homicida.

Não, claro que nada do que se passa com os ricos deste planeta tem a ver com a fome no mundo… ou tem?

Pedro Tadeu, Diário de Notícias, 14 de Julho de 2021

Justiça dá a mão ao populismo

O apoio aos mais pobres, aos pobres dos pobres, é uma gota no oceano dos gastos do Estado. Em Portugal, o rendimento mínimo garantido não chega a 40% do valor daquilo que é considerado o limiar da pobreza.

Ainda assim, há um discurso, outrora dominante à mesa do café, mas hoje transposto para a narrativa de uma certa política, a apresentar de forma pouco séria esse apoio aos que nada têm quase como responsável pela falência das finanças públicas. Uma narrativa populista e perigosa.

Ora na vizinha Espanha esse argumentário acabou de obter um apoio de peso. Um tribunal de Madrid recusou um pedido do Ministério Público para serem retirados cartazes, do partido de extrema-direita Vox, com a mensagem de que o apoio dado a crianças migrantes seria uma espécie de roubo aos idosos espanhóis. Os juízes não se limitaram a considerar tratar-se de um slogan eleitoral, cujas ideias não podem ser banidas. Foram mais longe. De acordo com o despacho judicial, citado pelo jornal “El País”, os magistrados asseguram que “independentemente dos valores em causa serem verdadeiros ou não” os menores estrangeiros “representam um evidente problema social e político”.

Um caminho perigoso está a trilhar a Justiça espanhola, colocando-se claramente ao lado de setores extremistas, legitimando em forma de lei o desrespeito pelos mais desprotegidos.

A onda populista ganha dimensão na Europa e também em Portugal. Ainda este fim de semana, não esqueçamos, André Ventura defendeu que se apurasse onde estão localizadas as comunidades subsiodependentes, a par da criação de um cadastro étnico-racial. Para já valha-nos a ministra do Trabalho, que tem em mãos a revisão do rendimento mínimo garantido, uma medida que considera ter sido visionária há 25 anos, e pretende manter em novos moldes.

Paula Ferreira, Jornal de Notícias, 6 de Julho de 2021

III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico

Escola Secundária de Camões

13 de novembro de 2021

Evento presencial e online

Apelo

Vivemos tempos marcados pelo empobrecimento das ideias e das coisas. Empobrecimento do pensamento, cada vez mais confinado nos limites da intolerância, da exclusão, contrariando a esperança que o 25 de Abril de 1974 nos fez acreditar.

Tempos em que o valor do trabalho e da solidariedade deram lugar à racionalidade da mão invisível do neoliberalismo que sustenta a acumulação da riqueza, o empobrecimento planetário das famílias e a destruição do planeta.

Tempos em que o pensamento crítico sobre o mundo em que vivemos é confrontado com a ideologia dominante, dos medos, das múltiplas formas de alienação e das ameaças.

Tempos em que o estado de guerra permanente, camuflado, subtil ou flagrante é imposto no Brasil, na Síria, em Cuba, nas Filipinas e por todo o planeta. Guerras externas e guerras internas contra um crescente número dos mais desprotegidos, mais vulneráveis, mais excluídos, mais racializados…

Tempos em que a Dignidade Humana está cada vez mais alheia do debate público, submersa por discursos de ódio, que os meios de comunicação públicos e privados alimentam 24 horas por dia, nas casas, nas escolas, nas universidades, nas ruas e praças de aldeias, vilas e cidades.

É neste contexto que a realização de III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico encontra a sua razão de ser, sobretudo em tempos de pandemia, onde é necessário manter bem alta a Voz da Liberdade.

O III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico, tem por referência o centenário do nascimento do educador Paulo Feire, que tem inspirado gerações de mulheres e homens que lutam pela justiça cognitiva, pela equidade e pela liberdade do pensamento que ajuda a compreender e a mudar o mundo em que vivemos.

O III Fórum Liberdade e Pensamento Crítico, assume-se como um ato de resistência contra obscurantismo pela liberdade e pelo Pensamento Crítico em favor dos Direitos Humanos.

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”

“A educação faz sentido porque mulheres e homens aprendem que, aprendendo, podem se fazer e se refazer, porque mulheres e homens são capazes de assumir a responsabilidade por si mesmos.

“A educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”

“Nosso papel não é falar ao povo sobre nossa visão de mundo, ou tentar impô-la a ele, mas dialogar com ele sobre a sua e a nossa.”  

Mário Moutinho

Moema Silva

João Jaime Pires

Guadalupe Poretelinha

Comunicado

Bom dia, caros companheiros do Fórum LPC
Dado que a vida de todos ainda não está estabilizada e que as reuniões presenciais também são difíceis e as reuniões online se estão a tornar maçadoras e não têm tido grande adesão por parte muitos, vimos- um grupo de quatro pessoas da coordenadora-  fazer um apelo para que se faça um esforço  para participarem na próxima reunião,  tendo em vista a discussão da proposta que a seguir enviamos e que visa a realização de um III Fórum LPC, em moldes que se adaptem aos tempos de pandemia.  Como estava previsto, em especial pelo Amândio, o tema geral deste Fórum seria à volta de Paulo Freire.Esta nossa reunião em princípio será online a não ser que as coisas melhorem significativamente até lá e será no dia 15 de Julho, às 18.00.
Assim sendo,  eis a nossa proposta para o III Fórum, a realizar em 13 de Novembro, no Camões, em linhas gerais , faltando indicar as actividades da sala e convidados, sendo que de manhã reuniria o grupo alargado que se debruçaria sobre o futuro do Forum,  incluindo a organização do IV Forum em 2022 (Homenagem ao Amândio) e de tarde 3 ou 4 intervenções com debate e momento cultural.Haveria também  Exposições montadas no espaço que for possível ocupar (por causa das obras).Durante as primeiras três semanas do mês de julho o programa e convidados deveriam  estar fechados para se iniciar a divulgação e ter material programático concreto para pedir reunião na CML para a 4ª semana de julho.
Este III Fórum poderá ser presencial e online, tendo em vista os contactos com o Brasil.
10-12:00 –  Grupo alargado12:30- 14:00-  Almoço convívio (várias possibilidades)14:30: 17:30 – Temas em debate18:00-19.00 – Momento Cultural e  encerramento (conclusões)
Exemplo de  possíveis contactos:  Ana Benavente, Instituto Paulo Feire SP outros…se for isso o decidido.

Mário Moutinho

Moema Silva

João Jaime Pires

Guadalupe Portelinha

A democracia não pode ser um faz-de-conta

Nas sociedades mais desenvolvidas, assiste-se a um aceleramento da digitalização de todas as dimensões da vida dos cidadãos. A pandemia contribuiu enormemente para esta revolução digital. Mas vem aí mais. A capacidade de tratar milhões de informações através dos novos métodos de inteligência artificial e os avanços na área da automatização permitirão o controlo – e, em muitos casos, a manipulação – das pessoas de modo nunca visto.

A nova era digital acarreta inúmeros desafios, e até ameaças, para a democracia. Pense-se, por exemplo, no papel dos robôs na multiplicação da propaganda, das notícias falsas e na criação de câmaras de eco, que dão a impressão de apoios políticos massivos a uns, e constroem à sua volta todo o tipo de ilusões, de par com o assédio dos outros, os oponentes, com milhares de mensagens hostis provenientes de falsos perfis. Mas o aspeto mais imediato diz respeito à participação no ato eleitoral. Se um cidadão pode pagar os seus impostos ou renovar o seu documento de identidade sentado à mesa da cozinha, por que razão não lhe é permitido votar por ligação informática, também a partir de casa? Ir a um local de voto, passar por amontoados de pessoas, fazer fila e perder tempo parecem ser procedimentos de outros tempos, por muito que gente como Donald Trump tente descredibilizar o voto eletrónico.

Já nesta semana, os franceses lançaram mais uma acha para o debate. A taxa de abstenção nas eleições regionais atingiu um nível recorde. Dois terços não votaram. Pior ainda, cerca de nove em cada dez dos jovens dos 18-24 anos não estiveram para a maçada. Os analistas ficaram perplexos. Ao discorrer sobre as razões de tamanha indiferença, caíram no mesmo simplismo que Marine Le Pen, Jean-Luc Mélenchon e outras personalidades políticas já tinham mostrado na noite eleitoral – a culpa seria dos cidadãos, que acharam que o incómodo não valia a pena. E lançaram brados aos céus, para lamentar que uma tendência assim poderia levar à morte da democracia.

Tudo isso é conversa de televisão. As pessoas – sobretudo os jovens – não votam porque a maioria da classe política não lhes diz nada, não os inspira, não tem ideias novas, é apenas mais do mesmo, com sobranceria a mais e ética a menos. É isso que se passa em França e noutros países europeus. A principal ameaça contra a democracia não vem da apatia dos cidadãos. Essa é a consequência. A causa está a montante, nos partidos políticos – há sempre exceções – que em geral mais não são do que um clube de oportunistas ou de fanáticos, iluminados por visões curtas.

A questão da democracia também faz parte da agenda da reunião do Conselho Europeu, que está a decorrer desde ontem e que marca o termo da presidência portuguesa. A grande interrogação, que já vem de longe e até agora sem resposta, é o que fazer perante a governação autoritária que é atualmente praticada na Hungria e na Polónia. Os dirigentes nestes dois países há muito que violam sistematicamente o artigo 2.º do Tratado da União Europeia, que define os valores fundamentais em que assenta a UE – liberdade, democracia, separação de poderes e direitos humanos. A falta de resposta adequada a estas violações é outra acha para a fogueira que vai consumindo a confiança dos cidadãos na democracia e nos políticos.

Menos falado, mas igualmente importante para a vitalidade da democracia, é ter-se um sistema de administração de justiça capaz e independente dos políticos. Os cidadãos precisam de ter confiança no funcionamento célere e eficiente dos tribunais, como meios de defesa dos seus direitos e de correção das injustiças. Na era do “totalitarismo digital” isso é ainda mais essencial. Nos Estados membros onde a justiça é lenta, mal apetrechada e ineficiente, temos um problema quase tão grave como o autoritarismo que existe noutros horizontes. Esses Estados têm uma democracia coxa. Deveriam igualmente ser tema de crítica no Conselho Europeu. Sem justiça eficaz, a democracia é uma ilusão. E os cidadãos, como o mostraram agora os franceses, já não se deixam iludir tão facilmente.

Victor Ângelo, Diário de Notícias, 25 de Junho de 2021