Editorial

Se alguma dúvida restasse para mostrar que está em curso um plano sinistro de quebra da democracia no Brasil, o domingo chegou com todas as evidências. Realmente estamos a caminho da desordem inspirada num bolsonarismo revanchista, que aposta no caos, sob a égide da intranquilidade e da desarmonia da sociedade. Outra coisa não se constatou naquelas cenas selvagens de depredação das dependências do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, com agravante – seriíssima – de serem agredidas, a um só tempo, quase orquestradamente, as sedes dos três poderes constituídos. Nada mais ostensivo para denunciar o propósito do modelo de ditadura direitista, sonho alimentado por um ex-presidente que, confortavelmente distante do cenário da violência colocada a serviço de seus propósitos, insiste em desconsiderar a manifestação das urnas, que lhe foi hostil.

Fracassado na tentativa de tornar suas reféns as Forças Armadas, partindo para segmentos da população civil, a fim de torná-los instrumento do crime que arquiteta, Bolsonaro continua tramando contra a democracia no Brasil. Insiste em alimentar tensões e, na sordidez desse plano, joga com a mobilização de correligionários arregimentados em vários estados para concentrá-los em Brasília. Gente falsamente rotulada como manifestantes descontentes com os rumos do novo governo e do processo eleitoral que o legitimou.

Espanta que os preparativos para essa mobilização, tão clara nas intenções, não tenha servido de prévia advertência aos setores de segurança, lerdos no cumprimento de seus deveres naquele momento. Este é um detalhe que convém apurar, sob a suspeita de que a tolerância pode estar conivente com a campanha de quebra da normalidade. É tudo de indesejável, no momento naturalmente delicado em que se instala o novo governo. Apurar e denunciar responsabilidades, diretas ou coadjuvantes, é tão necessário como adotar medidas severas para que não se repitam atos da insolência bolsonarista, como a que fomos obrigados a assistir neste domingo, que teve tudo para lastrear preocupações.

Claríssimo, então, que se tenta submeter o Brasil ao desassossego geral, é preciso que a nação se ponha de pé, redobre a vigilância e condene, com patriótica veemência, o esquema que o ex-presidente montou, delirando com a retomada de poderes que a expressão democrática do povo lhe negou.

Desordem, Jornal do Brasil, 9 de Janeiro de 2023

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