De napalm a Cabul

Robert Duvall ganhou um Oscar por escassos onze minutos como coronel dos fuzileiros navais americanos no histórico “Apocalypse Now” de Coppola. Seu personagem, em meio a um ataque de helicópteros em uma suposta aldeia do Vietnam, elogiava, aos berros, o cheiro do Napalm como estimulante quase sexual.

Ficção, óbvio. Mas, a fotografia de uma garota vietnamita nua, o corpo inteiramente queimado, correndo desamparada por uma estrada de barro, saiu em página dupla do semanário “Time” e correu mundo. Assim também como correu mundo a bárbara fotografia de um tiro à queima roupa dado por um chefe de policia sul-vietnamita na têmpora de um jovem vietcong, o sangue a espirrar como de melancia rompida a marteladas. A mesma “Time”, pela mesma época, publicou uma reportagem sobre uma rotineira missão de aviões bombardeiros – estado da arte bélica aeronáutica –

desovando centenas de bombas sobre o território norte-vietnamita. Segundo a reportagem, na cabine do avião militar os tripulantes ouviam a relaxante música “People”, interpretada por Ella Fitzgerald. Não era ficção.

De “Apocalypse Now” também nos ficou na memória a invocação dramática da voz de Marlon Brando: “the HORROR; the HORROR”.

Dos anos 60 até hoje, o horror ficcional se imiscuiu no horror cotidiano e nossa sensibilidade emocional passou a usar o escudo da cinematografia a nos poupar da brutalidade vista e pressentida. E assim fomos vivendo. Com a bala de fuzil a arrancar o cérebro de John Kennedy em Dallas, o tiro a abater Robert Kennedy em Los Angeles, Marthin Luther King em Memphis, até o sufocamento pelo joelho sádico de um supremacista branco no pescoço de George Floyd em plena era do “make America great again”, codinome da ficção xaroposa dirigida por Donald.

A violência invade nossos olhos e ouvidos em “surround sound”, a cores e nos é repetida a ponto de certas barbaridades passarem como aceitáveis ou como metáforas inocentes. Quando o presidente da nação afirma ser mais conveniente comprar um fuzil de guerra do que feijão, a frase soa como ironia fina numa feijoada da milícia militar. Perdemos o bom senso como quem perde uma ventarola num baile de carnaval dos anos 50. “Ó jardineira porque estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu…”

Se o presidente nos manda comprar fuzis para não sermos uma nação escrava, teremos nós um destino mais oculto, mais elíptico que uma pregação oracular de nosso ex-Chanceler Araújo – sempre louvado – em grego e tupi-guarani? Será ficção ou realidade o que se nos promete como favas contadas ou por fadas enfadadas? Estamos no Brasil a girar num horror ficcional? Ou estamos a falar que por aí vem um crime de lesa-Pátria a fazer de Calabar um personagem menor de nossa história de traições?

Tudo parece ficção, e até mesmo a morte de seiscentos mil brasileiros por incúria, má-gestão, desonestidade, canalhice, pouca vergonha, insensatez e sobretudo indiferença, já não nos parece real. Será preciso matar mais? Com quantos fuzis se fará um morticínio maior? Quantas famílias brasileiras ainda serão enlutadas?

Quer dizer que ser patriota hoje é apagar uma luz no apartamento? E quem não tem casa? Nem feijão? Nem sequer uma atiradeira para, qual David, atirar uma pedra nestes Golias de miolo mole? Seremos todos escravos não de Jó; mas de Judas? Nosso ministro já adverte como se não soubéssemos: a conta de luz vai aumentar. Quem diria? A inflação aumentou, a comida está caríssima e o ministro nos pede a paciência dos justos. Como se fôssemos todos idiotas do carrossel de Pangloss onde até os cavalinhos andam sempre em direção ao melhor dos mundos. O preço do fuzil aumentou. Sem contar a lente objetiva. A bala dundum. É preciso rever os artigos de primeira necessidade na cesta básica.

Cabul não é ficção. Atrás daquelas cenas dantescas a lembrar a retirada do Vietnam II, há toda uma realidade redigida por estrategistas militares como Goldwater, Cheney, Rumsfeld, e presidentes como Bush, pai e filho, Reagan, Nixon, Clinton e sobretudo Trump, o inefável herói dos sonhos inconfessados do Dr. Strangelove, hoje reencarnado na figura a assombrar as noites e os dias de um povo que nada fez para merecer tanta ignorância narcísica e patológica. Precisa-se de neurônios, não de bravatas e vômitos de insensibilidade pela vida alheia. Estadista não é ficção. E mandato presidencial não é o nome da pracinha do sanatório municipal.

Adhemar Bahadian, Jornal do Brasil, 29 de Agosto de 2021

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