Uma transição como nenhuma outra

“Quem precisa de um telefonema do seu adversário quando o Papa está em linha?” O título é do The Washington Post, para resumir os primeiros contactos internacionais do Presidente eleito, enquanto o Presidente ainda em funções até ao dia 20 de Janeiro se recusa a aceitar a derrota. É uma boa pergunta, que serve apenas para provar que o espectáculo que Donald Trump está a oferecer aos americanos e ao mundo desde a noite das eleições, por mais degradante que seja, vai acabar um dia. Os mecanismos da democracia norte-americana ainda são suficientemente fortes para evitar um qualquer “golpe” que impeça a tomada de posse de Joe Biden na data marcada.
Entretanto, convém não subestimar os efeitos negativos, incluindo alguns riscos, que o comportamento de Trump — e daqueles que, no Congresso, colaboram com a sua farsa — representa para a América e para o mundo. Por várias razões, a primeira das quais é o facto de estarmos a falar do país mais poderoso do mundo, detentor do maior arsenal nuclear do mundo (apenas equivalente ao que a Rússia herdou da União Soviética), que continua a ser o principal responsável pela segurança internacional. A palavra “transição” de poderes tem, portanto, um significado especial.
Restam dez semanas, muito pouco tempo e uma eternidade, para a passagem de testemunho. Até lá, mandaria a tradição que Joe Biden participasse nos briefings diários de segurança nacional e que a equipa que formou para gerir a transição em cada uma das agências e dos departamentos do Estado tenha acesso à informação de que necessita.
Nada disto ainda aconteceu.
A equipa de transição precisa de identificar as pessoas que vão preencher 4000 nomeações políticas na Administração, das quais 1200 têm de ser confirmadas pelo Senado. Fazer isto com a obstrução deliberada do Presidente torna-se muito difícil, ainda que não impossível.
Biden tem a vantagem inestimável de 47 anos de trabalho em Washington, incluindo oito na Casa Branca, o que lhe dá um conhecimento profundo dos mecanismos do poder. Conhece toda a gente que é preciso conhecer. Está a ser recebido com toda a disponibilidade e satisfação pelos líderes dos países aliados e por aqueles que, sendo adversários, já perceberam que é com ele que vão ter de lidar. A China acaba de reconhecer a sua eleição, não sem que antes tenha aproveitado a confusão instalada por Trump para desferir mais um golpe brutal na autonomia de Hong Kong. Putin, o grande amigo do actual Presidente, continua a fazer contas à vida, provavelmente lamentando não ter podido “ajudá-lo” desta vez, como o “ajudou” em 2016. Estas eleições foram as mais seguras de sempre, segundo os responsáveis máximos pela garantia da sua segurança.
De resto, é ao nível internacional que se sentem mais rapidamente os efeitos da eleição de Joe Biden. E é também aí que o Presidente eleito pode ir dando sinais importantes. Já devolveu os telefonemas de felicitações dos líderes das maiores democracias. Felicitou pessoalmente Angela Merkel pela sua “liderança” internacional. Falou com Emmanuel Macron sobre o combate ao terrorismo e às alterações climáticas. Terá feito saber a Boris Johnson como gostaria de ver o Reino Unido próximo da União Europeia. Deu garantias ao primeiro-ministro japonês de que os EUA continuam tão empenhados como sempre na sua defesa, incluindo contra as incursões
e provocações frequentes da China nas ilhas de Senkaku. Contactou os amigos da Ásia Oriental para lhes renovar as garantias de cooperação e de segurança.

Há, todavia, um sector em que as coisas são mais complicadas e mais perigosas: a segurança nacional. A primeira e até agora mais polémica decisão de Trump foi ter despedido, via Twitter, o secretário da Defesa Mark Esper e outros altos cargos civis do Pentágono, menos de uma semana depois das eleições, apanhando a hierarquia militar completamente de surpresa. Deu sinais de que tenciona fazer o mesmo aos serviços secretos, a começar pela Agência Nacional de Segurança e a acabar, provavelmente, na CIA e no FBI.
Substituiu Esper pelo director do Centro Nacional de Contraterrorismo, Chris Miller, que nomeou muito recentemente. Anthony Tata, o novo chefe do departamento político do Pentágono, é um brigadeiro na reserva, actual comentador da Fox News, que disse de Obama que era um “líder terrorista” e cuja nomeação tinha sido vetada no Senado por excesso de islamofobia, entre outras coisas. É apenas um exemplo.
Os democratas no Congresso protestaram imediatamente, avisando que Trump estava a entrar por caminhos nunca antes percorridos em qualquer transição de poderes entre Presidentes. Os analistas admitem os riscos, mas tendem a justificá-los como um mero acto de vingança. Mark Esper demarcou-se do Presidente quando Trump quis utilizar o Exército contra os protestos do movimento Black Lives Matter em Junho passado, ao abrigo do Insurrection Act.
Robert Gates, que foi secretário da Defesa de George W. Bush e Barack Obama, classificou como “altamente imprudente” a demissão da liderança do Pentágono durante um período de transição pós-eleitoral. Um tempo em que “os adversários podem tirar partido de qualquer sinal de fraqueza ou de desorientação da América”, cita o The Observer. Há alguma especulação sobre a vontade de Trump de fazer regressar as tropas que ainda estão no
Afeganistão e no Iraque antes do final do mandato — 4500 e 3000, respectivamente. Ninguém parece acreditar, no entanto, que o Presidente possa recorrer aos militares para se manter no poder, nem que os militares
alguma vez aceitassem participar em qualquer coisa semelhante a um golpe. Não é essa a tradição americana, embora Trump continue a ser o comandante-chefe das Forças Armadas. Seja como for, há um sentimento de que brinca com o fogo num domínio até agora praticamente sagrado.

Nem sempre as transições foram perfeitas. “Algumas correram particularmente bem, mesmo quando a transição se fez entre partidos diferentes”, escrevem Ivo Daalder e James Lindsay na Foreign Affairs. O primeiro foi embaixador dos EUA na NATO. “No dia seguinte às eleições de 1992, o então Presidente eleito Bill Clinton instou ‘os amigos e os inimigos
da América a reconhecer, tal como eu reconheço, que a América tem apenas um Presidente de cada vez’. O Presidente cessante, George H. W. Bush, garantiu a aprovação de Clinton antes de assinar um acordo sobre armamento estratégico com a Rússia, algumas semanas depois”, lembram ainda. “A transição entre George W. Bush e Barack Obama foi ainda mais tranquila”, dizem os dois autores.
Onde está esta América?
Biden tem uma tarefa ciclópica pela frente para começar a reconstruí-la. Sem a garantia de um Senado cooperante, vai ter de escolher as figuras de topo da nova Administração com o cuidado suficiente para tornar extremamente difícil a sua rejeição por uma eventual maioria republicana. Elizabeth Warren e Bernie Sanders, as duas principais figuras da ala esquerda do Partido Democrata, já manifestaram o seu desejo de ficar com o Tesouro e o Trabalho, respectivamente.Biden ainda não deu qualquer sinal, mas o nome mais falado para o Tesouro tem sido, até agora, o de Lael Brainard, membro da Comissão de Governadores da Reserva Federal, mais representativa do establishment. Outra mulher, Michèle Flournoy, antiga subsecretária da Defesa, é referida como possível chefe do Pentágono, embora incomode particularmente a ala esquerda, que a acusa de ser da linha dos “falcões”. Outra mulher ainda, Michelle Lujan Grisham, governadora do Novo México, é o nome mais falado para a Saúde e os Serviços Humanitários. A senadora Amy Klobuchar, que participou na corrida das “primárias” e que vem da mesma área ideológica de Biden, pode substituir William Barr como procuradora-geral.
Saber-se-á em breve quem serão os escolhidos, mas uma coisa é certa: Biden quer gente com grande experiência governativa que saiba imediatamente o que tem a fazer.
Até agora, o Presidente eleito tem conseguido uma coisa fundamental:
transmitir tranquilidade no meio da tempestade provocada pelo seu antecessor e garantir ao mundo que é ele que passará a estar no comando.

Teresa de Sousa, O Público, 15 de Novembro de 2020

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