Negacionistas : O ataque a Ferro Rodrigues e nós

Foi simbolicamente em frente à Assembleia da República que o seu presidente, Eduardo Ferro Rodrigues e a mulher, Filomena Aguilar, se viram no sábado, enquanto almoçavam, atacados por uma turba que os insultou, caluniou e ameaçou, filmando-os e filmando-se a si mesma, com orgulho, a cometer os citados crimes. É, ainda simbolicamente, através desses vídeos, colocados nas redes como troféu, com o objetivo de humilhar e degradar as vítimas, que o episódio foi conhecido e chegou aos media.

De notar em primeiro lugar que, como em tantas situações semelhantes, a denúncia e o execrar do ocorrido recorrem à exibição e partilha dos vídeos, propagando-se as calúnias, as ameaças e a degradação a que as vítimas foram sujeitas, revitimizando-as. A incapacidade que tanto os media como a maioria dos que usam as redes sociais demonstram em perceber princípios básicos sobre direito à imagem e sobre os danos, quer para os objetos diretos quer para a comunidade, causados pela difusão deste tipo de crime não cessa de me espantar. Bastaria, afinal, pensar dois segundos isto: se fosse eu ou os meus pais ou avós naquela situação, gostaria que estes vídeos fossem partilhados, mesmo se para denunciar o que neles se vê?

Mas parece evidente que para os media a procura de audiências e cliques há muito eclipsou qualquer preocupação deontológica; quanto às pessoas em geral, procuram na sua maioria igualmente partilhas e relevo – querem lá perder tempo a pensar nas consequências e na ética (que é lá isso) ou em se o ato de partilhar, para criticar, uma tentativa de humilhação e desumanização participa na humilhação e desumanização. Vimo-lo com o nojento vídeo com Paulo Rangel, vemo-lo agora: milhares de partilhas com as alegadas melhores intenções a fazer alegremente o serviço aos criminosos.

Tanto é assim que todas as notícias que li sobre o ocorrido se limitam a descrever, sem qualquer questionamento. Questionar o quê? Desde logo, onde estava a polícia. Durante todo o tempo que durou o cerco ao restaurante não apareceu qualquer elemento policial para fazer cessar o ataque à segunda figura do Estado português – só no final, quando Ferro se dirige ao carro, é ajudado a avançar por um elemento da segurança pessoal e por um agente fardado. Isto, como já referido, à frente do parlamento, onde há sempre guarda policial, e quando estava anunciada uma manifestação/ação de protesto “contra o passaporte sanitário/certificado digital e pela liberdade”, convocada por aquele grupo e para aquele local, naquela tarde.

Na semana em que se soube que quer o atual presidente da República quer o ex-presidente Sampaio, o primeiro-ministro e vários embaixadores foram almoçar a um restaurante lisboeta onde trabalhavam dois suspeitos de pertencer ao Daesh, esta ocorrência com Ferro Rodrigues surge ainda mais incompreensível: que andam mesmo a fazer as forças de segurança? Não sabem já, depois dos insultos e empurrões ao responsável da task force da vacinação, a 15 de agosto, e dos vídeos criminosos, precisamente a caluniar e ameaçar Ferro, de um ainda magistrado judicial afeto ao grupelho, que se trata de gente que apela à violência e é violenta?

Já vimos manifestações em Lisboa com um tal dispositivo de segurança que há mais polícias que manifestantes; já vimos a PSP a carregar indiscriminadamente sobre pessoas e a bater em jornalistas identificados (em 2012, no Chiado), até a disparar balas de borracha (em janeiro de 2019, na chamada manif dos afrodescendentes); agora vemos, no local de uma manifestação convocada por um grupo que já deu provas de violência, absoluta ausência de fardas. Quer a PSP quer a tutela têm de explicar como isto foi possível – porém até à tarde desta segunda-feira, quando escrevo este texto, esta aparatosa falha de segurança não merecera ainda uma palavra das duas entidades.

Mas não é só à PSP e ao MAI que devemos exigir respostas, ou ao MP ação (ao fim da tarde de segunda este finalmente anunciou ter aberto um inquérito criminal). É a cada um de nós – os que estão chocados com o ocorrido, naturalmente. Que fazemos no nosso quotidiano para combater calúnias e discurso de ódio? Por exemplo, que fazemos quando vemos na net alguém a chamar a Ferro Rodrigues alguns dos mesmos nomes que aquela turba, comandada por uma mulher de megafone – Ana Desirat, que se gabou da façanha no seu Facebook – lhe gritou? Achamos, como me disseram no Twitter, que “são coisas diferentes”?

Suponho que será mesmo isso que muita gente acha – que ser apelidado de assassino, bandido ou pedófilo perante uma audiência potencial de milhões é menos grave que na rua (a lei tem opinião diferente: quanto maior a audiência, maior a punição). Só isso explica que por exemplo um utilizador do Twitter não anónimo como João Quadros, com quase 200 mil seguidores, tenha por várias vezes associado o presidente da Assembleia da República a abuso de menores, chamando a essa associação “piada”, sem suscitar grandes reações de repúdio e inclusive mantendo a deferência, simpatia e portanto validação e encorajamento de inúmeros que agora se manifestam muito chocados com o sucedido este sábado.

No mesmo ano em que vimos o discurso de ódio e a retórica caluniosa de Trump resultar na invasão do Capitólio, o ataque ao presidente do parlamento deve fazer-nos refletir sobre que papel queremos ter no combate contra a barbárie – que regras, afinal, queremos impor na nossa comunidade. No Twitter e Facebook como no resto da vida, porque é tudo vida. E porque, como tão bem escreveu no mesmíssimo Twitter a deputada social-democrata Margarida Balseiro Lopes, “em democracia, se atinge um, atinge todos.”

Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 14 de Setembro de 2021

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