As eleições numa democracia doente

Manuel de Carvalho, O Público, 5 de Novembro de 2020

A democracia na América está doente e, sabia-se, o remédio
convencional das eleições jamais seria suficiente para a recuperar.
Num corpo político e social com fracturas intransponíveis, sem espaço
de diálogo e de compromisso, a braços com uma crise crescente de confiança nas instituições, com uma parte da população fixada na ideia de que a democracia é apenas um artifício dos políticos para lhe roubar o direito à cidade, é difícil afirmar valores morais, princípios republicanos, ideias de soberania ou de legitimidade baseadas na vontade popular. A América elegeu Donald Trump com a sensação difusa de que a democracia liberal se tornara uma farsa e voltou a entregar-lhe mais de 67 milhões de votos por acreditarque essa farsa continua. Uma vitória de Joe Biden permite acreditar numa convalescença longa e penosa; a reeleição de Trump confirmará talvez a sua agonia.
Se os americanos elegeram em 2016 um fanfarrão demagogo e impreparado, era possível suspeitar que o fizeram por desconforto, por
raiva ou, simplesmente, por protesto contra a sua adversária. Mas se tantos
americanos insistiram em Trump em 2020, depois de anos de erros, de
mentiras, de logros, de falsas promessas, de perturbações e
ameaças, de cumplicidade com a guerra racial ou cultural, de falta de
transparência em questões cruciais como os impostos, é porque a
democracia se tornou uma moeda de escasso valor facial. Não é a velha
clivagem saudável entre esquerda e direita, entre progressismo e
conservadorismo que está em causa: é a oposição entre a decência e a falta de escrúpulo. Se a democracia hesita nesta escolha, é porque se tornou uma
banal formalidade. A responsabilidade do problema não é, como tantos dizem, da imprensa liberal, que fez o seu dever de expor mentiras, o nepotismo ou a crendice no combate à pandemia.
Nem das divergências de um país de extremos, apesar das feridas abertas
do racismo. Na procura de uma resposta para a doença da
democracia, o efeito Trump pode então ter uma utilidade — a de
demonstrar que não há democracia na desigualdade extrema. Quando as
classes trabalhadoras dos subúrbios empobrecem, quando 1% dos
americanos controla 40% da riqueza nacional, a tolerância acaba, a revolta
cresce e a democracia degrada-se.
É neste pântano social e político que nascem fenómenos como o de Trump.
Ele, está provado, não tem soluções para o problema (até o agrava via
política fiscal). Mas, ao continuar a ser capaz de captar a indignação e o
descontentamento, prova que as democracias adoecem, quando deixam
de se preocupar com as pessoas. Mesmo que perca, a força de Trump
está aí como um aviso. Deixou de ser possível vê-lo como um acidente.

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