Amândio Silva, um militante da lusofonia

Durante o pequeno almoço num pequeno hotel da cidade alemã de Rothenburg ob der Tauber, no dia 26 de Abril de 1974, tive a notícia do golpe militar em Portugal, na véspera. Regressei então, apressadamente, ao Rio de Janeiro, onde vivia exilado. À chegada fui “convocado” para participar de reuniões de exilados portugueses sobre a situação política em Portugal, num espaçoso apartamento na rua Prudente de Morais, em Ipanema. As reuniões eram organizadas em sua casa por Amândio Silva. E foi aí que nos conhecemos. João Tito de Morais, Jaime Conde, Paulo de Castro, João e Rosa Raínho, antigos oficiais da Marinha e do Exército – Henrique Marcelino, António Fonseca, creio que Manuel Pedroso Marques -, o Bravo, o Fradinho, Abrantes da Fonseca, um ou outro “comendador” da colónia portuguesa do Brasil, críticos do anterior regime de Portugal, eram alguns dos participantes das reuniões. Cada grupo recebia informações de Lisboa das fontes políticas (PS, PCP, MFA, PSD) e os debates eram acalora- dos. O Amândio assumia uma natural liderança e coordenava os trabalhos com eficiência e bom senso. Todos sabíamos a sua história de resistência: o sequestro do avião da TAP, operação VAGÔ coordenada pela LUAR, a sua participação na Revolta da Sé, o asilo político na Embaixada do Brasil em Lisboa chefiada por Negrão de Lima… Nesses encontros criaram-se algumas solidariedades e amizades políticas e pessoais para o resto da vida.

O Amândio possuía um conjunto de qualidades que o tornavam singular: capacidades de organização e trabalho, solidariedade, coragem pessoal e experiência de risco. E duas referências políticas muito fortes que o marcaram a vida toda: Manuel Serra e Fernando Oneto.

Cada um dos exilados vivia o exílio como forma de libertação, uma vez que não sofríamos no dia a dia a atmosfera cinzenta e opressiva da ditadura, e depois da guerra colonial em Portugal. O que nos tornava indivíduos propriedade da nação portuguesa, propriedade de outrem. No caso do Brasil, um país de grande dimensão com possibilidades de trabalho e um sentimento de liberdade pessoal, não éramos incomodados, do ponto de vista político, pela ditadura militar (implantada em 1964), desde que não nos envolvêssemos na resistência local – como fizeram Alípio Freitas, então preso, Luís Fernandes, do PC do B, e Fernando Moura, este na clandestinidade e muito mais tarde militante do PT, ambos vindo a ocupar elevados cargos em governos brasileiros até 2018. Então, o exílio brasileiro marcou profundamente o Amândio como veremos. Adiante.

Com o 25 de Abril, a nossa alma foi tomada por sonhos e aspirações suscitados pela libertação do país. O consulado-geral de Portugal no Rio de Janeiro foi “ocupado” por iniciativa do Amândio e do João Tito de Morais, passaportes foram concedidos aos então exilados por um cônsul amedrontado…e começou aos poucos o regresso a Portugal de muitos de nós. O Amândio foi chefe de gabinete do secretário de Estado da Emigração, Pedro Coelho, conhecido militante fundador do Partido Socialista (PS), a LUAR foi ‘absorvida’ pelo PS e mais tarde o Amândio tornou-se membro da Comissão Nacional do Partido. Mas nunca teve ambição de poder político, os seus sonhos eram de outra natureza. A dado momento, foi convidado para secretário de Estado, falou-me longamente a este respeito e concluiu que não tinha vocação e interesse para um cargo desse tipo. Recusou.
A comunicação social após o seu falecimento abordou a sua atividade de resistência e militância política, mas pouco se referiu ao seu empenho nas relações luso-brasileiras. Na segunda metade dos anos 80, foi nomeado conselheiro social da Embaixada de Portugal em Brasília, trabalhou com os embaixadores Adriano de Carvalho e Leonardo Mathias, sediado no Rio de Janeiro, onde mantinha intensos contactos com a comunidade portuguesa.
Nessa condição organizou anualmente extraordinários espetáculos e iniciativas culturais comemorativas da Revolução de 25 de Abril sobretudo no conhecido teatro João Caetano, no centro da cidade. Alguns dos mais importantes compositores e artistas brasileiros participaram, entre outros António Nóbrega, Fagner e Ivan Lins, bem como diversos artistas portugueses, entre os
quais António Vitorino de Almeida e Vitorino. E participou a mais destacada intérprete de intervenção latino-americana, a argentina Mercedes Sosa. Lá estiveram também, nomeadamente em debates universitários, escritores como Augusto Abelaira, capitães de Abril, como Marques Júnior, e outras figuras, como Helena Roseta. Enfim, a sua iniciativa anual tornou o novo Portugal conhecido da vida cultural da cidade.
Depois, criou a Fundação Luso- Brasileira para o Desenvolvimento do Mundo de Língua Portuguesa, sediada em Lisboa, mais tarde regressando a Portugal como secretário-geral dessa instituição. O arquitecto Óscar Niemeyer, seu amigo, desenhou o projeto da sede que começou a ser construída em terreno cedido pela Câmara Municipal, mas a escassez de recursos obrigou a Fundação a mudar de mãos. E, mais tarde, já reformado, fundou a Associação Mares Navegados (AMN), em grande parte com antigos exilados no Brasil, para o estreitamento das relações entre os dois países e os países de língua oficial portuguesa – admitida, como observadora, na CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), mas com ela rompendo após a admissão da Guiné-Equatorial como seu estado membro.
Em 2007, com o antropólogo Pedro Agostinho, prof. da Universidade Federal da Bahia, organizou (com o apoio da AMN) e prefaciou o livro Agostinho da Silva no Brasil (Ed. Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro). Nos últimos anos foi, juntamente com Camilo Mortágua, o grande impulsionador do movimento “Liberdade e Pensamento Crítico”, que tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e do Liceu Camões. Apoiante da candidatura de Sampaio da Nóvoa a Presidente da República, participou com iniciativa e empenho da Plataforma Cascais, que produz um excelente trabalho de divulgação política de esquerda, e nas recentes eleições apoiou ainda a candidatura de Ana Gomes à Presidência da República.
O cancro que o vitimou acometeu-o com grande violência nos últimos três meses de vida, mas dois dias antes de falecer – com 82 anos, no passado dia 31 de Janeiro, aos 82 anos, em casa, na Parede ainda telefonava para os seus amigos para troca de informações e sugestões de ação. Honra-me ter sido um companheiro de estrada da vida deste combatente da liberdade.

Jacinto Rego de Almeida, Jornal de Letras, 10 a 23 de Fevereiro de 2021

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