“Liberalismo” ou negacionismo? Estupidez

Um ano depois da declaração da pandemia do novo coronavírus, a humanidade parece naturalmente cansada e ansiosa para voltar àquilo a que chamávamos “normalidade” – e que, na verdade, foi em parte causadora dessa mesma pandemia.

Entretanto, o facto de quase ninguém, nesse afã de retorno à “normalidade”, mostrar qualquer inquietação relativamente ao esgotamento do modelo de desenvolvimento tecnofinanceiro que se tornou global nas últimas quatro décadas faz-me perder a esperança no nosso futuro comum, pelo que não vou discuti-lo. O que talvez nos reste a cada um de nós é tentarmos manter a nossa sanidade e integridade individual, pelo menos para podermos dormir tranquilamente todas as noites.

O que pretendo abordar neste artigo é algo mais visceral e, por isso, profundamente revelador da natureza humana: a estupidez. Não, Nietzsche não tinha razão: não somos super-homens nem deuses. Ignorantes e tantas vezes boçais, somos apenas arrogantes. Caminhamos alegremente, assim, para a nossa própria destruição, pois somos incapazes de prevê-lo.

Não devemos, por conseguinte, espantar-nos com as crescentes manifestações, um pouco por todo o mundo, de bandos de “combatentes” pretensamente “libertários” e “antiditadura”, por causa das medidas anticovid que a esmagadora maioria dos estados tem sido forçada a tomar para impedir a generalização da pandemia. A esses bravos seres vociferantes, autoproclamados “liberais”, juntam-se os negacionistas antivacina, com receio, quem sabe, de se converterem em jacarés, como preveniu o des-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

O que ambos reivindicam? O direito de escolher os riscos que querem correr. Nada mais liberal, não? Falso. Isso não tem absolutamente nada que ver com liberalismo.

Precisamos de reler os pais do liberalismo, para lembrar o que eles ensinaram: a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro. No caso da atual pandemia, os riscos relacionados com a covid-19, mais do que individuais, são comunitários, ou seja, cada um que desrespeitar as cautelas recomendadas pelas autoridades sanitárias, com base nas informações científicas disponíveis, estará a colocar igualmente em risco os demais membros da comunidade.

Na verdade, esse falso liberalismo não passa de negacionismo. Isso não seria problema se os seus defensores não interagissem com o resto da população, o que não é o caso. Assim, é preciso dizê-lo preto no branco, sem tibiezas: todos aqueles que se recusam a observar as regras sanitárias estabelecidas para enfrentar o novo coronavírus e que continuam a interagir com os restantes cidadãos são potenciais assassinos.

O espantoso é que não faltam, em todo o mundo, exemplos de negacionistas e antivacinas entre os próprios profissionais de saúde.

Por tudo isso, é igualmente confrangedor assistir à maneira “panicada” (espero que o editor deixe passar este neologismo angolano) e caótica como certos governos lidam com os bravos negacionistas da covid-19. A recente atitude da União Europeia em relação à vacina da AstraZeneca-Oxford foi um exemplo clamoroso de cobardia e falta de liderança, que não abona a favor da organização.

A isso, é de juntar igualmente os chiliques de certos intelectuais contrários, por exemplo, ao passaporte covid, cartão de vacina anticovid ou seja lá qual for a designação que se der a algo que parece fundamental: um documento que comprove que o seu utente já foi vacinado contra esse vírus.

Mais uma vez, comprova-se que o ridículo mata. Neste caso, literalmente.

João Melo, JN, 23 de Março de 2021

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