O maior amigo do coronavírus é o egoísmo

Imaginemos que Portugal não tinha suspendido a vacina da AstraZeneca na segunda-feira à noite e morria uma pessoa. Pouco provável? A DGS e o Infarmed sabiam que havia um paciente de 60 anos internado nos cuidados intensivos do Hospital de São João, em estado muito grave, após ter tomado a vacina. Esperar pela Agência Europeia do Medicamento era a única via possível. Aumenta o medo? Não podemos ficar reféns dos extremistas.

Este caso do paciente “AstraZeneca” está a ser, aliás, extraordinariamente útil para percebermos os limites da absoluta histeria o processo. Como explicou na quinta-feira a Agência Europeia do Medicamento (EMA), não há um problema geral de efeitos secundários na administração da vacina. Pelo contrário, tomá-la é muitíssimo mais seguro que não tomar. Mas foi encontrada pelo menos um problema que merece estudo. No relatório divulgado, diz-se que parece haver uma ocorrência de cinco vezes mais casos de coagulação intravascular em pessoas com menos de 55 anos do que estatisticamente é normal.

No caso em concreto do paciente do Hospital de São João, o retrato não é igual ao da matriz analisado pela EMA. O paciente teve uma miopericardite há três anos e, apesar de curada, surgiu de novo. Duas hipóteses: teria acontecido na mesma, independentemente da vacina? Ou é um “evento adverso”, pós-AstraZeneca, e fará parte de uma estatística onde há até agora 469 efeitos tromboembólicos e nove mortes? Esta é uma das dúvidas do coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de São João, Roberto Roncon, quando explicou o caso ao Porto Canal.

Obviamente, quando estas coisas acontecem, há que estudar, reportar, fazer comparações. Faz parte da fase 4 da avaliação de uma vacina verificar reações. Quem não compreende este realismo, vai desejar um mundo ideal sem vírus ou risco – um delírio.

O paciente “AstraZeneca”, internado no Hospital de São João, ainda continua nos cuidados intensivos. O processo de vacinação vai ser retomado. E não sabemos se, com esta vacina ou com outra, podemos precisar de nova paragem. Ou até recuar. Mas só esta seriedade nos permite acreditar que, face a um problema novo, somos capazes de reagir sem medo de uma opinião pública crente num mundo biotecnologicamente perfeito.

Há milhões de anos que os vírus estão em mutação permanente. É a sua forma de sobrevivência. Se queremos “apanhar” o Sars-cov-2 para o “domesticar”, ou seja, sem nos criar efeitos graves, temos de ser muito rápidos e atuar em conjunto. É exatamente por isso que “a mais louca corrida do mundo por uma vacina” está totalmente condenada ao fracasso.

As primeiras epidemias “coronavírus” SARS e MERS, do início deste século, mostram que estas só não degeneraram em pandemia porque o vírus matava muito – e por isso também ficou confinado a essas vítimas. Pelo contrário, o Sars-cov-2 é brando e mata pouco, por estranho que pareça. Especializou-se em ser contagioso para prosperar, mas é especialista em aproveitar o que cada um de nós lhe oferece para se tornar diferente. Vacinarmos globalmente o planeta é provavelmente a nossa única chance. E mesmo assim, um tiro de sorte…

Se não mudarmos a estratégia de vacinação, os países ricos descobrirão rapidamente que vão ter que se revacinar vezes sem fim. E, mesmo assim, os seus cidadãos não poderão sair das fronteiras domésticas anos a fio. Adeus turismo, adeus aviação. E tudo isto é muito mais caro, e pior, do que vacinarmos toda a gente globalmente. Esqueçam os rankings da Fórmula 1 da vacina. O maior amigo do coronavírus é o egoísmo.

Daniel Deusdado, Diário de Notícias, 22 de Março de 2021

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