O ‘bluff’: suicídio da esquerda inútil

O estado de maioridade de Catarina Martins resultava mais da sua capacidade em desafiar/sacar algo a António Costa do que ser uma mera soma de equilíbrios entre o PSR e a UDP dentro do tumultuoso Bloco, onde quem grita mata nunca ultrapassa o que diz esfola. Tal como em 2011, no famoso chumbo do PREC IV, o Bloco fica colado à sua razão – que é do tamanho da sua inutilidade – e em nada se distingue do PCP. O povo da esquerda interroga-se: vão ganhar o quê? Não tentaram sequer marcar pontos concretos para as pessoas na discussão do Orçamento da “especialidade”?

O mundo está demasiado perigoso para “bluffs”. É totalmente imprevisível onde a pandemia nos colocará daqui a três meses. Pior ainda se as eleições forem em Fevereiro, com orçamento apresentado em Abril e votado na globalidade em Maio ou Junho. E nessa altura, com que maioria? Para logo a seguir ao Verão começar tudo de novo com novo orçamento.

As sondagens mostrarão que os portugueses preferiam não ter eleições. Está tudo muito precário: há gente que ainda continua em teletrabalho, há imensas empresas que não têm a certeza se se aguentam, a energia e a inflação mostram sinais perigosos, a TAP continua a engolir milhões e não se sabe quanto mais tempo ficará em terra…

Além disso, o país ainda precisa muito do Estado para funcionar. Não porque viva só do Estado. É outra coisa: depende demasiado dele porque continua a ser difícil fazer, o que quer que seja, sem um papel, um concurso, uma autorização, um documento, um fundo comunitário que nunca mais chega. E sem Governo, a irresponsabilidade aumenta. Os sindicatos passam para o comando. O poder está na rua.

Se há coisa em que, de facto, o Governo de António Costa falhou rotundamente, foi na capacidade de manter coesa a máquina do Estado. Não há qualquer sinal de mudança estrutural para tanta coisa que continua a funcionar pessimamente, a começar pelos dois serviços mais paquidérmicos do país – os ministérios da Justiça e da Agricultura.

Mas, de entre tudo o que vai em cima do Governo, vai sobressair obviamente pela magnitude, a luta no Serviço Nacional de Saúde, onde os enfermeiros continuam a parecer uma ala radical do Chega e os médicos não perdoam as lágrimas de Marta Temido. Que a ministra da Saúde apareça como heroína de um processo onde a União Europeia lhe ofereceu de mão beijada as vacinas – e a auto-organização hospitalar resolveu caos pandémico -, é algo realmente que brada aos céus. Por isso mesmo, os médicos vão, direta ou indiretamente, puxar pela direita e também isso vai ajudar a atrofiar a maioria de esquerda.

Em cima disto, a dura realidade: vamo-nos atrasar cada vez mais, face a um mundo em vertiginosa mudança, mas que por cá não sentimos, encostados ao mar como estamos, amortecidos pela despesa colossal (dívida de 130% do PIB) que se vai acumulando para nos proteger em casa. É esta soma de birras, ineficiências e prepotências do Governo+partidos à esquerda, que potenciam a tempestade perfeita e a maioria de Direita.

Mais: ainda faltam três (ou quatro) meses para as eleições e já não se aguenta tanta notícia e encenação política na televisão. Meta-se em cima disto os muitos congressos e eleições partidários, além da feroz campanha eleitoral (a das autárquicas ainda agora acabou…!), e dará vontade a muitos portugueses de não irem votar. Ou votarem da forma mais radical possível. Penso sempre nos alemães de 1933: como foi possível? Na verdade, temos três meses torturantes pela frente que vão colocar Ventura nos 15% (pelo menos) e um país crescentemente ingovernável. À espanhola.

Daniel Deusdado, Diário de Notícias, 31 de Outubro de 2021

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