Um ano após a primeira morte, Bolsonaro é um derrotado como líder

Há um ano morreu a primeira das mais de 272 mil pessoas pela covid-19 em território nacional. A princípio a imprensa divulgou, com base em informações do governo estadual, que o primeiro óbito havia ocorrido em 17 de março, mas o Ministério da Saúde mais tarde revisou os dados e concluiu que, cinco dias antes, uma mulher de 57 anos, internada no hospital municipal Dr. Cármino Caricchio, em São Paulo, fora a primeira a sucumbir em decorrência da nova doença. O 12 de março marca o início do longo pesadelo que ainda não acabou e deixa marcas indeléveis por toda parte na forma de mortes, perdas, falências e desemprego. Também determina o começo de uma segunda provação, esta especialmente pessoal: a de Jair Bolsonaro como líder político. Há políticos que, secretamente, passam a vida esperando uma crise para se sobressair entre seus iguais e deixar uma impressão no seu povo. Pode ser uma obra, um acordo, um plano, até mesmo um discurso. Políticos sabem que uma crise é definidora de suas carreiras. Um bom desempenho os mantém na vida pública por muito tempo.

A crise da pandemia é do tipo que políticos ambiciosos enfrentariam com determinação: a origem não foi sua culpa pessoal; atingiu o mundo inteiro; comoveu milhões de eleitores; foi provocada por um vírus e não por um ato do seu governo. Ou seja, como uma vítima das circunstâncias, tudo o que ele fizesse para tirar o país do atoleiro e evitar mais mortes seria considerado um feito seu. Poderia até não encerrar o problema, mas se conseguisse qualquer vitória real no meio da batalha já estava de bom tamanho. Quem sabe seria até inesquecível. Que o diga o ex-ministro Henrique Mandetta.

Com a pandemia, toda a capacidade de liderança, raciocínio, inteligência e decisão de Bolsonaro foi posta à prova diariamente ao longo de 12 meses.

O resultado é o que sabemos e vemos. Bolsonaro sabotou miseravelmente a união nacional, implodiu irremediavelmente a organização do combate, falhou lamentavelmente, sob o ponto de vista do interesse da saúde pública, na comunicação oficial, se omitiu inapelavelmente até no ato mais banal que mesmo um vereador deve fazer, que é semear esperança no eleitorado. Bolsonaro tinha à sua frente uma chance política dos séculos – mas sua natureza despreparada, paranóica, reacionária e ignorante falou mais alto.

Por exemplo: um político esperto deixaria as diferenças políticas momentaneamente de lado, abraçaria o governador João Doria (SP) e ampliaria a produção da vacina do Butantan. Ali estava, a poucos km de Brasília, alguma “salvação” – até um ignorante em ciência conseguiria ver. Mas Bolsonaro fez o cálculo eleitoreiro e optou pelo confronto. Se um indivíduo não tem a dimensão do problema à sua frente, não sabe como sair dele.

Bolsonaro ganhou a eleição de 2018 e pode até ser reeleito em 2022, mas de fato já é um derrotado no seu mandato. Ele está no cargo mas não acrescenta nada ao combate à pandemia – só o torna mais difícil. Entra e sai dos noticiários como um fantasma arrastando correntes, fala idiotices, ofende alguém, espalha mentiras, atrapalha.

Sua derrota é moral, ética e administrativa. Moral porque faz passeios de finais de semana e dá longas risadas enquanto corpos são empilhados nos necrotérios. Ética porque golpeia governadores e prefeitos quando eles estão mais expostos e despreparados – é como chutar o adversário caído no campo de futebol. Nesta quinta-feira (11), usou a carta de um suicida com o objetivo de acusar adversários políticos. Administrativa por toda a ausência de coordenação das ações e da logística em tudo que era mais importante, da compra de seringas à aquisição das vacinas.

Nas últimas décadas, desde a redemocratização em 1985, todos os presidentes brasileiros enfrentaram suas crises capitais. Com exceção de Itamar Franco (1992-1994), sofreram sérias acusações e as inconstâncias do mandato.

Dois deles naufragaram no meio dos embates, Fernando Collor em 1992 e Dilma Rousseff em 2016. Mas ambos caíram com dignidade porque respeitaram as regras do jogo democrático, enfrentaram seus adversários sem golpes sujos e mantiveram a ordem constitucional e legal. Nenhum ameaçou o Supremo Tribunal Federal com notinhas de generais. Ambos acusam ilegalidades nos processos políticos de impeachment a que responderam. Nesse ponto, até os mais cruentos críticos reconhecem que há argumentos válidos de parte a parte. Eles perderam seus mandatos, mas são mesmo derrotados? Sob o ponto de vista da democracia, não. Até, indiretamente, a engrandeceram.

Fale-se tudo sobre os outros presidentes – Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Lula -, menos que tenham se apequenado nos momentos mais graves dos seus mandatos. Sarney deixou uma crise econômica gravíssima e saiu da Presidência com a aprovação lá no chão. Mas conseguiu fazer a travessia da ditadura militar para as eleições diretas. Por isso será lembrado.

FHC viveu a grande crise do apagão de julho de 2001 a fevereiro de 2002. Mas conseguiu superá-la por meio de um gabinete de crise que trabalhou sem parar. Lula sobreviveu ao escândalo do mensalão e foi reeleito no ano seguinte, 2006. Enfrentou a crise econômica mundial de 2008 e elegeu sua sucessora.

O Brasil hoje é um caso para análise psicanalítica e nada garante que Bolsonaro não consiga ser reeleito em 2022, mesmo com a liderança desastrosa à frente do combate à pandemia. Há forças irracionais no ar impulsionadas por fake news, que o bolsonarismo exerce sem qualquer pudor. Com certeza voltarão com tudo no ano que vem. O voto em Bolsonaro tem pouco a ver com capacidade de gestão e liderança. Há ódio envolvido.

Mas ainda que possa ganhar no voto, o que parece cada vez mais difícil, Bolsonaro já perdeu o grande jogo. No momento mais agudo das nossas vidas, calhou de aparecer o pior líder de todos os tempos.

Para citar um nome do campo político associado ao de Bolsonaro, em seu livro de memórias “Momentos de decisão” (ed. Novo Século, 2012) o ex-presidente norte-americano republicano George Bush (2001-2009) escreveu: “A natureza da Presidência é que, algumas vezes, não se escolhe a natureza dos desafios a serem enfrentados. O presidente decide como reagir a esses desafios”.

Bolsonaro decidiu todos os dias, desde 12 de março de 2020, como enfrentaria a pandemia. O resultado está aí: uma derrota pessoal histórica e um exemplo mundial de como não fazer.

Rubens Valente, UOL, 12 de Março de 2021

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