O burlão que saiu do frio

De um político do séc. XXI, espera-se, ideologias à parte, que carregue o património civilizacional conquistado ao longo de séculos

Escondidos da vaga polar, a dias do novo confinamento, assistimos à campanha presidencial mais estranha de sempre: sem ruas, sem praças e sem beijinhos. Odioso, o vírus obriga os candidatos à agilidade mediática, sobrecarregando assessores e jornalistas, e à proficuidade digital, com rios de dinheiro investidos no online. Do outro lado do Atlântico, o exército fanático de Trump assalta a casa da democracia americana, como que concretizando o fetiche sádico de um vilão netflixiano. Tal como no final apoteótico de um filme mau, a invasão do Capitólio por um bando de fanáticos foi o previsível clímax de quatro anos de ódio, mentira e destruição democrática. Para a Europa, onde uma vaga de pupilos de Trump lhe copia o método, torna-se evidente a urgência de fortificar a Democracia contra o populismo barato e retrógrado. E esse processo já começou: em Portugal também.

Se, neste amado retângulo à beira-mar plantado, as modas chegam frequentemente com atraso, há momentos em que o nosso estatuto de país periférico se torna vantajoso. No caso da vaga mundial de oportunistas de extrema-direita, essa realidade evidencia-se. Se, como um irmão mais novo, formos capazes de aprender com os exemplos que nos precedem, prevenindo erros crassos e respondendo à altura, conseguiremos não cair na esparrela.

Esta semana, os Estados Unidos da América escancararam a falência da sua democracia, até para quem não acreditava ou se recusava a fazê-lo. Uma sociedade fragmentada, moralmente falida e sem rumo, vigiada pela Estátua da Liberdade como o espelho de um sistema em desabamento. Outrora tida como sólida e, para alguns, até um “farol do mundo”, a democracia americana foi deixada em cinzas por um homem que, tal como os aprendizes que o seguem, se aproveitam do legítimo cansaço, do descontentamento e da frustração das pessoas, para tomar o poder e deitar por terra o castelo de areia. Se a queda de Trump foi uma das poucas boas notícias de 2020, a recuperação americana desse vírus político levará bem mais do que quatro anos. Mas como é que alguém assim foi lá parar?

Há certas características que fazem de Trump um protótipo de populista radical e é importante que saibamos encontrá-las nos políticos que as replicam. Tornado célebre no seio de uma cultura mediática dependente do grotesco e do escândalo, Trump conquistou os holofotes da televisão e a atenção do público por via de um estilo diferente do habitual nos políticos: um registo “sem papas na língua”, que diz “o que lhe apetece” e “sem medo de ser politicamente incorreto”. Este cunho difere muito, felizmente, da pose natural de um político democrático moderno – que, quando fala ou age em público, tenta, por norma, seguir uma linha de racionalidade, escolhendo gestos e palavras dentro de um quadro de valores culturais e civilizacionais. De um político do séc. XXI, espera-se, ideologias à parte, que carregue o património civilizacional conquistado ao longo de séculos. Afastando-se do polimento esperado de um político, os novos populistas aproximam o seu discurso do modo como falam as pessoas nas novelas, nos reality shows ou no comentário desportivo – sem filtros e sem regras -, tornando tudo extremamente mais simplista e, portanto, “viral”. Certas camadas da população, vítimas de um sistema desigual e incapaz de lhes dar oportunidades, sentem-se próximas deste discurso e identificam-se com ele. De seguida, a receita manda “dividir para reinar”: tanto Trump, como Bolsonaro, Modi, Erdogan, Salvini, Strache ou Abascal se apressam a criar inimigos, sejam eles os imigrantes, os pobres, os media, “a esquerda”, ou “aqueles que não querem trabalhar”. Não interessa quem são os inimigos, desde que sejam, alegadamente, bastantes. Por fim, a desinformação: todos estes populistas criam os seus próprios circuitos fechados de comunicação, com especial aposta nas redes sociais, nos grupos privados e nos canais de Youtube, para manipular e radicalizar a sua base de apoio. Todos apressam-se a descredibilizar os meios de comunicação convencionais, como os jornais, a televisão ou a rádio, convencendo os seus seguidores de que são detentores “da verdade”. Soará esta estratégia familiar a Portugal?

As eleições presidenciais estão ao virar da esquina e os debates têm evidenciado uma série de aspetos. Em 2021, candidata-se à Presidência da República um grupo diversificado de pessoas com posições e ideologias muito diferentes, face ao qual cada português exercerá a sua livre escolha. Mas, mais do que insistir na divisão simplista e enganadora entre esquerda e direita, há que olhar para este espectro com o filtro da democracia, infalível como o algodão. Há candidaturas democráticas e uma candidatura antidemocrática. Entre as várias candidaturas, há uma, e apenas uma, que pertence à família de Trump. Há uma candidatura cujas propostas negam o nosso progresso civilizacional e recusam o património coletivo do respeito pelos Direitos Humanos, apelando à intolerância, à divisão e à discriminação. Apesar de não ter a mínima hipótese nestas eleições, há uma força política que se diz nacionalista e católica, mas segue o modelo da extrema-direita internacional (o que é, no mínimo, estranho para um movimento dito nacionalista) e vai contra a doutrina social da Igreja e contra todos os valores da cristandade. Essa força política assenta a sua campanha na ideia da divisão entre os “portugueses de bem” e os outros, quando, curiosamente, foi exatamente isso que Trump chamou aos invasores do Capitólio: “pessoas de bem”. Perante esta afronta, a democracia terá de se defender. E todos os democratas, de esquerda e de direita, são chamados à defesa.

Depois de quatro anos em que o “assalto à democracia” pelo populismo americano foi uma força de expressão dos comentadores políticos, a democracia foi, de facto, assaltada, no Capitólio. A literalização desta figura de estilo é, uma vez mais, a prova de que as palavras não são “só palavras”: o discurso de ódio fragmentário resultará sempre em ódio real e divisão. Para combater a fria vaga dos extremismos, há duas vias claras: primeiro, traçar linhas vermelhas, não dando confiança a projetos antidemocráticos, e acabando com a tolerância para com os intolerantes. Segundo, atacar os problemas que motivam o descontentamento legítimo das populações: sem justiça e direitos sociais, sem combate à corrupção e às desigualdades, nenhuma sociedade será saudável. As democracias sólidas têm tudo aquilo de que precisam para eliminar as forças extremistas: inteligência, valores e humanismo.

Democratas de todo o mundo, uni-vos!

Henrique Costa Santos, Visão, 11 de Janeiro de 2021

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