O Populismo não é de agora, mas é provável que esteja para durar

A ideia de que Portugal era “imune” ao populismo foi maioritária, mas nunca unânime. Ainda que muitos apontem as eleições legislativas de 2019 como um ponto de transformação política e de chegada do populismo, os exemplos de políticos populistas portugueses recuam vários anos. Temos investigadores e políticos que além dos exemplos internacionais olham para o caso português e para a insatisfação que estava escondida na abstenção.

Para Filipe Carreira da Silva, investigador do ICS, o caso “mais óbvio” de um populista português, o mais antigo, é o de Alberto João Jardim, que “durante décadas” governou “à conta da oposição entre ‘a Madeira’ e ‘o continente’”. Susana Salgado, investigadora na mesma instituição, concorda e acrescenta nomes da política local, como Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras. A investigadora dá também o exemplo de “um tipo muito diferente de populismo com Fernando Nobre” e, ainda que “mais timidamente”, o de Manuel Alegre nas presidenciais de 2006. Já Pedro Adão e Silva lembra, além de Fernando Nobre, António Marinho e Pinto, ambos com “votações muito superiores a André Ventura” e com ”alguns desses traços”.

Carmo Afonso, advogada, recua até o antigo Presidente da República Liliana Borges Sidónio Pais. Miguel Poiares Maduro
admite que poderá recuar também à ditadura, mas aponta a proximidade política do Bloco de Esquerda ao Podemos (Espanha) e o Syriza (Grécia).

Para o socialista Pedro Adão e Silva, “faltavam as condições subjectivas, porque as objectivas estavam todas cá” para que o fenómeno crescesse. “Talvez faltassem protagonistas e o momento certo”, completa.

Carmo Afonso acrescenta que o “atraso” na chegada do fenómeno a Portugal — ainda que a uma escala menor — “deu ao populismo português a oportunidade de aprender”. “Deveria também ter dado aos portugueses a oportunidade de aprenderem com os erros dos outros”, atira. E avisa: “A história ainda não acabou, está só a começar”.

Filipe Carreira da Silva nota que para o discurso populista resultar é preciso conjugar “o carisma do líder político, a máquina partidária, mas também o sistema eleitoral”. Uma vez que o discurso e a política populista se alimentam de “ressentimentos e percepções de injustiça social”, nota a investigadora Susana Salgado, a crise de representação política assume um papel determinante, pois “as pessoas sentem que não estão a ser ouvidas, que os seus problemas não estão a ser resolvidos e que os políticos eleitos não as representam”.

Uma sensação que Adão e Silva considera ter ganhado força com “a queda de todas as instituições de intermediação que organizavam a participação e o protesto, como os sindicatos, os partidos, as igrejas, e as associações locais” e a sua transformação num modelo de protesto “mais individualizado — e com um alcance distinto — nas redes sociais”. A isso soma-se “a quebra de vínculos de pertença culturais”, em que as pessoas “deixam de se identificar com as práticas culturais e os estilos de vida dos outros”, quer falemos de casamento entre pessoas do mesmo sexo, quer do fim das touradas. “São processos durante os quais uma parte da população perde as suas referências identitárias e sente as referências dos outros como uma imposição face ao que acredita”, explica o socialista.

Adão e Silva dá o exemplo da população “ensanduichada” entre “as famílias que têm rendimentos suficientes para conseguirem mobilidade social” e as “as famílias que beneficiam da protecção social do Estado”. Nesse segmento da população, que vive do seu rendimento de trabalho “com dificuldade” — mas que não é suficientemente pobre para beneficiar dos apoios sociais — há um “mal-estar latente”. “Foi o que aconteceu com os coletes amarelos”, em França, acrescenta.

Uma opinião partilhada pelo ex-ministro social-democrata Miguel Poiares Maduro. A isso somam-se “as fake news e as cascatas informativas das redes sociais que passam a validar ideias mais radicais e favorecem o aparecimento de actores políticos populistas”, acrescenta.

Já para Adão e Silva, se essa insatisfação não atingiu uma escala maior em Portugal, isso deve-se também à estabilidade do sistema partidário português. “Os partidos que fundaram a democracia ainda estão todos no Parlamento, o que é muito incomum. Mas não pode ser um acaso que subitamente tenhamos dez.”
Apesar de considerar não haver um problema com a imigração, por exemplo, Adão e Silva atribui alguma resistência ao populismo ao papel da Igreja e do PCP enquanto instituições que assumiram a responsabilidade de “acomodar o descontentamento e algumas dinâmicas sociais a que os partidos no Parlamento não eram capazes de dar resposta”, defende.
O investigador acredita que essa canalização do protesto do PCP — e a sua capacidade de infuência da CGTP — fizeram “uma grande diferença durante a troika”, o que se torna “muito evidente” por comparação à “experiência com a Grécia”.

Também a ruptura com o Estado Novo “permitiu a construção de novas elites” e a consolidação da ideia de que “a democracia e o processo de europeização se traduziram em vantagens materiais”. O Estado Novo e a Guerra Colonial diminuíram “a nostalgia de um passado que é preciso reconquistar”, como acontece com a narrativas “MAGA [’Make America Great Again’] nos
EUA, ‘Brexit’ no Reino Unido, do Vox em Espanha e da Frente Nacional em França”, continua Adão e Silva.

A eficácia de um político populista reside também na sua capacidade de ajustar “o discurso e propostas ao que as pessoas querem ouvir”, sublinha Susana Salgado, e que tende a ser confundido com “demagogia, manipulação política, apelo às emoções e com a simplificação exagerada de problemas complexos”. O populismo tem isso tudo, mas é a centralidade no povo, na exclusão do outro e na promessa anti-sistema que o distinguem. “É geralmente oportunista, aproveita as circunstâncias para conseguir
ganhos políticos e muda o discurso conforme as tendências.” Um populista “está sempre muito revoltado, ‘vem dizer
as verdades’, assume o papel de voz do povo, recorre ao discurso desconcertante e rebelde, tenta dizer aquilo que algumas pessoas querem ouvir”, completa Carmo Afonso. Os populistas são “empáticos” e “têm o grande talento de saber olhar para o povo e de perceber onde tem comichão, para depois lá ir coçar. Isto tem a ver com ‘pensar no povo’, num sentido ético e
nobre? Zero”, acrescenta.
Há populismo à esquerda e à direita? “Sim”, responde Poiares Maduro. “O populismo de esquerda tende a falar de uma
elite financeira, económica que controla tudo contra a vontade do povo e de organizações transnacionais, enquanto o
populista de direita aposta no povo contra os aqueles que estão de fora, como os emigrantes, e assume um discurso xenófobo”.

Para o social-democrata, é “perfeitamente compreensível” que Portugal seja menos tolerante com o radicalismo de direita, devido ao seu passado histórico com a ditadura (de direita). “Nos países de Leste é ao contrário. A margem de tolerância para o populismo de direita é muito maior do que para o populismo de esquerda. Além disso, o BE já teve tempo de se institucionalizar”,
completa.
A estes pólos, Susana Salgado acrescenta um terceiro: o populismo ao centro, um fenómeno que diz não ser menos perigoso, uma vez que “molda a política” e predispõe “a uma maior aceitação de extremismos, quando o centro falha ou entra em crise”, avisa. E o futuro deverá passar por essa radicalização, admite, especialmente entre as gerações mais jovens “que cresceram com as redes sociais”.

Público, 5 de Março de 2021

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