A EUROPA É ISTO

Só quem for ingénuo, ou quiser fazer-se passar por tal, pode dizer-se surpreendido com o bloqueio colocado por dois governos ao acordo que pode permitir um importante, e inédito, desembolso financeiro com origem na União Europeia, com vista a ajudar os Estados membros a enfrentarem o surto pandémico que está a devastar as suas economias.
Os sinais estavam todos aí, desde há muito, de que esses países iriam aproveitar a ocasião para exercerem uma forte e oportunista chantagem junto dos seus parceiros.
O que está em causa, nesta barganha e braço-de-ferro, só mediatamente tem a ver com esses dinheiros europeus. O que esses governos querem significar, com este seu gesto de força, é que a Europa tem, de uma vez por todas, de aceitar a legitimidade da leitura que fazem do que significa o respeito pelo Estado de direito e pela separação de poderes, isto é, a sua peculiar interpretação sobre os deveres que decorrem da subscrição dos tratados.
Esta, como se sabe, não é uma questão nova. É um problema que anda, desde há anos, pelas mesas e corredores da União e – vamos chamar os bois pelos nomes – que a cobardia e a pusilanimidade dos parceiros tem deixado prolongar e, pelos vistos, prosperar, em total impunidade. O constante conforto, feito de sorrisos e de palmadas nas costas, dado aos líderes desses países, em especial por parte dos seus parceiros do PPE (Partido Popular Europeu), mas não só, configura uma atitude obscena e denuncia bem o medo que sempre houve em os confrontar e isolar. A paga aí está agora.
Este não é, também, um problema apenas jurídico, como alguns exegetas dos tratados querem fazer crer. Trata-se de uma questão política de fundo, que vai ao âmago da identidade europeia, isto é, da filosofia comum a que um país se obriga quando entra para o “clube” comunitário.
Trata-se de garantir à totalidade dos cidadãos, cujos Estados estão inseridos no projeto integrador, que, independentemente das respetivas ordens constitucionais, usufruem de um corpo de direitos que lhes advém da sua cidadania europeia e que essas ordens internas não podem derrogar.
Este problema, porém, tem precedentes. Lembremo-nos no fechar de olhos que se verificou quando alguns países bálticos se comportaram miseravelmente face às minorias russas que tinham herdado. À época, porque do outro lado da cerca estava Moscovo, imperou o cinismo da realpolitik.
Nessa altura, alguns não quiseram perceber o precedente que se estava a abrir. Talvez entendam melhor agora.

Francisco Seixas da Costa, 18 de Novembro de 2020

A democracia não pode ser refém de quem não a quer

A União Europeia (UE) adiou a adesão da Turquia para as calendas gregas, com o receio não assumido da integração de um país muçulmano, baseando-se no argumento sensível e sensato do incumprimento do EStado de Direito. Erdogan encontrou nessa recusa dissimulada os argumentos para diminuir ainda mais as liberdades e garantias num país historicamente hesitante entre o Ocidente e o Oriente.

A ameaça a esse denominador comum europeu da democracia e do Estado de direito não veio de Ankara, mas sim do cavalo de Troia do populismo nacionalista que tomou conta de Varsóvia e de Budapeste. Polónia e Hungria, ao bloquearem a aprovação do orçamento plurianual, não estão apenas a paralisar as economias dos restantes Estados da União num cenário de crise geral. Estão a sabotar as regras e valores básicos de uma comunidade assente em princípios democráticos e a fazer a defesa da sua autocracia.

A retaliação dos dois países, por causa do mecanismo que faz depender o acesso a fundos extraordinários do respeito pelo Estado de direito, que prejudica todos os cidadãos europeus e a própria UE, expondo a sua inércia e inaptidão num momento tão crucial, é a confissão de quem não nutre pela democracia qualquer empenho ou respeito e que faz da discriminação e da perseguição a minorias uma política desumana e nada cristã. Só Angela Merkel pode conseguir uma decisão por unanimidade.

Merkel, a defensora do alargamento a leste, é o espelho da moderação na Europa, e não hesitou em se afastar higienicamente desse populismo autocrático no momento certo, quando se torna cada vez mais atraente transformar esse capital eleitoral em algo palpável e açoriano. Rui Rio pode falar alemão, mas não é Merkel.

Donald Trump inspirou autocratas por todo o lado e alguns deles têm assento no Conselho Europeu. A eleição de Joe Biden não terá reflexos apenas nos EUA. A vitória da moderação, nestes tempos de radicalização e polarização, pode representar um novo período de valorização da democracia e de rejeição da demagogia mentirosa de políticos sem escrúpulos. A boa notícia é esta: Trump vai deixar de ser a caução destes autocratas. A má notícia é que estes poderão não ter assento em Washington, mas continuarão a ter o seu lugar à mesa em Bruxelas. A democracia europeia não pode ser refém de quem a recusa.

Amílcar Correia, O Público, 19 de Novembro de 2020

50 anos de convergências

Não foi preciso esperar muito. Mal a direita clássica (PSD e CDS) precisou dos votos da extrema-direita para retomar o poder, aceitou imediatamente
negociar com esta e, pudicamente sem a incorporar no governo
(hoje o regional dos Açores, no futuro o da República), assumiu no seu programa aspetos tão simbólicos quanto a restrição radical de
direitos sociais (reduzir para metade os beneficiários de RSI na região onde mais pessoas dele necessitam) e a revisão da Constituição! Apesar da contestação que alguma (se virmos bem, muito pouca) direita abriu contra a direção do PSD, não há novidade alguma nesta aliança. Desde que a Democracia-Cristã italiana fez eleger em 1971 um candidato presidencial, pela primeira vez desde 1945 com os votos dos neofascistas do MSI, e desde que as direitas escandinavas passaram a incluir na sua estratégia para expulsar a social-democracia do poder partidos da extrema-direita organizados em torno do mesmo ultraliberalismo económico do Chega, as direitas clássicas da Europa ocidental têm 50 anos de convergência com a extrema-direita — exatamente a mesma convergência que levou os fascismos ao poder nos anos 20 e 30.
A partir dos anos 90, a normalização da extrema-direita, por mais racista e
desbocada que ela fosse, avançou decisivamente em Itália (todos os governos que Berlusconi formou desde 1994 integraram neofascistas, pósfascistas e os racistas da Liga) e na Áustria (coligações de democratas cristãos com a extrema-direita desde 2000), e rapidamente se estendeu pela Europa centro-oriental (ao ponto de caracterizar estruturalmente uma cultura política específica da região que reproduz o quadro que existia no período de entre guerras), a Escandinávia e o resto da Europa ocidental; desde 2002 que quase não houve governo de direita na Holanda que não
integrasse a extrema-direita ou se baseasse num acordo parlamentar com ela.
Alemanha, França e Grã-Bretanha parecem ser as últimas exceções. O mesmo se dizia de Portugal e Espanha, e foi o que se viu. A regra, portanto, passou a ser a da cooptação das extremas-direitas pelas direitas liberal-conservadoras. Estas continuavam a dirigir os governos, assegurando que esta era a melhor forma de domar a extrema-direita. O resultado foi, isso
sim, a radicalização das direitas clássicas: convergência estratégica (construindo maiorias políticas) e convergência em muitas das batalhas culturais. Querem melhor exemplo que Cavaco Silva, o cardeal-patriarca e Passos Coelho assinarem um manifesto contra as aulas de Educação
para a Cidadania que replica em Portugal as campanhas de Bolsonaro? A banalização da retórica confrontacional de tipo fascista acabou inevitavelmente por contaminar a linguagem do resto das direitas; a convergência em questões sociais e educativas e na discriminação das minorias étnicas fizeram o resto. Em 2000, George W. Bush foi eleito com uma plataforma política que já incorporava as grandes batalhas da
extrema-direita religiosa (ilegalização do aborto, proibição do casamento
homossexual, confessionalismo anticientífico), e foi tudo menos coincidência ser ele a levar à prática o Choque de civilizações previsto (aliás: desejado) por Huntington, abrindo guerras intermináveis
no Afeganistão e no Iraque e criando um clima generalizado de racialização das relações internacionais e de normalização do discurso xenófobo.
À extrema-direita só faltava o controlo direto do poder executivo. Foi o que
aconteceu em 2005 com o primeiro Governo Kaczy ski na Polónia. Orbán, que governara como liberal em 2005-07, passou a pautar a nova geração de governos da extrema-direita do nosso século. Desde 2010 mudou a paisagem político-constitucional da Hungria, conduzindo uma transição autoritária que agora dificilmente poderá ser revertida por via legal — e o país continua na UE. Por fim, a eleição de Trump (2016) e de Bolsonaro
(2018) revelaram bem a radicalização do conjunto das direitas. O acordo PSD-Chega reitera 50 anos de história das direitas: nem cordão sanitário, nem dique, nem coisa nenhuma impediu a convergência das direitas. Quem quiser defender a democracia precisa é de preparar-se para as consequências que esta pode ter no contexto social mais depressivo dos últimos 75 anos, feito de nova pobreza, medo, ansiedade e
securitarismo.

Manuel Loff, O Público, 17 de Novembro de 2020.

Uma transição como nenhuma outra

“Quem precisa de um telefonema do seu adversário quando o Papa está em linha?” O título é do The Washington Post, para resumir os primeiros contactos internacionais do Presidente eleito, enquanto o Presidente ainda em funções até ao dia 20 de Janeiro se recusa a aceitar a derrota. É uma boa pergunta, que serve apenas para provar que o espectáculo que Donald Trump está a oferecer aos americanos e ao mundo desde a noite das eleições, por mais degradante que seja, vai acabar um dia. Os mecanismos da democracia norte-americana ainda são suficientemente fortes para evitar um qualquer “golpe” que impeça a tomada de posse de Joe Biden na data marcada.
Entretanto, convém não subestimar os efeitos negativos, incluindo alguns riscos, que o comportamento de Trump — e daqueles que, no Congresso, colaboram com a sua farsa — representa para a América e para o mundo. Por várias razões, a primeira das quais é o facto de estarmos a falar do país mais poderoso do mundo, detentor do maior arsenal nuclear do mundo (apenas equivalente ao que a Rússia herdou da União Soviética), que continua a ser o principal responsável pela segurança internacional. A palavra “transição” de poderes tem, portanto, um significado especial.
Restam dez semanas, muito pouco tempo e uma eternidade, para a passagem de testemunho. Até lá, mandaria a tradição que Joe Biden participasse nos briefings diários de segurança nacional e que a equipa que formou para gerir a transição em cada uma das agências e dos departamentos do Estado tenha acesso à informação de que necessita.
Nada disto ainda aconteceu.
A equipa de transição precisa de identificar as pessoas que vão preencher 4000 nomeações políticas na Administração, das quais 1200 têm de ser confirmadas pelo Senado. Fazer isto com a obstrução deliberada do Presidente torna-se muito difícil, ainda que não impossível.
Biden tem a vantagem inestimável de 47 anos de trabalho em Washington, incluindo oito na Casa Branca, o que lhe dá um conhecimento profundo dos mecanismos do poder. Conhece toda a gente que é preciso conhecer. Está a ser recebido com toda a disponibilidade e satisfação pelos líderes dos países aliados e por aqueles que, sendo adversários, já perceberam que é com ele que vão ter de lidar. A China acaba de reconhecer a sua eleição, não sem que antes tenha aproveitado a confusão instalada por Trump para desferir mais um golpe brutal na autonomia de Hong Kong. Putin, o grande amigo do actual Presidente, continua a fazer contas à vida, provavelmente lamentando não ter podido “ajudá-lo” desta vez, como o “ajudou” em 2016. Estas eleições foram as mais seguras de sempre, segundo os responsáveis máximos pela garantia da sua segurança.
De resto, é ao nível internacional que se sentem mais rapidamente os efeitos da eleição de Joe Biden. E é também aí que o Presidente eleito pode ir dando sinais importantes. Já devolveu os telefonemas de felicitações dos líderes das maiores democracias. Felicitou pessoalmente Angela Merkel pela sua “liderança” internacional. Falou com Emmanuel Macron sobre o combate ao terrorismo e às alterações climáticas. Terá feito saber a Boris Johnson como gostaria de ver o Reino Unido próximo da União Europeia. Deu garantias ao primeiro-ministro japonês de que os EUA continuam tão empenhados como sempre na sua defesa, incluindo contra as incursões
e provocações frequentes da China nas ilhas de Senkaku. Contactou os amigos da Ásia Oriental para lhes renovar as garantias de cooperação e de segurança.

Há, todavia, um sector em que as coisas são mais complicadas e mais perigosas: a segurança nacional. A primeira e até agora mais polémica decisão de Trump foi ter despedido, via Twitter, o secretário da Defesa Mark Esper e outros altos cargos civis do Pentágono, menos de uma semana depois das eleições, apanhando a hierarquia militar completamente de surpresa. Deu sinais de que tenciona fazer o mesmo aos serviços secretos, a começar pela Agência Nacional de Segurança e a acabar, provavelmente, na CIA e no FBI.
Substituiu Esper pelo director do Centro Nacional de Contraterrorismo, Chris Miller, que nomeou muito recentemente. Anthony Tata, o novo chefe do departamento político do Pentágono, é um brigadeiro na reserva, actual comentador da Fox News, que disse de Obama que era um “líder terrorista” e cuja nomeação tinha sido vetada no Senado por excesso de islamofobia, entre outras coisas. É apenas um exemplo.
Os democratas no Congresso protestaram imediatamente, avisando que Trump estava a entrar por caminhos nunca antes percorridos em qualquer transição de poderes entre Presidentes. Os analistas admitem os riscos, mas tendem a justificá-los como um mero acto de vingança. Mark Esper demarcou-se do Presidente quando Trump quis utilizar o Exército contra os protestos do movimento Black Lives Matter em Junho passado, ao abrigo do Insurrection Act.
Robert Gates, que foi secretário da Defesa de George W. Bush e Barack Obama, classificou como “altamente imprudente” a demissão da liderança do Pentágono durante um período de transição pós-eleitoral. Um tempo em que “os adversários podem tirar partido de qualquer sinal de fraqueza ou de desorientação da América”, cita o The Observer. Há alguma especulação sobre a vontade de Trump de fazer regressar as tropas que ainda estão no
Afeganistão e no Iraque antes do final do mandato — 4500 e 3000, respectivamente. Ninguém parece acreditar, no entanto, que o Presidente possa recorrer aos militares para se manter no poder, nem que os militares
alguma vez aceitassem participar em qualquer coisa semelhante a um golpe. Não é essa a tradição americana, embora Trump continue a ser o comandante-chefe das Forças Armadas. Seja como for, há um sentimento de que brinca com o fogo num domínio até agora praticamente sagrado.

Nem sempre as transições foram perfeitas. “Algumas correram particularmente bem, mesmo quando a transição se fez entre partidos diferentes”, escrevem Ivo Daalder e James Lindsay na Foreign Affairs. O primeiro foi embaixador dos EUA na NATO. “No dia seguinte às eleições de 1992, o então Presidente eleito Bill Clinton instou ‘os amigos e os inimigos
da América a reconhecer, tal como eu reconheço, que a América tem apenas um Presidente de cada vez’. O Presidente cessante, George H. W. Bush, garantiu a aprovação de Clinton antes de assinar um acordo sobre armamento estratégico com a Rússia, algumas semanas depois”, lembram ainda. “A transição entre George W. Bush e Barack Obama foi ainda mais tranquila”, dizem os dois autores.
Onde está esta América?
Biden tem uma tarefa ciclópica pela frente para começar a reconstruí-la. Sem a garantia de um Senado cooperante, vai ter de escolher as figuras de topo da nova Administração com o cuidado suficiente para tornar extremamente difícil a sua rejeição por uma eventual maioria republicana. Elizabeth Warren e Bernie Sanders, as duas principais figuras da ala esquerda do Partido Democrata, já manifestaram o seu desejo de ficar com o Tesouro e o Trabalho, respectivamente.Biden ainda não deu qualquer sinal, mas o nome mais falado para o Tesouro tem sido, até agora, o de Lael Brainard, membro da Comissão de Governadores da Reserva Federal, mais representativa do establishment. Outra mulher, Michèle Flournoy, antiga subsecretária da Defesa, é referida como possível chefe do Pentágono, embora incomode particularmente a ala esquerda, que a acusa de ser da linha dos “falcões”. Outra mulher ainda, Michelle Lujan Grisham, governadora do Novo México, é o nome mais falado para a Saúde e os Serviços Humanitários. A senadora Amy Klobuchar, que participou na corrida das “primárias” e que vem da mesma área ideológica de Biden, pode substituir William Barr como procuradora-geral.
Saber-se-á em breve quem serão os escolhidos, mas uma coisa é certa: Biden quer gente com grande experiência governativa que saiba imediatamente o que tem a fazer.
Até agora, o Presidente eleito tem conseguido uma coisa fundamental:
transmitir tranquilidade no meio da tempestade provocada pelo seu antecessor e garantir ao mundo que é ele que passará a estar no comando.

Teresa de Sousa, O Público, 15 de Novembro de 2020

Uma solução tecnológica para a invasão do plástico

No último ano produzimos 350 milhões de toneladas de plástico. Mais do que no ano anterior, em que já tínhamos produzido mais do que no precedente… O problema está longe de estar resolvido e a razão, explica a cientista canadiana Miranda Wang, é sempre a mesma: “O plástico é mais barato e funciona melhor do que as alternativas.” Dá o exemplo de uma fralda, na qual os hidrogéis utilizados conseguem absorver até 300 vezes o seu peso: “Não há nada no mundo natural que se compare, mas estes hidrogéis não são biodegradáveis, pior, são tóxicos e esse é o problema com os produtos sintéticos: aquilo que os faz realmente bons é, geralmente, aquilo que os faz tão prejudiciais também.”

Assim, a esmagadora maioria dessas toneladas acabará no lixo, em aterros e, eventualmente, nos rios e oceanos, nunca chegando a ser reciclada – porque menos de 10% dos plásticos o são. Mas em breve esta realidade poderá mudar, graças – em parte – a esta jovem de apenas 26 anos que descobriu uma forma de transformar os plásticos que hoje não são reciclados nos mesmos compostos químicos que servem de base à produção de novos plásticos, num exemplo perfeito de economia circular.
“Estamos a trabalhar com polietileno (PE). É o plástico mais simples de todos, mas corresponde a um terço do total produzido. É também aquele que tem as taxas de reciclagem mais baixas, até por serem artigos (sacos e embrulhos a nível industrial) que, por princípio, não compensa reciclar. Mas, com o nosso processo, o tipo de produto torna-se indiferente, porque a estrutura química é a mesma e o que vamos fazer é desfazê-los a um nível molecular.” Produzindo assim a matéria-prima que pode dar origem a novos plásticos, em vez de a ir buscar aos derivados de petróleo, como agora.
O plano será conseguir reciclar centenas de toneladas por ano, já a partir de 2023, eliminando também mais de 4 500 toneladas de emissões de CO2 que seriam lançadas na atmosfera ao produzir novos plásticos.
O método está dominado a nível laboratorial, estando neste momento em processo de industrialização, por forma a torná-lo uma solução viável:

“Trabalhamos com várias marcas que estão a testar o nosso material reciclado e a produzir novas peças. Contamos, no próximo ano, anunciar algumas dessas colaborações.”

Miranda Wang fundou, juntamente com a sócia, amiga de liceu e colega de universidade, Jeanny Yao, a startup BioCellection na Califórnia. Despertaram ambas para este problema ao mesmo tempo, durante uma visita de liceu a uma estação de reciclagem, e desde então que são as melhores parceiras no crime: “A Jeanny é uma pessoa incrivelmente prática e persistente, com um coração enorme. Já eu tenho mais tendência para um pensamento conceptual, e para descobrir as ligações improváveis. Complementamo-nos muito bem, e por isso é tão fácil trabalharmos juntas.”
O mundo parece acreditar nas suas possibilidades, como provam os prémios Young Champion of the Earth Award, das Nações Unidas, o Pritzker Environamental Genius Award e, mais recentemente, o Rolex Award for Enterprise. O seu trabalho captou a atenção das grandes empresas do ramo, mas Miranda não coloca grande fé nestes gigantes:

“Não acredito que as empresas químicas estejam interessadas em mudar muita coisa. Estão preocupadas com o ambiente, naturalmente, mas mais em tentar mitigar os seus problemas. São empresas cotadas, com dividendos a distribuir pelos acionistas que não estão dispostos a fazer
este tipo de investimentos a longo prazo. Isso não acontece numa startup como a nossa. Este é o nosso único produto, queremos que seja um sucesso.”

Bruno Lobo, Visão, 13 de Novembro de 2020

Caro fã do Chega: até o partido de Trump diz que não há fraude

A Internet está cheia de portugueses a defender que Donald Trump ganhou as eleições, que os democratas “roubaram” a vitória e que houve “fraude”. Muitos deles são fãs e militantes do partido Chega.

A ligação entre os dois é evidente. Quem se apresenta com autocolantes e cartazes do Chega, diz que houve fraude. Haverá excepções, claro, mas o padrão parece ser este: os fãs de André Ventura andam de braço dado com os fãs de Trump. Por isso, hoje, o coffee break é para eles.

Caro fã do Chega: até os líderes e militantes do Partido Republicano dizem que não há sinais de fraude nas eleições de 3 de Novembro.

Duvide dos vídeos que lhe enviam por Facebook, Instagram e WhatsApp, duvide das newsletters de comentadores do YouTube. Procure outras fontes, outros jornais, outras televisões. Não veja a MSNBC, nem a CNN. Se não acredita nisto, veja a Fox News, televisão de direita, conservadora, que há anos defende Trump com unhas e dentes.

Como os algoritmos só lhe mostram ideias parecidas com as suas, poderá ter-lhe escapado o que muitas pessoas do partido de Trump disseram nas últimas horas. Uma ajuda: disseram que as eleições foram transparentes, correctas e justas.

Os democratas ficaram chateados quando Hillary Clinton perdeu em 2016 e ainda mais quando Al Gore perdeu em 2000. Agora, é a sua vez de estar chateado. Ninguém gosta de perder.

Mas já passaram dez dias desde as eleições e não apareceram provas de fraude. Houve problemas, como há em todas as eleições, mas os números astronómicos atirados para o ar sobre “milhares” de votos perdidos, “milhares” de votos encontrados no lixo, “milhares” de votos prontos a serem queimados, “milhares” de votos trocados e falsificados são uma mão cheia de nada — ou uma mão cheia de fúria e mau perder.

Há uns anos, um partido português foi acusado de ter oferecido bebidas alcoólicas à porta das urnas, quando os eleitores se preparavam para votar. A queixa foi feita ao delegado da Comissão Nacional de Eleições da Madeira. Em todas as eleições, há problemas na escola A da cidade B ou na junta de freguesia C da vila D. Há sempre irregularidades pontuais, que a democracia.

Deixou de gostar da Fox? Veja o site do Partido Republicano. O mais concreto que encontrará sobre fraude é um vídeo do senador Lindsey Graham. Que provas tem? “Sabemos que, na Pensilvânia, 100 eleitores estão mortos, 15 deles votaram e, desses, seis registaram-se para votar depois de terem morrido.” Num estado onde foram contados 6,7 milhões de votos, um amigo de Trump diz que há 15 votos irregulares. É essa a prova da fraude destas eleições? Se não é, porque é que o senador não apresenta outras melhores? Nas redes, vejo que os fãs do Chega partilham vídeos e cartazes que dizem que 941 mil votos desapareceram na Pensilvânia e que “mil pessoas testemunharam, sob juramento”, sobre fraude. Onde estão as mil pessoas? Onde estão os factos? Porque é que o site do partido de Trump só fala em 100 eleitores e 15 votos irregulares?

Caro leitor: Al Schmidt, responsável pela operação de contagem de votos da maior cidade da Pensilvânia, Filadélfia, disse que os técnicos eleitorais verificaram todos os nomes desses supostos mortos que teriam votado e concluíram que a acusação é falsa. E não: Schmidt não é nem democrata, nem comunista, nem anarquista. É do Partido Republicano.

Ao longo dos últimos dias, o New York Times telefonou às comissões eleitorais de todos os estados americanos e concluiu: “Não há provas de fraude eleitoral.” Alguns responsáveis “descreveram pequenos problemas comuns a todas as eleições: alguns casos de votação ilegal ou dupla, algumas falhas técnicas e alguns pequenos erros matemáticos”. Mas ninguém, nem democratas, nem republicanos, diz que há fraude. O jornal cita Frank LaRose, secretário de Estado do Ohio e republicano: “Há uma grande capacidade humana para inventar coisas que não são verdadeiras sobre eleições. As teorias de conspiração e os rumores e todas essas coisas andam à solta. As eleições geram esse tipo de mitos.”

Se tem dúvidas sobre a diferença entre fraude e irregularidades, pense no nascimento do Chega. “Muitas centenas de assinaturas” recolhidas para legalizar o partido eram “inválidas”. Foi o próprio Ventura quem o disse. Eram assinaturas de menores e de polícias — duas coisas que a lei proíbe. Seria ridículo dizer que o Chega é batoteiro por causa disso.

Bárbara Reis, Público, 13 de Novembro de 2020.

Recordar 13 de Novembro e o atentado em Paris

Ils sont la mémoire du 13 novembre

A travers la parole de 360 témoins des attentats du 13 novembre 2015, l’historien Denis Peschanki et son équipe retracent le fil des ces événements hors normes, qui ont une place à part dans la mémoire collective.

Par Elodie Becu. Le Bien Public, 13 de Novembro de 2020

Denis Peschanski, historien, et Laura Nattiez, sociologue, viennent de publier avec Cécile Hochard 13 novembre, des témoignages, un récit (Odile Jacob), à partir de 360 témoignages de victimes ou d’acteurs en première ligne au moment des attentats contre le Bataclan, les terrasses et le stade de France. Ces paroles ont été recueillies dans le cadre du programme de recherche scientifique sur la mémoire du 13 novembre 2015.

Quelle est la place du 13 novembre 2015 dans la mémoire collective aujourd’hui ?

Denis Peschanski : Dans les enquêtes que nous avons menées avec le Crédoc en 2016 et 2018, nous observons une double condensation mémorielle. Le 13 novembre est devenu la référence première aux attentats terroristes depuis 2000. Les attentats de janvier 2015 sont moins présents dans l’esprit des Français (hors contexte actuel bien sûr), et Nice, qui a aussi été un massacre terrible, ne s’impose pas autant dans la mémoire collective.

La deuxième condensation mémorielle concerne le lieu des attentats : dans l’esprit des Français, il s’est réduit au Bataclan voire à Paris, de manière encore plus floue.

Pourquoi ces attentats émergent-ils davantage ?

Denis Peschanski : En janvier 2015, après Charlie Hebdo et l’Hypercacher, la France s’était mobilisée comme jamais dans son histoire pour répondre aux attaques, en faisant des manifestations d’une ampleur inédite. Elle se rassemblait, autour de ses valeurs, pour défendre l’autre – le journaliste, le juif, le policier. En novembre 2015, du stade de France au Bataclan en passant par les terrasses, tout le monde s’est senti visé. Nous sommes tous, indirectement, devenus des cibles.

Pourquoi avez-vous reconstitué dans un livre le récit des attentats à partir des témoignages recueillis dans le programme de recherches sur la mémoire du 13 novembre ?

Denis Peschanski : Notre travail fournit un patrimoine de la mémoire du 13 novembre. Pour la première phase, réalisée en 2016, nous avons réalisé 1431 heures d’entretiens audiovisuels filmés avec des victimes, des policiers, des soignants, des proches, sources de ce livre, mais aussi de témoins très indirects, dans la métropole parisienne ou dans trois villes de province.

Cette masse de témoignages nous permet de résoudre le rapport à la vérité des sources orales. Un témoin livre toujours un récit de son point de vue, avec ses oublis, ses émotions, ses ressentis. Croiser tous ces témoignages et les recouper avec des sources écrites, nous permet de passer de la vérité du témoin à la vérité de l’événement.

Laura Nattiez : En recueillant la parole des personnes confrontées aux attentats, nous nous sommes aperçu qu’il y avait beaucoup de choses que l’on ignorait, qui étaient incertaines au moment des faits, et beaucoup de voix que l’on entendait pas ou peu. Il nous a donc semblé très important de construire un récit précis, documenté et polyphonique, à partir des 360 témoignages.

Par ailleurs, il y a beaucoup de récits complotistes dans notre société. Prendre le temps d’un travail scientifique et méticuleux, à partir de la parole des personnes impliquées de près ou de loin, dans l’évènement, permet de retracer les attentats tels qu’ils se sont produits. Et d’apaiser les récits.

Quelle parole n’était pas entendue ?

Laura Nattiez : Dans la mémoire collective, on a gommé le stade de France et les terrasses. Ce récit est un moyen de les remettre au premier plan.

Par ailleurs, la parole des proches n’a pas été beaucoup entendue. Ils sont pourtant un regard essentiel de cet événement. Etre chez soi, attendre des nouvelles d’un ami, d’un conjoint, d’un enfant rend ces personnes actrices à part entière de cet événement.

Denis Peschanski : la question des parents endeuillés est cruciale. Ils subissent cet événement au plus profond d’eux-mêmes, mais ne se sentent pas légitimes dans leur réaction. Ils ont une fracture au milieu du cœur, qui ne va pas se résorber.

Dans la mémoire collective du 13 novembre, on se souvient des victimes et pas beaucoup de acteurs qui sont intervenus pour arrêter la tuerie. Comment se construit le souvenir de l’évènement ?

Denis Peschanski : La mémoire évolue avec l’histoire. Il existe des régimes mémoriels, des configurations de la mémoire collective qui bougent avec le temps. Par exemple, dans les années 1960, la mémoire de la Deuxième Guerre mondiale se structurait autour de la figure du héros résistant. Depuis le milieu des années 1980 et jusqu’au début des années 2000, c’est la victime, et plus singulièrement la victime juive qui a pris le relais.

Dans la mémoire du 13 novembre, la figure structurante n’est pas le héros policier, le héros soignant ou le voisin aidant mais la figure de la victime, et encore plus la figure de la victime du Bataclan. Dans cinq ou dix ans, d’autres figures émergeront peut être. Par exemple les deux policiers de la BAC qui sont intervenus 12 minutes après le début du massacre, pour liquider, à 25 mètres, au Glock, le terroriste qui était en train de continuer son massacre et avait une victime en joue depuis la scène.

Nous sommes d’ailleurs en train de changer de régime mémoriel. Ainsi, dans l’assassinat de Samuel Paty par un islamiste, le professeur n’est pas présenté en victime, mais en héros. La figure qui se construit est celle du professeur qui enseigne la laïcité, les valeurs de la République et va en mourir, au combat, dans sa tâche fondamentale de hussard noir de la République.

Qu’est-ce que cela dit de notre société ?

Les choses bougent dans la mise en valeur des victimes d’attentats, depuis l’assassinat d’Arnaud Beltrame. Dans son hommage aux Invalides, Emmanuel Macron fait référence à la Résistance pour saluer son sacrifice. Et il dit « je ne veux pas qu’on se souvienne du nom du terroriste mais du héros ».  Emmanuel Macron, dans la lignée de la politique volontariste qui est la sienne, fait réémerger la figure du héros. Il prend ainsi le contre-pied de ce qui s’était passé après l’attentat commis par Mohammed Merah contre Jonathan Sandler, ses deux enfants, Gabriel et Aryeh  et la petite Myriam Monsonégo à Toulouse, où l’on se souvient du nom du terroriste mais pas de ceux des victimes.

Comment transmettre cette mémoire ?

Depuis septembre 2019, la question terroriste figure au programme de Terminales. Mais les enseignants ne sont pas assez formés sur ces questions. Il faudrait intervenir dans les classes pour partager les témoignages – de victimes, de policiers, de soignants … – en binôme avec des chercheurs sur le modèle de ce que l’on a fait sur la mémoire de la Shoah.

ALTERAÇÃO DATA REUNIÃO MLPC DE 14 NOVEMBRO PARA 5 DEZEMBRO

COMPANHEIRA(O)S


DADAS AS RESTRIÇÕES IMPOSTAS PELO ESTADO DE EMERGÊNCIA, CONSIDEROU-SE CONVENIENTE ADIAR A REUNIÃO DO MLPC-MOVIMENTO LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO PARA O DIA 5 DE DEZEMBRO, UM SÁBADO, PELAS 15H, EM REGIME ON LINE, COM COMANDO TÉCNICO DE MÁRIO MOUTINHO, CARLOS SERRANO E JOÃO JAIME PIRES.


ENTRE OUTROS TEMAS QUE ENTRETANTO PODERÃO SURGIR PARA A AGENDA JÁ ANTERIORMENTE DIVULGADA, RELEMBRAMOS OS JÁ APROVADOS:
I -NOVO MODELO DO 3º FÓRUM, A REALIZAR-SE DIA 10 DE JULHO 2021, SEGUNDO SÁBADO DO MÊS, CRITÉRIO  QUE SE MANTERIA NOS FÓRUNS DOS ANOS SEGUINTES;-  ABERTURA, NO GINÁSIO, DAS 9 ATÉ 9,45 ;   –  DEBATES, NAS SALAS DE AULA, DAS 10 ATÉ 13,15 ;-  ALMOÇO E CONVÍVIO NO REFEITÓRIO, DAS 13,30 ÀS 15 ;-  TARDE CULTURAL NO GINÁSIO, DAS 15,15 ÀS 17,45 (INTERAÇÃO DO PÚBLICO COM OS AUTORES DAS EXPOSIÇÕES TEMÁTICAS E DE ARTES PLÁSTICAS E COM OS TITULARES DAS INTERVENÇÕES MUSICAIS E TEATRAIS) ;-  ENCERRAMENTO, NO AUDITÓRIO, INICIADO COM A LEITURA DAS CONCLUSÕES DOS DEBATES,  SEGUINDO-SE A INTERVENÇÃO DA(O)  REPRESENTANTE DA C. M. L, E, A ÚLTIMA, DA ORGANIZAÇÃO DO FÓRUM, DAS 17,50 ÀS 18,15 ;-  ESPETÁCULO FINAL EM MOLDES SIMILARES AOS DOS DOIS PRIMEIROS FÓRUNS, DAS 18,20 ÀS 19.30.
E O ADEUS ATÉ AO 4º FÓRUM, A REALIZAR-SE NO SEGUNDO SÁBADO E JULHO DE 2022.
II – INFORMAÇÃO SOBRE O SEMINÁRIO “DEMOCRACIA, QUE QUARENTENA?” A SER PRESTADA POR JOÃO JAIME PIRES
III – INFORMAÇÃO SOBRE DESENVOLVIMENTO DA IMPLANTAÇÃO A NÍVEL DO MLPC, A SER APRESENTADA POR CAMILO MORTÁGUA E QUEM MAIS O TENHA ASSESSORADO NO PORTO, PORTIMÃO, SANTARÉM, SINTRA E CASCAIS.

VAMOS TODOS LEVAR NOSSA REFLEXÃO PARA A REUNIÃO DO DIA 5 DE DEZEMBRO, MORMENTE:

– NO QUE RESPEITA AO 3º FÓRUM,QUANTO A TEMAS PARA DEBATES, PARA AS EXPOSIÇÕES TEMÁTICAS E DE ARTES PLÁSTICAS E NOMES PARA AS MESMAS E TAMBÉM PARA O ESPETÁCULO FINAL, DE MODO A PODERMOS AVANÇAR SUBSTANCIALMENTE NA ESTRUTURA DO 3º FÓRUM DO LPC. ;

– EM RELAÇÃO AO MLPC;AVALIAÇÃO DAS DILIGÊNCIAS JÁ REALIZADAS NAS CIDADES ACIMA INDICADAS ;SUGESTÕES DE NOVOS NÚCLEOS A SEREM FORMADOS EM OUTRAS CIDADES.

–  QUE OUTRAS MEDIDAS PODEM SER TOMADAS INCLUSIVE NO APOIO DE ENTIDADES VOCACIONADAS PARA OS OBJETIVOS DO MLPC ?

ABRAÇOS SOLIDÁRIOS

AMÂNDIO SILVA, ANDRÉ BARBA RUIVA, CAMILO, CARLOS CRUZ, CARLOS SERRANO, GUADALUPE, JOÃO JAIME, LUÍS VAZ, MÁRIO MOUTINHO, MÁRIO RITCHIE, MOEMA SILVA, VASCO GRAÇA, E EM NOME DE TODOS, ATÉ AGORA, MAIS DIRETAMENTE ENVOLVIDOS NA ORGANIZAÇÃO DO MLPC.