Praça Lenine e a Rússia no Porto

Há anos, de férias em Cracóvia, visitei o Bairro de Nowa Huta. Para lá chegar, todavia, houve grande dificuldade: ao perguntar pelo transporte que deveria usar, os polacos olhavam-me com certa animosidade.

E eu sem perceber se era o meu inglês, ou o deles, muito mau, ou se lhe estava a pedir o caminho do inferno. Até que o meu filho mais novo, na sua inocência infantil, me disse: “Mãe, é melhor não irmos. Deve ser um bairro muito perigoso”. Não sou de desistir. Encontramos o elétrico certo e lá desaguamos na Praça Ronald Reagan, antes chamava-se Lenine. E, desde já esclareço, não fui a este símbolo do domínio soviético por qualquer tipo de saudosismo, como pareciam desconfiar os habitantes de Cracóvia a quem solicitei ajuda: visitámos Nowa Huta apenas para satisfazer a curiosidade académica da minha filha, na altura estudante de Arquitetura.

Lembrei-me deste episódio quando acabei de ler, nas páginas do JN, um triste episódio, sinal claro dos dias cinzentos que vivemos. A loja Rússia no Porto, há dezenas de anos instalada na Baixa da cidade, agora chama-se apenas Porto. A restante designação encontra-se escondida por uma tarjeta negra. Não foi por solidariedade pela Ucrânia, certamente existe, que os proprietários alteraram o nome do estabelecimento comercial. Fizeram-no com medo de represálias. É este o momento de intolerância dos nossos dias. Mal deflagrou a guerra, os donos da Rússia no Porto começaram a receber ameaças, e os vizinhos temeram retaliações.

Perigoso, verdadeiramente perigoso, é alguém não tolerar o simples nome de uma loja. Essa gente, com certeza, engrossa as fileiras dos censores de Rachmaninoff, Stravinsky, Chostakovitch, deixaram de ler Gogol, Dostoiévski , Tolstoi e recusam assistir aos filmes de Tarkovski. Ou talvez nunca tenham tido contacto com este genial grupo de criadores. E isso explicará muita coisa.

Paula Ferreira, 23 de Maio de 2022

Círculo vicioso

No Boletim de maio do Banco de Portugal consta que apenas um em cada cinco portugueses cujos pais estudaram até ao 9.º ano conseguiram tirar um curso superior, descendo para quase metade nos casos em que a família vem de uma situação de maior vulnerabilidade económica. Já em 2018, num relatório publicado pela OCDE, era clara a conclusão de que o elevador social estava e continua avariado em Portugal e a igualdade de oportunidades é ainda uma ficção.

Se não é surpreendente a divulgação destes dados, já o é a relativa indiferença ou transigência com que são recebidos. As parcas e tímidas reações do poder político a estes estudos que vão sendo publicados não deixam de incomodar, porque parecem conviver bem com um modelo de desenvolvimento que condena os mais frágeis e vulneráveis a um ciclo de pobreza e exclusão.

De facto, as origens socioeconómicas e o capital humano dos pais continuam a marcar indelevelmente as hipóteses de crianças e jovens terem uma carreira de sucesso. Não obstante terem sido dados passos significativos, nas últimas décadas, na promoção e melhoria da escolaridade dos portugueses, na percentagem de população entre os 25 e os 64 anos com, pelo menos, o ensino secundário completo, estamos na última posição entre os estados-membros da União Europeia. Se estes dados são um embaraço, podem ser mais do que isso: um desafio comum e partilhado a que coletivamente temos de dar resposta nos próximos anos.

Sem prejuízo das evidentes e saudáveis diferenças partidárias que separam os vários responsáveis políticos, concordarão (quase) todos que a chave do problema reside na Educação, como principal fator de elevação social. Seja na aposta real, e que chegue a todo o país, no ensino pré-escolar, seja na necessidade de encarar a Educação como um bem individual que nos deve acompanhar ao longo de toda a vida, o mínimo que se exige ao poder político é que tenha uma estratégia clara que contrarie este círculo vicioso em que tantos se encontram. Um círculo em que o apelido dos pais, o local onde nascemos, o material de que é feito o nosso berço continuam a ditar grande parte das oportunidades que teremos ao longo da vida, salvo raríssimas exceções. Façamos das exceções a regra, arranjando o elevador social.

Margarida Balseiro Lopes, Jornal de Notícias, 14 de Maio de 2022

Convite

A Livraria Lello e a Âncora Editora têm o prazer de a/o convidar para a apresentação do livro Diálogos Improváveis — são de facto diálogos entre quatro personagens — O Populista, a Democracia, o Radical e a Opinião Pública — sobre realidades sociais e políticas, nacionais e internacionais, que constituem este meu livro.
A obra será apresentada pelo jornalista Carlos Magno.
A sessão terá lugar no dia 13 de Maio, sexta-feira, pelas 19:30 horas, na Livraria Lello, Rua das Carmelitas, 144, Porto.

Museu do Aljube

A Revolução está na rua!
23 DE ABRIL DE 2022 – 10H30
NAS RUAS DE LISBOA
O itinerário “A Revolução está na Rua”, inicia-se no Largo da Boa Hora, segue para o Largo do Carmo, Largo da Misericórdia e termina na Rua António Maria Cardoso. Um percurso no qual vamos à descoberta de alguns locais e momentos determinantes do dia 25 de Abril e do processo revolucionário de 1974 e 1975. A ditadura, a censura, a resistência, as prisões políticas e a Revolução nas ruas de Lisboa são alguns dos temas abordados.

Recomendamos calçado confortável.

E se trocássemos umas ideias sobre a Revolução?

Iniciamos as Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril com um ciclo de conversas a decorrer entre março e novembro de 2022, sempre às 18h, no nosso auditório. No Museu da Resistência e da Liberdade, este ciclo de conversas irá celebrar a nossa luta de todos os dias.

17 MAR – QUI, 18H00

Revolução e Disputas da Memória
Paula Godinho e Manuel Loff

7 ABR – QUI, 18H00

Revolução portuguesa: o povo está na rua!
Isabel do Carmo e Luís Trindade

13 ABR – QUA, 18H00

A Revolução antes da Revolução
Vasco Lourenço, Carlos Matos Gomes e Martins Guerreiro

5 MAI – QUI, 18H00

Revolução de Abril no mundo e no seu tempo
Raquel Ribeiro e Giulia Stripoli

19 MAI – QUI, 18H00

Revolução e lutas. O mundo do trabalho
Joana Dias Pereira, Manuel Candeias e João Madeira

16 JUN – QUI, 18H00

Revolução e a música
Francisco Fanhais e Manuel Pires da Rocha

7 JUL – QUI, 18H00

Revolução e violência política – o Verão Quente
Miguel Carvalho e Francisco Bairrão Ruivo

15 SET – QUI, 18H00

Revolução e cultura
Sónia Vespeira de Almeida e Mário de Carvalho    

13 OUT – QUI, 18H00

Revolução, géneros e sexualidade
Raquel Afonso e Isabel Freire

10 NOV – QUI, 18H00

Revolução e o que ficou. As conquistas revolucionárias.
Maria Inácia Rezola

Sujeita à lotação da sala.
Inscrições: inscricoes@museudoaljube.pt

As Artes da Revolução

Iniciamos as Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril com um ciclo de conversas sobre “As Artes da Revolução”.

A censura à imprensa, que se instalou desde os primeiros tempos da Ditadura Militar, estendeu-se rapidamente a todas as formas de expressão artística, da literatura às artes plásticas, da rádio ao cinema. Inúmeras expressões artísticas representaram formas de resistências e eclodiram com a conquista da liberdade no 25 de Abril de 1974.

14 ABR – QUI, 18h30

A arte saiu à rua
Tiago Baptista

16 ABR – SAB, 16h

A cantiga é uma arma
Com Manuel Pires da Rocha

19 ABR – TER, 18h30

A revolução atrás das lentes
José Soudo

21 ABR – QUI, 19h00

Filme: Outro país
Sérgio Tréfaut

Eventos com entrada Livre. Sujeita à lotação da sala.
Inscrições para: inscricoes@museudoaljube.pt