Portugal e Brasil, de Amândio a Niemeyer

Nesta edição o Jacinto Rego de Almeida JRA)escreve sobre ele, e eu fi-lo no site da VISÃO, logo após a sua morte. Não quero, porém, deixar de o recordar nesta coluna, de forma muito sucinta. Refiro-me a Amândio Silva, que nos deixou a 31 de Janeiro, aos 82 anos, vitima de cancro. Combatente de sempre pela liberdade, aos 20 anos, em 1959, esteve implicado na revolta da Sé, para derrubar a ditadura. Preso durante cerca de um ano, na iminência de o voltar a ser pediu asilo político na embaixada do Brasil, que lha concedeu como a muitos outros antifascistas. E, exilado no Brasil, foi um dos seis patriotas que, em 10 de Novembro de 1961, tinha 22 anos, “tomaram” um avião da TAP, carreira Casablanca-Lisboa, obrigando o comandante a sobrevoar, muito baixo, a capital portuguesa, para lançar cem mil folhetos denunciando o regime tirânico no poder e apelar à luta contra ele.
Coroada de êxito a operação, voltaria ao Brasil, exilado político até ao 25 de Abril. Antes, e sobretudo depois da revolução libertadora de 1974, se calhar ninguém fez ou tentou fazer tanto como ele, em iniciativas e acções concretas, “pela amizade, solidariedade, fraternidade luso-brasileira”, mormente pelas formas que o JRA refere. Sempre, como na VISÃO escrevi, “com a mesma seriedade, simplicidade, atenção às pessoas, trabalho dedicado e desinteressado”.
E ao recordar o Amândio, e sobretudo esse constante esforço na defesa de uma causa que sempre foi também do JL, lateralmente ocorre-me sublinhar dois pontos. O primeiro é o modo como o Brasil democrático acolheu os que combatiam a ditadura em Portugal: de Jaime Cortesão ou Sarmento Pimentel a Humberto Delgado ou Henrique Galvão, e a muitos de gerações mais recentes, mormente dos que recusaram a guerra colonial. E em matéria da concessão daqueles asilos políticos, desde logo a Delgado, mais tarde assassinado pela PIDE, o papel decisivo que teve o então embaixador na capital portuguesa, Álvaro Lins, um destacado crítico literário e intelectual, amigo e colaborador do Presidente Juscelino Kubitschek. Sucedeu-lhe Negrão de Lima, e foi o então jovem diplomata e poeta Alberto da Costa e Silva (mais tarde ele próprio embaixador em Lisboa – e em 2014 Prémio Camões) que levou ao aeroporto o chefe civil da citada revolta da Sé, Manuel Serra,
em condições e ocorrendo então ‘episódios’ singulares, como conta no volume Invenção do Desenho, das suas excelentes Ficções da Memória.

O SEGUNDO PONTO É O PROJETO QUE ÓSCAR NIEMEYER ofereceu para a sede da Fundação Luso-Brasileira para o Desenvolvimento do Mundo de Língua Portuguesa, de que o Amândio foi o grande motor e dinamizador – projecto que não chegou a ser executado (ler o texto de JRA). O que foi e é lamentável, por todas as razões. Desde logo porque tal se deveu à impossibilidade de o concretizar por parte da Fundação, que acabou por mais ou menos soçobrar. E porque era ótimo haver em Lisboa um edifício do genial arquiteto brasileiro, de que não há nenhuma obra em Portugal continental – e apenas uma, o Casino Park Hotel, no Funchal. Aliás, em Dezembro de 2012 o então presidente da Câmara de Lisboa, e atual primeiro-ministro, António Costa, anunciou que a cidade iria homenagear o “criador” de Brasília, concretizando o seu projeto num Centro Cultural e Empresarial, cuja primeira pedra, especificou, seria, lançada a 13 de Junho de 2013.
Afinal, até hoje…
E, já agora, é sabido que Niemeyer projetou alguns dos mais belos museus e centro culturais do mundo. Pois o último, em 2010, tinha uns espantosos 102 ou 103 anos, foi o Museu de Arte Contemporânea de Ponta Delgada – que também não se concretizou. No início de 2011 a então presidente da Câmara daquela cidade açoriana, Berta Cabral, anunciou que o lançamento do concurso para a construção ocorreria no final do primeiro semestre desse ano. Também até hoje… Em ambos os casos não sei porquê, embora imagine.
Mas já se viu o que representaria para Lisboa ter aquele Centro desenhado por Niemeyer? E, ainda mais, o que representaria para Ponta Delgada, para os Açores e para Portugal, além de para a própria arquitetura, realizar esse que foi dos últimos projetos de Niemeyer, se não o último – e, de museus, de certeza o último?.

Comentário, José Carlos de Vasconcelos, Jornal de Letras, 10 a 232 de Fevereiro de 2021

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