“Ou mudamos ou em 2040 haverá 50 kg de plástico por cada metro de linha de costa em todo o mundo”

Foi por Zoom que Peter Thomson respondeu ao DN sobre os perigos que ameaçam os mares e será também via online, devido à pandemia, que será possível assistir à sua intervenção na terça-feira na conferência Oceano Que Pertence a Todos, organizada pelo Clube de Lisboa. Nascido em 1948 em Suva, capital das Fiji, foi embaixador desse país da Oceânia nas Nações Unidas e entre setembro de 2016 e setembro de 2017 presidiu à Assembleia Geral da ONU. António Guterres nomeou-o enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas para os Oceanos, um tema que apaixona desde sempre Thomson, que, como conta, tinha em criança a praia do seu país como parque infantil.

É possível identificar a principal ameaça para o oceano, pode dizer-se que existe uma ameaça principal?
Se tivesse de identificar uma ameaça principal diria que são as emissões antropogénicas de gases com efeito estufa. A razão para isso é que as nossas emissões de gases com efeito estufa estão a causar a acidificação do oceano, a desoxigenação do oceano e o aquecimento do oceano. Os três efeitos em conjunto são os fatores que estão a mudar radicalmente a natureza do oceano, a mudar os ecossistemas, a originar a subida do nível das águas do mar e a tornar a vida muito difícil para certas formas de vida debaixo de água.

Sendo um fijiano e tendo pois nascido numa nação-ilha, pensa que isso o torna mais consciente destas ameaças do que alguém que viva numa cidade ou num país onde o oceano não está tão presente?
É diferente, sim. Não é coincidência que os pequenos países insulares em desenvolvimento tenham estado na linha da frente das Nações Unidas na formação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 14 – Vida Submarina; e não é coincidência que os mesmos pequenos países insulares em desenvolvimento como as Fiji tenham estado na linha da frente da organização do sistema de conferências das Nações Unidas para manter e implementar o ODS 14, o objetivo para os oceanos. Para falar sobre o tema em termos de experiência pessoal diria que houve duas coisas para mim: quando era criança comecei a ver o plástico a aparecer nas nossas linhas da maré – esferográficas, isqueiros, sacos de plástico – e, mesmo para uma criança da escola era aparente que deitar fora estes novos produtos baratos, indestrutíveis, ia causar problemas à vida e ao ambiente. O segundo exemplo que daria é o seguinte: ao viver nas Fiji, o nosso parque infantil era o mar e, para mim e para os meus amigos, isso significava em grande parte mergulhar, não com botijas pois não tínhamos meios para isso, mas o mergulho livre nos recifes. Quando se vê um recife de corais vivo percebemos que é uma das grandes alegrias de se viver neste planeta, mas ao voltar lá como adulto, aos mesmos recifes, e vê-los mortos por branqueamento do coral devido ao aquecimento do oceano, é uma coisa muito, muito trágica. É o equivalente a ver uma floresta húmida a arder ou transformada em pastagem, é um sentimento de perda. Assim, estas são duas das razões pelas quais eu trabalho muito pelo bem-estar dos oceanos.

António Guterres disse, a propósito do plástico nos oceanos, que se não se agir de imediato, em 2050 haverá mais plástico no mar do que peixe. Isto é apenas uma maneira enfática de o secretário-geral das Nações Unidas dizer as coisas ou existe a possibilidade real de isso acontecer mesmo?
Esses cálculos podem não estar totalmente corretos, mas são uma estimativa muito aproximada, não duvide. É uma quantidade assustadora de plástico que pomos no oceano todos os anos e continuamos como se nada fosse. Se não agirmos, se não mudarmos o nosso comportamento, o fluxo anual de plástico para o oceano praticamente triplicará até 2040 e atingirá os 29 milhões de toneladas métricas por ano. É assustador. É o equivalente a 50 quilos de plástico por cada metro de linha de costa em todo o mundo. Pensemos na costa do Canadá, na costa do Chile, na costa da Austrália, etc., e vemos a dimensão do que são 50 quilos de plástico por cada metro de costa ao redor do mundo. Agora, estes números não são atirados só para assustar, são do estudo feito pela Pew and Systemiq no ano passado e chamado Breaking the Plastic Wave (Quebrar a Onda do Plástico), que é visto como o relatório preponderante sobre a poluição de plástico nos oceanos. Portanto, sim, esse número que diz que haverá mais plástico do que peixe no mar em 2050 corresponde à realidade se não agirmos e continuarmos como se nada fosse. A nossa obrigação é mudar os nossos comportamentos.

Sei que é um grande defensor da parceria entre os países para combater estas ameaças. Em termos das Nações Unidas – as pessoas criticam às vezes a ONU por desperdiçar tempo nas discussões no Conselho de Segurança – na prática nós vemos a ação da OMS, da UNICEF, etc. Acredita que a ONU consegue trabalhar em união, como o nome indica, em relação a estas ameaças aos oceanos?
Eu já vi isso na prática pessoalmente, fui presidente do conselho executivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento [PNUD] e fui presidente da Assembleia Geral da ONU. O que estou a dizer não é retórica: a ONU é central para o bem-estar da humanidade e do planeta. Pode haver certos países, em certas alturas da história, a afastarem-se das Nações Unidas, mas para a boa governança do nosso planeta nós temos de ter as Nações Unidas. Obrigado por ter mencionado a OMS e outras organizações, mas analise o sistema da ONU e tente imaginar o mundo sem o Programa Alimentar Mundial [PAM], haveria milhões de pessoas a morrer à fome todos os dias sem o PAM; tente imaginar o mundo sem a FAO, a agricultura já há muito tempo que não conseguiria produzir os alimentos suficientes; tente imaginar o mundo sem o PNUD, haveria enormes falhas no desenvolvimento e no bem-estar da humanidade.

Qual pode ser o papel de um pequeno país como Portugal, mas com uma longa tradição de ligações marítimas, história marítima e uma enorme zona económica exclusiva [ZEE]?
Eu começaria por dizer que acho que as pessoas não olham para Portugal como um país pequeno. A vossa liderança em assuntos marítimos, a vossa influência ao redor do mundo através dos Descobrimentos – há pessoas a falar português por todo o mundo -, faz que não pensemos em Portugal como um pequeno país. Dito isto, dado o tamanho da vossa população, vocês são ambiciosos e são-no no bom sentido, porque nós precisamos de defensores do oceano e Portugal colocou-se nessa posição. Penso que o mais importante, para um país como o vosso – e claro que existem outros como o vosso a tentar fazer o mesmo -, é respeitar o oceano e tentar encontrar o equilíbrio certo entre a proteção e a produção. Basicamente é o que se chama economia sustentável. O vosso primeiro-ministro foi um dos 14 chefes de governo que entrou – e ainda está – no Painel de Alto Nível para Uma Economia Sustentável do Oceano. Este painel é uma das organizações mais influentes nos últimos dois ou três anos em termos de se conseguir esse equilíbrio entre a proteção e a produção. Tem que ver com a forma como podemos respeitar o oceano porque – e tenho pena de o dizer – as projeções atuais mostram-nos que o oceano está num ciclo de declínio. Já falei dos gases com efeito estufa, mas há também a forma como estamos a pescar e a poluição. Há muito trabalho para fazer, e nós confiamos em países como Portugal, ente outros com assento no Painel de Alto Nível, para fazerem parar esse declínio e levar-nos de volta a uma relação equilibrada com o oceano.

Falamos de proteger o oceano, mas ao mesmo tempo exploramos todas as riquezas do oceano. Podemos ver em todo o mundo muitas disputas, potenciais conflitos entre países devido ao mar – Mediterrâneo Oriental, mar do Sul da China. Isso significa que existe o perigo de os interesses económicos dos países poderem conduzir o mundo a uma espécie de suicídio?
Isso não é uma coisa que me preocupe. Eu tenho fé nestes acordos e nesta legislação, nos Objetivos para Um Desenvolvimento Sustentável e, para mim em particular, no ODS 14, o objetivo para o oceano. Estes acordos são universais e os conflitos locais não vão perturbar estes acordos universais assinados por toda a gente. Nós só temos de nos certificar de que estes acordos universais são implantados da forma correta e se não o forem temos de efetuar a correção. É esse o processo.

Diário de Notícias, 20 de Fevereiro de 2021

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