Perder o foco da luta antidiscriminação na simples parvoíce

Como qualquer passo de alguma importância que se queira dar nos dias que correm, a ideia de um passaporte de vacinação contra a covid está a gerar oposição e alertas. O tema é que quem já foi vacinado e tem o certificado que o comprova poderá exercer direitos que os restantes, os ainda não vacinados, não podem, gerando-se assim discriminação.

Tão preocupados andamos com a igualdade que não vemos que este tipo de absurdo é potenciador de injustiças profundas – que resultam em revolta, em radicalização e extremismo. Andamos com mil cuidados para não ofender ninguém, sem nos apercebermos que a diferença faz parte da natureza e deve ser notada e celebrada nos termos e na medida certa. Não privilegiando ninguém por ter ou deixar de ter uma determinada característica mas antes criando uma base a partir de qual todos podem evoluir independentemente das suas especificidades, aproveitando as qualidades que nos tornam, a cada um de nós, únicos.

É claro que quem tiver sido vacinado poderá fazer o que outros talvez ainda não possam, mas isso deve servir de incentivo para que a vacinação avance com a maior rapidez possível e não para forçar todos a manter-se num mesmo patamar. Extremando a discussão, estamos a caminho de proibir que se apresentem diplomas de formação na candidatura a uma empresa – porque é que só quem teve oportunidade de estudar há de ter direito a candidatar-se a certas posições? -, a declinar avaliações, hierarquias e gradações para que ninguém se sinta inferior.

Na luta pela igualdade, muitos se têm perdido em ideias abstrusas que tiram o foco e a razão à justiça dos argumentos. Como querer alterar expressões como amamentar, mãe ou grávida para palavras de género neutro (peitamentar, pessoa que tem filhos, pessoa que gera bebé…) de forma a não discriminar, como se discute no parlamento britânico. Ou considerar “inadequada” a escolha do catalão contratado para traduzir o poema que Amanda Gorman levou à tomada de posse de Biden, porque só uma “mulher jovem, ativista e negra” deveria poder fazê-lo. Ou censurar o tom identificado como cor-de-pele porque nem todos temos aquela cor e acusar de apropriação cultural quem cria a sua imagem com inspiração no mundo inteiro. Ou sugerir que Os Maias não devem ser lidos sem anotações que condenem o racismo e que o Padrão dos Descobrimentos deve ser arrasado.

Infelizmente, há novos exemplos todos os dias. E no meio de tanta parvoíce, corremos sérios riscos de ver extremar posições, de esmagar direitos, expressão e liberdade, de acabarmos por nos tornar numa massa informe e assética onde a individualidade é proibida.

Foquemo-nos no que importa o quanto antes. No caso das vacinas, em garantir que chegam depressa e a todos – sem esquecer que “todos” não se esgotam na Europa e na América do Norte.

Joana Petiz, Diário de Notícias, 15 de Março de 2021

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