50 anos de convergências

Não foi preciso esperar muito. Mal a direita clássica (PSD e CDS) precisou dos votos da extrema-direita para retomar o poder, aceitou imediatamente
negociar com esta e, pudicamente sem a incorporar no governo
(hoje o regional dos Açores, no futuro o da República), assumiu no seu programa aspetos tão simbólicos quanto a restrição radical de
direitos sociais (reduzir para metade os beneficiários de RSI na região onde mais pessoas dele necessitam) e a revisão da Constituição! Apesar da contestação que alguma (se virmos bem, muito pouca) direita abriu contra a direção do PSD, não há novidade alguma nesta aliança. Desde que a Democracia-Cristã italiana fez eleger em 1971 um candidato presidencial, pela primeira vez desde 1945 com os votos dos neofascistas do MSI, e desde que as direitas escandinavas passaram a incluir na sua estratégia para expulsar a social-democracia do poder partidos da extrema-direita organizados em torno do mesmo ultraliberalismo económico do Chega, as direitas clássicas da Europa ocidental têm 50 anos de convergência com a extrema-direita — exatamente a mesma convergência que levou os fascismos ao poder nos anos 20 e 30.
A partir dos anos 90, a normalização da extrema-direita, por mais racista e
desbocada que ela fosse, avançou decisivamente em Itália (todos os governos que Berlusconi formou desde 1994 integraram neofascistas, pósfascistas e os racistas da Liga) e na Áustria (coligações de democratas cristãos com a extrema-direita desde 2000), e rapidamente se estendeu pela Europa centro-oriental (ao ponto de caracterizar estruturalmente uma cultura política específica da região que reproduz o quadro que existia no período de entre guerras), a Escandinávia e o resto da Europa ocidental; desde 2002 que quase não houve governo de direita na Holanda que não
integrasse a extrema-direita ou se baseasse num acordo parlamentar com ela.
Alemanha, França e Grã-Bretanha parecem ser as últimas exceções. O mesmo se dizia de Portugal e Espanha, e foi o que se viu. A regra, portanto, passou a ser a da cooptação das extremas-direitas pelas direitas liberal-conservadoras. Estas continuavam a dirigir os governos, assegurando que esta era a melhor forma de domar a extrema-direita. O resultado foi, isso
sim, a radicalização das direitas clássicas: convergência estratégica (construindo maiorias políticas) e convergência em muitas das batalhas culturais. Querem melhor exemplo que Cavaco Silva, o cardeal-patriarca e Passos Coelho assinarem um manifesto contra as aulas de Educação
para a Cidadania que replica em Portugal as campanhas de Bolsonaro? A banalização da retórica confrontacional de tipo fascista acabou inevitavelmente por contaminar a linguagem do resto das direitas; a convergência em questões sociais e educativas e na discriminação das minorias étnicas fizeram o resto. Em 2000, George W. Bush foi eleito com uma plataforma política que já incorporava as grandes batalhas da
extrema-direita religiosa (ilegalização do aborto, proibição do casamento
homossexual, confessionalismo anticientífico), e foi tudo menos coincidência ser ele a levar à prática o Choque de civilizações previsto (aliás: desejado) por Huntington, abrindo guerras intermináveis
no Afeganistão e no Iraque e criando um clima generalizado de racialização das relações internacionais e de normalização do discurso xenófobo.
À extrema-direita só faltava o controlo direto do poder executivo. Foi o que
aconteceu em 2005 com o primeiro Governo Kaczy ski na Polónia. Orbán, que governara como liberal em 2005-07, passou a pautar a nova geração de governos da extrema-direita do nosso século. Desde 2010 mudou a paisagem político-constitucional da Hungria, conduzindo uma transição autoritária que agora dificilmente poderá ser revertida por via legal — e o país continua na UE. Por fim, a eleição de Trump (2016) e de Bolsonaro
(2018) revelaram bem a radicalização do conjunto das direitas. O acordo PSD-Chega reitera 50 anos de história das direitas: nem cordão sanitário, nem dique, nem coisa nenhuma impediu a convergência das direitas. Quem quiser defender a democracia precisa é de preparar-se para as consequências que esta pode ter no contexto social mais depressivo dos últimos 75 anos, feito de nova pobreza, medo, ansiedade e
securitarismo.

Manuel Loff, O Público, 17 de Novembro de 2020.

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