Um Brasil que vai. Um Brasil que vem

O ano que se vai, levando Jair Messias Bolsonaro para o ostracismo, dá lugar a 2023, que nos traz a esperança de que a vitória da opção pela democracia restabeleça a concórdia entre os brasileiros no 3º governo Lula. Luís Inácio Lula da Silva já demonstrou as vantagens da boa negociação política, com a formação de um eclético ministério com 37 comandantes, dos quais 11 são mulheres. A última indicada, para o Ministério do Turismo, foi a deputada federal Daniela de Souza Carneiro, reeleita em 2022

como a mais votada do Rio de Janeiro, com 213 mil votos, pelo União Brasil. Superou o candidato de Bolsonaro, o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que teve inacreditáveis 205 mil votos negacionistas (e o dobro de mortes na Covid).

Mais conhecida como a Daniela do Waguinho, o prefeito de Belford Roxo, Wagner dos Santos Carneiro, a deputada Daniela, nascida na pequena Italva, no norte do Estado do Rio, que tem 15 mil habitantes, 500 mil a menos que o município da Baixada Fluminense, o 6º maior do estado, logo abaixo de Niterói, é pedagoga e pode não entender muito de turismo, mas preencheu três critérios importantes buscados por Lula para ampliar a base de apoio do novo governo: é mulher; era vice-líder de um dos partidos com bom cacife no Congresso (o União Brasil, que elegeu 59 deputados federais e 10 senadores); e, por último, mas não menos importante, trata-se de uma líder evangélica (hoje, 30% do eleitorado), que chegou a ter agendas comuns com a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e o presidente que deixou o país pela porta lateral do Palácio da Alvorada e foi se refugiar na Flórida (Orlando ou Miami, não se sabe ao certo ainda).

Sempre me chamaram atenção, nos filmes americanos, os aeroportos como locais de despedidas, em Hollywood, e as plataformas dos trens, como local de encontros e despedidas, na filmografia europeia. Com o tempo, aprendi que havia muito “merchandising” nos “frames” de logos das companhias de aviação. Quantos filmes com Los Angeles ou San Francisco, na costa Oeste, como ponto de partida rumo a Nova Iorque, Washington ou Chicago, não exibiam o logo da TWA, do excêntrico bilionário Howard Hughes, dono de estúdios e da Hughes Aircraft (vendida em 1997)? Já a filmografia do francês Claude Lelouch é plena de referências ferroviárias. Quem não lembra de “Um Homem e uma mulher”, de “Un jour, um train”, ou ainda do magnífico “Les uns, les autres”, um épico de 1981 que trata da reconciliação de várias famílias vítimas das brutalidades da Segunda Guerra Mundial. Para quem não está ligando o nome ao enredo, lembro que aqui ganhou o título de “Retratos da Vida”. Até hoje me emociono com a cena do balé “Bolero” de Ravel, com Jorge Dom, ao pé da Torre Eiffel. Recomendo.

No Brasil, encontros e despedidas dos brasileiros se dão nas rodoviárias (só neste século os aeroportos começaram a ser frequentados pela classe média baixa). Pois coube ao mineiro Milton Nascimento, que abandonou o canto este ano com o megashow no Mineirão “A Última Sessão de Música”, fazer, em parceria com o saudoso Fernando Brant, a inesquecível “Encontros e Despedidas”, que lançou Maria Rita, filha de Elis, em 2004. Em Minas, o trem marcava o destino das pessoas. Essa letra de Brant, musicada por Bituca, em 1985 – a dupla fez ainda “Travessia”, “Beco do Mota”, “Canção da América”, “Maria, Maria” (o maior espetáculo que vi na vida, em 1976, no Teatro do Hotel Nacional, em São Conrado, com Milton Nascimento, o balé “O Corpo” e a entrada triunfal de Clementina de Jesus”; ao recordar a cena, fico arrepiado), e ainda “Nos Bailes da Vida” e tantas outras – me inspirou a escrever a coluna para nos despedir de 2022 e saudar 2023.

Diz a letra em seu final: “(…) “São só dois lados/ Da mesma viagem/ O trem que chega/ É o mesmo trem da partida/ A hora do encontro/ É também despedida/ A plataforma dessa estação/ É a vida desse meu lugar/ É a vida desse meu lugar/ É a vida”.

Espero que a plataforma que nos separou em 2022 de 2023 traga “gente que chega pra ficar” (…) e leve “gente que vai pra nunca mais”: Jair Bolsonaro, que não vai à estação passar a faixa presidencial.

Eles se merecem

O genial escritor e cronista José Eduardo Agualusa, o angolano que se radica ora em Lisboa ou no Brasil, quando não está em Luanda ou Moçambique, com o colega Mia Couto, sendo a verdadeira tradução da “Comunidade dos Países de Língua Portuguesa” [criada em 1996, no governo de Fernando Henrique Cardoso, em genial sacada do embaixador José Aparecido de Oliveira, reúne um grupo nove países “lusófanos”, entre os quais se destaca o Brasil, com 215,5 milhões de habitantes, secundado por Angola, com 32 milhões e Moçambique, com 29 milhões, os países que sofreram influência da colonização de Portugal (12 milhões de habitantes), cujos domínios chegaram à Índia (Goa), China (Macau) e Japão e se restringiu à independente de Timor-Leste, uma das 17 mil ilhas que se libertou da Indonésia]. Pois Agualusa escreveu ontem, em sua coluna em “O Globo”, ao comentar a partida de Bolsonaro para a Flórida, (onde disse que ficaria um tempo em Mar-a-Lago, empreendimento que o ex-presidente Donald Trump construiu em Palm Bech, principal balneário da Flórida, e se refugiou quando deixou o poder, em 20 de janeiro de 2021, depois de incitar a infame invasão do Capitólio, em 6 de janeiro, para impedir a diplomação de Joe Biden e Kamala Harris), que “os dois se merecem”: Trump teria que aturar Jair Bolsonaro e o ex-presidente teria que aturar Donald Trump.

Só que o avião da Presidência da República Federativa do Brasil levou na 6ª feira, 19 de dezembro, o então presidente (hoje já ex-presidente) a Orlando, sede da Disney, com a mulher, Michelle, assessores especialmente designados para acompanhar o ex-presidente e familiares, tudo pago com o (seu, meu, nosso) dinheiro público. Não há certeza da estadia em Mar-a-Lago. Antes pode haver encontro de patetas na Disneyworld.

Mas entre os derradeiros atos antes da fuga do Brasil, Bolsonaro fez uma extensa “live” no dia 29 de dezembro, justificando os dois meses de mutismo quase total, para decepção de seus fanáticos seguidores que ainda clamavam, diante de quartéis do Exército, por uma “intervenção federal” liderada pelo presidente derrotado, com apoio das Forças Armadas. Preocupado com a comunicação, meio “tati-bi-tate”, com os apoiadores, Bolsonaro perdeu a primazia para Luís Inácio Lula na Silva nas manifestações de pesar pelo falecimento do grande cidadão brasileiro Edson Arantes do Nascimento, o imortal Pelé. Só uma hora depois de Lula, a Secretaria-Geral da Presidência da República, que era comandada pelo general Luiz Eduardo Ramos, soltou uma nota lamentando a perda, e terminando com um parágrafo de condolências do presidente Jair Bolsonaro.

A comparação com a tíbia mensagem da “live”, cuja íntegra de um trecho importante está a seguir, deixa claro que não pode ter sido ele o autor nem o mentor da nota sobre Pelé: “Tem gente chateada, que [eu] deveria ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Eu não poderia fazer o que o outro lado fez, e digo: para conseguir certas coisas, mesmo dentro das quatro linhas, você tem que ter apoio”. Entendeu, caro leitor? Creio que está confessando que não teve competência e apoio para dar um golpe (como Jânio na renúncia, em agosto de 1961). Como não teve competência para gerir os destinos do Brasil durante quatro anos de destruição do país, revelada no diagnóstico da Equipe de Transição, e cuja repercussão passou a 2º plano, depois da perda de Pelé.

Menos crível é ter sido de sua autoria a mensagem de sábado, 31 de dezembro, quando já estava em Orlando (EUA), sobre a morte do Papa Emérito Bento XVI: “Recebi, com grande pesar, a notícia do falecimento do Papa (emérito) Bento XVI. Embora seu pontificado tenha sido curto, deixa um legado imenso para a Igreja católica, para todos os cristãos e para a humanidade. Orientou sua missão pelo lema: “Cooperadores da Verdade”. Foi um servidor dedicado da Verdade e da boa doutrina. Em defesa da verdade do Evangelho, criticou sem medo os erros da chamada “teologia da libertação”, que pretende confundir o Cristianismo com conceitos equivocados do marxismo. O Papa Bento, ao contrário, fundamentou todos os seus escritos e ensinamentos na Verdade que liberta (João, 8,32). Que seu exemplo e sua obra magistral de grande teólogo e Pastor possam educar e iluminar a todos nós”, conclui a nota voltada ao eleitorado conservador. [E Lula também se manifestou antes sobre Bento XVI, com quem esteve no Vaticano, com a esposa Marisa Letícia, e a quem recebeu na visita ao Brasil, em 2007].

A menos que Bolsonaro tenha tido surto de inteligência e clarividência ao pousar nas terras de Tio Sam, esse ato final deixa parecer óbvio que boa parte das mensagens despejadas em seu Twitter ou na sua conta no Instagram jamais foram de sua autoria. O acesso do filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro, à conta do Presidente da República, merece uma investigação rigorosa da administração de Luís Inácio Lula da Silva, bem como as centenas e milhares de atos secretos ou que guardaram sigilo de 100 anos.

Feliz 2023, com democracia e diálogo

Dito isto, só resta desejar a todos que o Brasil tenha um ambiente mais leve, de concórdia e reconciliação. Espero que o processo já tenha começado na noite de “réveillon”, na reunião de familiares e amigos para a celebração do Ano Novo. Acredito que muita gente vibrou com a queima dos fogos por ter o Brasil se afastado da marcha para o autoritarismo e retornado ao leito democrático.

GILBERTO MENEZES CÔRTES, Jornal do Brasil, 1 de Janeiro de 2023

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