Luís Ribeiro (1955-2020) – um académico ativista

Eu chamava-lhe “engenheiro de utopias”, daquelas que nos fazem continuar a lutar por causas que podem mudar o mundo.

Semeador de ideias, projetos, conseguia fazer um pleno de diversas áreas que sabia entrelaçar como ninguém a música, a água, o teatro, as artes plásticas, o cinema.

Luís Filipe Tavares Ribeiro, 64 anos, faleceu subitamente no passado dia 3 de Abril, em Lisboa. Ativista do ambiente e do direito à água, com a competência científica e a perspetiva social que o caracterizavam, o Luís Ribeiro marca uma geração de gente ligada ao estudo, à preservação e à sustentabilidade dos recursos hídricos, a nível nacional e internacional.

Deixa uma obra notável, que desenvolveu ao longo de mais de três décadas, nas áreas dos recursos hídricos e da hidrogeologia. Professor associado no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, coordenava vários projetos de investigação nacionais e internacionais, com particular incidência no Norte de África e na América Latina, onde manifestava forte preocupação mais pela ação das multinacionais na apropriação de vastos aquíferos para exploração industrial intensiva, como no caso recente do Aquífero Guarani, na América do Sul.

Grande dinamizador da Associação Fragas Aveloso era seu Vice-Presidente e responsável pela programação anual do Festival das Fragas. Vamos sentir muito a sua falta, mas a direção da associação vai assegurar que os projetos do Luís Ribeiro vão avançar com o empenho de todos/as.

Foi um ativista de muitas causas ao longo da sua vida, desde logo pela intervenção relevante nas áreas em que centrava a sua intervenção profissional, sempre com elevado sentido crítico e social e um fino e inteligente sentido de humor.  Foi ator e encenador de teatro, cinéfilo e divulgador da 7ª arte,  membro dos corpos gerentes do ABC Cineclube de Lisboa. Participou recentemente na formação do movimento “Lisboa Precisa”, que questionou as políticas urbanísticas municipais e a turistificação da cidade, com grande empenho na defesa das condições de vida e ambientais a propósito da expansão do aeroporto da Portela.

A capacidade de traduzir os seus interesses e ideias em várias formas de expressão, que incluíram a investigação, a representação, a música e as ideias políticas, foram reconhecidas por todos os que conhecerem o Luís, nos diversos cantos do mundo.

O Luís era especialista em águas subterrâneas, mas conseguia integrar na perfeição o seu conhecimento científico com o envolvimento em projetos culturais e artísticos. O interesse pelas culturas da América do Sul levou-o a estudar aprofundadamente as tecnologias de aproveitamento da água desenvolvidas pelos povos pré-incas. Partilhou esse conhecimento científico com outros investigadores e alunos de países como o Peru, a Colômbia, o Equador, o Chile, a Bolívia, o Brasil, a Tunísia e Marrocos, sendo responsável do curso Erasmus+ “Lençóis freáticos e mudanças globais” e coordenador de mais de 30 projetos de investigação desenvolvidos em colaboração com esses países.

O seu gosto pela música levou-o a estudar os clássicos musicais que têm a água como tema central e a preparar a(re)presentações, em que conduzia a música pelos ecossistemas aquáticos, com a sua subtileza humorística. Em 2018 lançou o livro “O Ciclo Musical da Água”, onde destaca a simbiose entre a música, os estados de alma e os estados da água. Essa paixão pela música e a sua relação com a água motivaram a realização de conferências multimédia como “Do Fado à Ópera com o Tejo em Fundo”, “Cinemágua”, “Bachianas Amazónicas”, “Aspectos da Natureza na Música Barroca” e “C(o)(a)ntando a Chuva”.

Como investigador e professor do Instituto Superior Técnico, conseguiu cativar o interesse dos seus alunos para as questões dos recursos hídricos e da hidrogeologia, e usou o seu sólido conhecimento científico como base para uma intervenção política na sociedade. As suas fortes convicções sobre a necessidade de fazer um melhor uso das águas subterrâneas, face à sua maior resiliência às alterações climáticas e a fenómenos de poluição, motivou o seu envolvimento com associações como a Fundação Nova Cultura da Água e a Associação Portuguesa de Recursos Hídricos, tendo dinamizado e participado em diversos eventos das mesmas. Integrou as Comissões científicas e organizadoras do Congresso Ibérico da Água, tendo sempre um papel ativo na dinamização dos momentos culturais e artísticos associados àqueles eventos.

Sendo oriundo de uma pequena aldeia, Aveloso de Sul, localizada no distrito de Viseu, fez sempre questão em voltar à aldeia e recuperar as tradições da região, recolhendo e preservando todo o espólio de memórias antigas. Essa dedicação ganhou mais peso com a fundação da Associação Fragas-Aveloso, em homenagem à prima e também investigadora e ativista ambiental, Paula Tavares, falecida em 2009, com sede na aldeia. Nos últimos 10 anos, Luís Ribeiro tem envolvido as populações locais na valorização dos recursos hídricos locais, salientando a importância das formas tradicionais de uso das águas superficiais e subterrâneas. Conseguiu recuperar os saberes locais e trazer os mais jovens a valorizar o património das aldeias interiores, através da realização de projetos de capacitação, envolvência das escolas locais e dinamização do Festival Fragas Aveloso.

(Paula Chainho – Gazeta da Beira)

Qual a cor da liberdade do Luís?

A vida começa a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam (Martin Luther King Jr.)

A cor da liberdade (verde e vermelho), um poema de Jorge Sena, também Engenheiro penso que foi o lema do Luís Ribeiro, embora lá no fundo ele escolheria sempre o verde…

Mas do que eu conheci nele, diria que ele foi a Unidade na Diversidade. Pretendeu concretizar sempre a ideia de uma identidade fundamentada na pluralidade cultural, considerando a cultura como a possibilidade de unir-nos a todos.

O Luís faz-nos falta, porque ele era inteligente, com uma capacidade de dizer tudo com humor mas sempre acutilante na ideia de um país melhor. No debate sobre o nosso futuro vamos precisar das suas ideias, para alcançarmos todos juntos as razões por que o queremos fazer.

O Luís Ribeiro melhor que ninguém, conhecia sobretudo o território da América Latina, falava dos povos que estão a ser forçados a viver uma existência intolerável por lhes ser negado acesso a alimentação adequada, e sobretudo do direito à água potável e habitação digna. Testemunhámos em cada dia com ele o modo como a História se faz e como, em cada dia, a justiça se compromete e as lutas de centenas de anos se destroem.

A outra vertente é compreender o Luís como homem de cultura. É alguém que conseguiu interpretar e interligar a realidade em que vive com a sua dimensão cultural, na música, na literatura, no teatro, no cinema sempre como mesmo espírito de dar cultura para que não haja cidadãos desinformados, para que todos possuam a mínima compreensão do que é o mundo em que estamos inseridos.

Persistimos em honrar os nossos, e o Luís será sempre um dos nossos. Somos uma escola com tempo para ter o tamanho do nosso sonho, sempre inspirados no lema camoniano ‘pera espertar engenhos curiosos’.

João Jaime Pires

Diretor da Escola Secundária de Camões

12/08/2020

Um comentário sobre “Luís Ribeiro (1955-2020) – um académico ativista

  1. Foi uma honra para a comissão organizadora do LPC poder contar com a participação do prof. Luis Ribeiro no 2º Fórum, realizado a 9 de novembro de 2019 no LIceu Camões. Sentimos muito a sua morte inesperada…

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