Crianças decapitadas, um milhão de pessoas com fome. A crise no norte de Moçambique

Com os jornalistas impedidos de se deslocarem a Cabo Delgado, são as organizações não governamentais e a Igreja Católica quem tem reportado sobre aquela província moçambicana em crise humana e de segurança há três anos e meio. O mais recente relato é da Save the Children, que ouviu o testemunho de mães que perderam filhos para a violência e o ódio religioso. “Os relatos de ataques a crianças perturbam-nos até ao âmago. O nosso pessoal tem sido levado às lágrimas ao ouvir as histórias de sofrimento contadas pelas mães nos campos de deslocados. Esta violência tem de acabar, e as famílias deslocadas precisam de ser apoiadas à medida que encontram o seu rumo e recuperam do trauma”, comentou o diretor da Save the Children para Moçambique, Chance Briggs. No mesmo dia, o presidente moçambicano, Filipe Nyusi, pediu ao novo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) para erradicar o terrorismo do país.

“Naquela noite, a nossa aldeia foi atacada e as casas foram queimadas. Quando tudo começou, eu estava em casa com os meus quatro filhos. Tentámos fugir para a floresta, mas eles levaram o meu filho mais velho e decapitaram-no. Não podíamos fazer nada senão também seríamos mortos“, contou uma mãe de 28 anos sobre o filho de 12 anos.

A organização não governamental, que iniciou a atividade em Cabo Delgado na ressaca do furacão Kenneth em 2019, mantendo 45 funcionários e 40 voluntários no terreno, encontrou esta família de agricultores num campo de deslocados a 200 quilómetros da sua aldeia, com as três crianças traumatizadas e uma delas a necessitar de cuidados médicos.

Infelizmente, não são caso único. Outra mãe de 29 anos também perdeu uma criança. “Depois de o meu filho de 11 anos ter sido morto, compreendemos que já não era seguro ficar na minha aldeia. Fugimos para a casa do meu pai noutra aldeia, mas alguns dias depois os ataques também começaram lá. Eu, o meu pai e as [três] crianças passámos cinco dias a comer bananas verdes e a beber água de bananeira até conseguirmos o transporte que nos trouxe até aqui”, relatou esta mãe que se diz de coração partido porque não pôde despedir-se nem dar um enterro adequado ao filho. São testemunhos de um conflito que já provocou mais de 1200 mortos e 670 mil deslocados perante a incapacidade do governo central.

Além disso, lamenta a Save the Children, há quase um milhão de pessoas a “enfrentar fome severa”, sendo certo que o trabalho da ONG acode 70 mil pessoas. Há quem coma ervas para enganar a fome.

A mais de 1500 quilómetros de distância, o presidente de Moçambique procedeu a mudanças na hierarquia das Forças Armadas. Na terça-feira, ao seu ex-chefe da Casa Militar, Rivas Mangrasse, promovido a CEMGFA, Filipe Nyusi pediu o fim do terrorismo e dos “seus mentores, que não devem ter sossego e devem se arrepender de ter ousado atacar Moçambique”.

Na véspera, a embaixada norte-americana em Maputo anunciou que tinha dado início a um programa de dois meses de formação de forças especiais para reforçar a capacidade de resposta do exército ao grupo que, dias antes, foi oficialmente designado como terrorista pelos EUA. Colocar o ISIS-Moçambique na lista negra de Washington dificultará os apoios financeiros aos insurgentes.

Do lado europeu, o pedido de apoio foi recebido em setembro e a resposta foi positiva, com Portugal a voluntariar-se para ajudar na formação, mas até ao momento não se materializou, segundo o eurodeputado Carlos Zorrinho, porque há “quem esteja no terreno que não quer que essa ajuda se faça”.

É na província de Cabo Delgado que está previsto o maior investimento privado em África, através da exploração do gás natural, numa infraestrutura que deverá estar pronta em 2024 e será explorada por um consórcio de empresas de vários países, liderado pela francesa Total. A insurreição representa uma ameaça direta aos projetos de gás, tendo um ataque em 30 de dezembro decorrido a apenas 10 quilómetros da infraestrutura, que recorre a empresas de segurança privadas para proteger o pessoal.

Por outro lado, a esperança de que o projeto trouxesse benefícios para a população perdeu-se entre o sentimento de abandono, a marginalização económica, os desastres naturais e o terrorismo. Daí que uma resposta exclusivamente militar, avisam os peritos, seja insuficiente ou mesmo contraproducente. O exército moçambicano, subdimensionado e mal equipado, recorreu a mercenários estrangeiros, primeiro em 2019 através do grupo russo Wagner – que se terá retirado após o falhanço no terreno – e depois com os sul-africanos da Dyck.

Associações como a Amnistia Internacional criticam esta abordagem porque a população tem sido vítima de abusos de todos os lados, levando à sua alienação. “A aposta para travar este conflito não deve ser apenas no campo militar. Deve ser uma estratégia multifacetada que garanta o desenvolvimento local, evitando que mais jovens das comunidades afetadas se juntem aos grupos armados”, disse à Lusa o diretor da ONG Centro de Integridade Pública, Edson Cortez.

Neste contexto, ganham mais relevância as conclusões de um estudo sobre captação de jovens para o extremismo. Segundo uma análise do Instituto de Estudos Sociais e Económicos, as províncias de Nampula e Niassa também são campos de recrutamento para os grupos armados que atacam Cabo Delgado.

César Avó, Diário de Notícias, 17 de Março de 2021

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