O triunfo da irracionalidade

Antigamente, os malucos ficavam a falar sozinhos, hoje, abrem os telejornais. A extrema-direita agradece a atenção que damos aos seus malucos, sejam juizes, médicos, historiadores, candidatos autárquicos ou simples anónimos. Por ocuparem cada vez mais o nosso tempo, não significa que haja cada vez mais malucos, significa “apenas” (com muitas aspas) que o politicamente correcto alargou até ao infinito o conceito de liberdade de expressão e os malucos sairam das catacumbas.

Cá estamos todos, a contribuir para o triunfo da irracionalidade. Tão preocupante como a tranquilidade com que a comunicação social dá cada vez mais tempo de antena aos malucos é a desistência da justiça e das forças de segurança de fazer cumprir a lei. Deixou de haver limites e, assim, a irracionalidade vai em crescendo até ao dia em que as coisas correrem verdadeiramente mal e a desgraça não tiver culpados porque, está-se bem a ver, os malucos são inimputáveis.

Esta campanha das autárquicas, juntamente com a campanha dos negacionistas, vem comprovar que a extrema-direita, no recrutamento dos seus soldados e oficiais, privilegia a irracionalidade e a mentira. Perante candidatos que não conseguem articular uma simples frase no debate com os adversários ou os que deliram com “indianos vingativos”, já ninguém pode alegar que é preciso dar uma oportunidade a quem pensa diferente. Quer dizer, poder, pode, mas há um momento a partir do qual se tem de começar a falar em cumplicidade.

O líder do Chega anda nesta campanha a lançar ultimatos e ameaças ao PSD de Rui Rio. Não se sabe se o PSD vai manter o líder ou se vai trocá-lo mas, em qualquer circunstância, a resposta dos sociais-democratas a André Ventura tem de ter o equivalente em decibéis ao barulho de uma porta a bater com toda força. Para acabar de vez com o ruído causado pela admissão de uma aliança futura no assalto ao poder. Não será fácil, para quem apostou na candidata Suzana Garcia na Amadora, sendo que fica a ser necessário que esta candidatura não tenha sucesso, para que o partido possa corrigir a trajectória e regressar à social-democracia.

Aqui chegados, só faltava mesmo um manifesto pela liberdade de expressão, assinado por pessoas que têm grande espaço de comentário na comunicação social. Podia ser para se pôr cobro aos abusos da liberdade de expressão, contra a mentira e a difamação que correm soltas, muitas vezes com culpa da comunicação social que as amplia, mas não, é sobre a liberdade de expressão que dizem “não está em causa, mas pode vir a estar”. Como se o texto que os levou até este manifesto, publicado e despublicado pelo jornal Público, não pudesse ser republicado noutra plataforma qualquer. Como foi. E como se fosse censura a direcção editorial, fazendo uso de um exclusivo legal, determinar que opinião ali se publica ou não publica, ou até se retira depois de publicado.

Já não dá para perder tempo a fazer de conta que a liberdade de expressão está ameaçada porque estão a calar as pessoas que têm ideias diferentes, a liberdade de expressão começa a ficar ameaçada porque a seu pretexto passou a ser possível difamar e ameaçar. É com isto que nos devemos preocupar, deixando em paz os moinhos de vento. Um erro de análise, que possa ter existido nas decisões da direcção do Público, em relação ao texto de Pedro Girão, vale muito pouco quando somos confrontados diariamente com o aumento exponencial de visibilidade que os malucos estão a ter no nosso país.

Paulo Baldaia, Diário de Notícias, 20 de Setembro de 2021

Paulo Freire, educador do mundo

No dia19 de Setembro, ele completaria 100 anos. Na verdade, outros cem anos vão passar e não passará a lembrança da sua obra em todas as gentes. Nascido no Recife em 19 de Setembro de 1921, Paulo Freire superou a contradição de ser recifense e cidadão do mundo inteiro ao mesmo tempo. Muito além de Pernambuco, ele se tornou um homem sem fronteiras por força do trabalho como filósofo e educador revolucionário.

Paulo Freire sofre um segundo exílio post-mortem neste governo Bolsonaro
Perdoem por favor o tom de discurso à beira do túmulo. Desculpem a exaltação, que até parece exagero. Mas é que Paulo Freire sofre um segundo exílio post-mortem neste governo Bolsonaro. De Patrono da Educação Brasileira ele passou a ser perseguido de novo, proibido mais uma vez, um palavrão da ditadura novamente, apesar de ser o brasileiro mais vezes laureado com títulos de doutor honoris causa na maioria das universidades do mundo. Ou será por isso mesmo, por essa razão que ele sofre, num governo fascista que odeia os educadores e a educação?

Vale a pena lembrar uma brevíssima história da sua prisão em 1964, no quartel do exército em Olinda. Ali, um dos oficiais responsáveis pelo quartel de Obuses, sabendo que ele era professor famoso, solicitou a Paulo Freire que alfabetizasse alguns recrutas que não sabiam assinar nem o nome. Com paciência, Paulo explicou ao militar que estava preso exatamente por causa disso. “Eu estou preso porque alfabetizo, viu?”.

algumas vezes Paulo Freire é destacado até por motivos errados. Quem o lê e estuda, não pode fugir da marca da própria ideologia
Na admiração que desperta no exterior, algumas vezes Paulo Freire é destacado até por motivos errados. Quem o lê e estuda, não pode fugir da marca da própria ideologia. Segundo Eeva Anttila, professora da Universidade de Artes de Helsinquia, na Finlândia, ” suas ideias têm sido usadas para fins políticos – o que, em meu entendimento, nunca foi seu propósito inicial”. E no entanto, sabemos que era indissolúvel no trabalho do educador a política de libertação e a pedagogia. Se não, vejamos.

Paulo Freire – Reprodução, publicada por Vermelho
Em “Educação como prática da liberdade”, escrito do Chile em 1965:

“Na experiência realizada no Estado do Rio Grande do Norte, chamavam de ‘palavra de pensamento’, as que eram termos e de ‘palavras mortas’, as que não o eram. Num dos Círculos de Cultura da experiência de Angicos, no quinto dia de debate, em que apenas se fixavam fonemas simples, um dos participantes foi ao quadro-negro para escrever, disse ele, uma ‘palavra de pensamento’. E redigiu: ‘o povo vai resouver os poblemas do Brasil votando conciente’…

Quando um ex-analfabeto de Angicos, discursando diante do Presidente Goulart, que sempre nos apoiou com entusiasmo, e de sua comitiva, declarou que já não era massa, mas povo, disse mais do que uma frase: afirmou-se conscientemente numa opção. Escolheu a participação decisória, que só o povo tem, e renunciou à demissão emocional das massas. Politizou-se”.

Em Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire aprofunda o pensamento de como vê a educação: “Nenhuma pedagogia realmente libertadora pode ficar distante dos oprimidos”
Em Pedagogia do Oprimido, escrito em 1968, o terceiro livro mais citado na área de humanidades em todo o mundo, Paulo Freire aprofunda o pensamento de como vê a educação:

“Nenhuma pedagogia realmente libertadora pode ficar distante dos oprimidos, quer dizer, pode fazer deles seres desditados, objetos de um ‘tratamento’ humanitarista, para tentar, através de exemplos retirados de entre os opressores, modelos para a sua ‘promoção’. Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção. A pedagogia do oprimido, que busca a restauração da intersubjetividade, se apresenta como pedagogia do Homem…

Se, porém, a prática desta educação implica no poder político e se os oprimidos não o têm, como então realizar a pedagogia do oprimido antes da revolução? Esta é, sem duvida, uma indagação da mais alta importância”.

Pintura de Paulo Freire feita por Luiz Carlos Cappellano, publicada por Vermelho

Pintura de Paulo Freire feita por Luiz Carlos Cappellano, publicada por Vermelho
Em outros pontos da Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire fala melhor do seu diálogo com o marxismo, na sua prática educativa:

“A tão conhecida afirmação de Lenine: ‘Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário’ significa precisamente que não há revolução com verbalismo, nem tampouco com ateísmo, mas com práxis, portanto, com reflexão e ação incidindo sobre as estruturas a serem transformadas…

De uma pedagogia problematizante e não de uma ‘pedagogia’ dos ‘depósitos’, ‘bancária’. Por isto é que o caminho da revolução é o da abertura às massas populares, não o do fechamento a elas. É o da convivência com elas, não o da desconfiança delas. E, quanto mais a revolução exija a sua teoria, como salienta Lenine, mais sua liderança tem de estar com as massas, para que possa estar contra o poder opressor”

a sua pedagogia também era política, de um educador de esquerda. Mas não de um marxista ortodoxo
As citações acima vêm como esclarecimento de que a sua pedagogia também era política, de um educador de esquerda. Mas não de um marxista ortodoxo, ou de um marxista organizado, pode ser dito. Ele possuía diferenças com o sectarismo do partido no Recife dos anos 60. Mas sempre guardava um diálogo fraterno, de futuro camarada, também pode ser dito. Na leitura de suas obras, percebemos uma cultura ampla, filosófica, que se nutre dos clássicos marxistas e dos não-marxistas como Bergson, que vai das fontes de educadores nacionais e estrangeiros. Os conceitos que Paulo Freire descobre são de um pesquisador e pensador. Não sei em que ordem, se primeiro vêm da pesquisa nas ruas, no campo, ou do pensar. É da sua formação o trabalho no meio do povo e a reflexão sobre esse trabalho no gabinete. Ou de modo mais claro, no que ele chama com muita razão de práxis:

“A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Sem ela, é impossível a superação da contradição opressor-oprimidos.

Neste sentido, em si mesma, esta realidade é funcionalmente domesticadora. Libertar-se de sua força exige, indiscutivelmente, a emersão dela, a volta sobre ela. Por isto é que, só através da práxis autêntica, que não sendo ‘blablablá’, nem ativismo, mas ação e reflexão, é possível fazê-lo”.

Estátua de Paulo Freire em Recife I Foto: Reprodução/CNTE, publicada por Vermelho
Práxis viva, que não foi um objetivo retórico, mas viva em obra. Ou como ele fala em outra frase do livro Pedagogia do Oprimido, que denuncia o núcleo do seu ser: “só na plenitude deste ato de amar, na sua existenciação, na sua práxis, se constitui a solidariedade verdadeira”. E aqui chegamos a um ponto crucial da pessoa de Paulo Freire: ele era um homem profundamente amoroso, de um certo tipo de amor, de um afeto fino, daqueles que beijam as pessoas, os animais e as flores da sua infância e juventude no Recife. De modo lindo essa práxis amorosa vem clara em um poema.

Quem me avisou desta bela poesia foi Peter Lownds, o escritor e poeta norte-americano mais brasileiro que existe, ele próprio um estudioso da obra de Paulo Freire. Não sei se cito um trecho ou todo o poema. Mas quem sou eu para editar a poesia de Paulo Freire? Então que siga inteiro este cântico de amor ao povo, que o nosso maior educador escreveu no exílio, sob a mais funda saudade:

“RECIFE SEMPRE

Cidade bonita

Cidade discreta

Difícil cidade

Cidade mulher.

Nunca te dás de uma vez.

Só aos pouquinhos te entregas

Hoje um olhar.

Amanhã um sorriso.

Cidade manhosa.

Cidade mulher.

Podias chamar-te Maria

Maria da Graça

Maria da Penha

Maria Betânia

Maria Dolores.

De Santiago te escrevo, Recife,

Para falar de ti a ti,

Para dizer-te que te quero

Profundamente, que te quero.

Cinco anos faz que te deixei –

Manhã cedo – tinha medo de olhar-te,

Tinha medo de ferir-te

Tinha medo de magoar-te.

Manhã cedo – palavras não dizia.

Como dizer palavra se partia?

Tinha medo de ouvir-me,

Tinha medo de olhar-me, Tinha medo de ferir-me,

Manhã cedo – as ruas atravessando

O aeroporto se aproximando,

O momento exato chegando,

Mil lembranças de ti me tomando

No meu silêncio necessário.

De Santiago te escrevo,

Para falar de ti a ti,

Para dizer-te de minha saudade, Recife,

Saudade mansa – paciente saudade,

Saudade bem-comportada.

Recife, sempre Recife, de ruas de

nomes tão doces,

Rua da União, que Manuel

Bandeira tinha “medo que

se chamasse rua Fulano

de tal” e que hoje eu temo

que venha a se chamar

Rua Coronel Fulano de Tal.

Rua das creoulas

Rua da aurora

Rua da amizade

Rua dos Sete Pecados.

Recife sempre.

Teus homens do povo

queimados do sol

gritando nas ruas, ritmadamente:

Chora menino pra comprar pitomba!

Eu tenho lã de barriguda pra “trabiceiro”!

Doce de banana e goiaba!

Faz tanto tempo!

Para nós, meninos da mesma rua,

aquele homem que andava apressado

quase correndo – gritando, gritando:

Doce e banana e goiaba!

Aquele homem era um brinquedo também.

Doce de banana e goiaba!

Em cada esquina, um de nós dizia:

Quero banana, doce de banana!

Sorrindo já com a resposta que viria.

Sem parar,

sem olhar para trás,

sem olhar para o lado,

apressado, quase correndo,

o homem-brinquedo assim respondia:

“Só tenho goiaba

– Grito banana porque é meu hábito”.

Doce de banana e goiaba!

Doce de banana e goiaba!

Continuava gritando,

andando apressado,

sem olhar para trás,

sem olhar para o lado,

o nosso homem-brinquedo.

Foi preciso que o tempo passasse,

que muitas chuvas chovessem,

que muito sol se pusesse,

que muitas marés subissem e baixassem,

que muitos meninos nascessem,

que muitos homens morressem,

que muitas madrugadas viessem,

que muitas árvores florescessem,

que muitas Marias amassem,

que muito campo secasse,

que muita dor existisse,

que muitos olhos tristonhos eu visse,

para que entendesse

que aquele homem-brinquedo

era o irmão esmagado

era o irmão explorado

era o irmão ofendido

o irmão oprimido

proibido de ser.

Recife, onde tive fome

Onde tive dor

Sem saber por que

Onde hoje ainda

Milhares de Paulos

Sem saber por que

Têm a mesma fome

Têm a mesma dor,

Raiva de ti não posso ter.

No ventre ainda, ajudando a mãe

a pedir esmolas

a receber migalhas.

Pior ainda:

a receber descaso de olhares frios.

Recife, raiva de ti não posso ter.

Recife onde um dia tarde

No ventre ainda, ajudando a mãe

a pedir esmolas

a receber migalhas

Pior ainda:

a receber descaso de olhares frios.

Recife, raiva de ti não posso ter.

Recife, cidade minha,

Já homem feito

Teus cárceres experimentei.

Neles, fui objeto

Fui coisa

Fui estranheza. Quarta feira. 4 horas da tarde.

O portão de ferro se abria.

Hoje é dia de visita.

Sem fila.

O relógio de minha casa também dizia

Um, dois, três, quatro,

Quatro, três, dois, um,

Mas sua cantiga era diferente.

Assim, cantando,

O tempo dos homens

Apenas marcava.

Recife, cidade minha,

Em ti vivi infância triste

Adolescência amarga em ti vivi.

Não me entendem

Se não te entendem

Minha gulodice de amor

Minhas esperanças de lutar

Minha confiança nos homens

Tudo isto se forjou em ti

Na infância triste

Na adolescência amarga

O que penso

O que digo

O que escrevo

O que faço

Tudo está marcado por ti.

Sou ainda o menino

Que teve fome

Que teve dor

Sem saber porque

só uma diferença existe

entre o menino de ontem

e o menino de hoje,

que ainda sou:

Sei agora por que tive fome

Sei agora por que tive dor.

Recife, cidade minha.

Se alguém me ama

Que a ti me ame

Se alguém me quer

Que a ti te queira.

Se alguém me busca

Que em ti me encontre

Nas tuas noites

Nos teus dias

Nas tuas ruas

Nos teus rios

No teu mar

No teu sol

Na tua gente

No teu calor

Nos teus morros

Nos teus córregos

Na tua inquietação

No teu silêncio

Na amorosidade de quem lutou

E de quem luta.

De quem se expôs

E de quem se expõe

De quem morreu

E de quem pode morrer

Buscando apenas

Cada vez mais

Que menos meninos

Tenham fome e

Tenham dor

Sem saber por que

Por isto disse:

Não me entendem

Se não te entendem.

O que penso,

O que digo,

O que escrevo,

O que faço,

Tudo está marcado por ti.

Recife, cidade minha,

Te quero muito, te quero muito.

Santiago, fevereiro de 1969.

Paulo Freire”

Urariano Mota, Esquerda, 19 de Setembro de 2021

Negacionistas : O ataque a Ferro Rodrigues e nós

Foi simbolicamente em frente à Assembleia da República que o seu presidente, Eduardo Ferro Rodrigues e a mulher, Filomena Aguilar, se viram no sábado, enquanto almoçavam, atacados por uma turba que os insultou, caluniou e ameaçou, filmando-os e filmando-se a si mesma, com orgulho, a cometer os citados crimes. É, ainda simbolicamente, através desses vídeos, colocados nas redes como troféu, com o objetivo de humilhar e degradar as vítimas, que o episódio foi conhecido e chegou aos media.

De notar em primeiro lugar que, como em tantas situações semelhantes, a denúncia e o execrar do ocorrido recorrem à exibição e partilha dos vídeos, propagando-se as calúnias, as ameaças e a degradação a que as vítimas foram sujeitas, revitimizando-as. A incapacidade que tanto os media como a maioria dos que usam as redes sociais demonstram em perceber princípios básicos sobre direito à imagem e sobre os danos, quer para os objetos diretos quer para a comunidade, causados pela difusão deste tipo de crime não cessa de me espantar. Bastaria, afinal, pensar dois segundos isto: se fosse eu ou os meus pais ou avós naquela situação, gostaria que estes vídeos fossem partilhados, mesmo se para denunciar o que neles se vê?

Mas parece evidente que para os media a procura de audiências e cliques há muito eclipsou qualquer preocupação deontológica; quanto às pessoas em geral, procuram na sua maioria igualmente partilhas e relevo – querem lá perder tempo a pensar nas consequências e na ética (que é lá isso) ou em se o ato de partilhar, para criticar, uma tentativa de humilhação e desumanização participa na humilhação e desumanização. Vimo-lo com o nojento vídeo com Paulo Rangel, vemo-lo agora: milhares de partilhas com as alegadas melhores intenções a fazer alegremente o serviço aos criminosos.

Tanto é assim que todas as notícias que li sobre o ocorrido se limitam a descrever, sem qualquer questionamento. Questionar o quê? Desde logo, onde estava a polícia. Durante todo o tempo que durou o cerco ao restaurante não apareceu qualquer elemento policial para fazer cessar o ataque à segunda figura do Estado português – só no final, quando Ferro se dirige ao carro, é ajudado a avançar por um elemento da segurança pessoal e por um agente fardado. Isto, como já referido, à frente do parlamento, onde há sempre guarda policial, e quando estava anunciada uma manifestação/ação de protesto “contra o passaporte sanitário/certificado digital e pela liberdade”, convocada por aquele grupo e para aquele local, naquela tarde.

Na semana em que se soube que quer o atual presidente da República quer o ex-presidente Sampaio, o primeiro-ministro e vários embaixadores foram almoçar a um restaurante lisboeta onde trabalhavam dois suspeitos de pertencer ao Daesh, esta ocorrência com Ferro Rodrigues surge ainda mais incompreensível: que andam mesmo a fazer as forças de segurança? Não sabem já, depois dos insultos e empurrões ao responsável da task force da vacinação, a 15 de agosto, e dos vídeos criminosos, precisamente a caluniar e ameaçar Ferro, de um ainda magistrado judicial afeto ao grupelho, que se trata de gente que apela à violência e é violenta?

Já vimos manifestações em Lisboa com um tal dispositivo de segurança que há mais polícias que manifestantes; já vimos a PSP a carregar indiscriminadamente sobre pessoas e a bater em jornalistas identificados (em 2012, no Chiado), até a disparar balas de borracha (em janeiro de 2019, na chamada manif dos afrodescendentes); agora vemos, no local de uma manifestação convocada por um grupo que já deu provas de violência, absoluta ausência de fardas. Quer a PSP quer a tutela têm de explicar como isto foi possível – porém até à tarde desta segunda-feira, quando escrevo este texto, esta aparatosa falha de segurança não merecera ainda uma palavra das duas entidades.

Mas não é só à PSP e ao MAI que devemos exigir respostas, ou ao MP ação (ao fim da tarde de segunda este finalmente anunciou ter aberto um inquérito criminal). É a cada um de nós – os que estão chocados com o ocorrido, naturalmente. Que fazemos no nosso quotidiano para combater calúnias e discurso de ódio? Por exemplo, que fazemos quando vemos na net alguém a chamar a Ferro Rodrigues alguns dos mesmos nomes que aquela turba, comandada por uma mulher de megafone – Ana Desirat, que se gabou da façanha no seu Facebook – lhe gritou? Achamos, como me disseram no Twitter, que “são coisas diferentes”?

Suponho que será mesmo isso que muita gente acha – que ser apelidado de assassino, bandido ou pedófilo perante uma audiência potencial de milhões é menos grave que na rua (a lei tem opinião diferente: quanto maior a audiência, maior a punição). Só isso explica que por exemplo um utilizador do Twitter não anónimo como João Quadros, com quase 200 mil seguidores, tenha por várias vezes associado o presidente da Assembleia da República a abuso de menores, chamando a essa associação “piada”, sem suscitar grandes reações de repúdio e inclusive mantendo a deferência, simpatia e portanto validação e encorajamento de inúmeros que agora se manifestam muito chocados com o sucedido este sábado.

No mesmo ano em que vimos o discurso de ódio e a retórica caluniosa de Trump resultar na invasão do Capitólio, o ataque ao presidente do parlamento deve fazer-nos refletir sobre que papel queremos ter no combate contra a barbárie – que regras, afinal, queremos impor na nossa comunidade. No Twitter e Facebook como no resto da vida, porque é tudo vida. E porque, como tão bem escreveu no mesmíssimo Twitter a deputada social-democrata Margarida Balseiro Lopes, “em democracia, se atinge um, atinge todos.”

Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 14 de Setembro de 2021

Da rua do meio ao meio da rua

Amoral e a ética que inventámos dependem muito do exato lugar que cada um ocupa. Por vezes, até, falamos de ricos e pobres com as mesmas letrinhas, quando um mora na rua do meio e o outro no meio da rua. Vinte meses e 4,5 milhões de mortes depois do maior desafio global que enfrentámos, a pandemia, a resposta à crise revela que aprendemos pouco: em vez de um mundo mais coeso e solidário, vemo-lo mais orientado por interesses nacionais e em que as desigualdades entre os países se acentuam e consolidam.

O debate agora aberto sobre a necessidade de uma terceira dose da vacina anticovid em países mais ricos representa não só um enorme fracasso moral para o Ocidente, mas também a confirmação de que não existe uma visão global para mitigar as desigualdades agravadas pela pandemia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), enquanto menos de 2% da população dos países mais pobres está protegida contra a doença, vários países entre os mais ricos preparam-se para destinar centenas de milhões de vacinas a uma terceira dose.

Israel e os Estados Unidos já anunciaram a terceira inoculação para os seus adultos, enquanto França e Alemanha se preparam para fazer o mesmo, para “os mais vulneráveis e os acima de 65 anos”. Nestes casos, não se trata apenas da falta de uma visão ética do mundo, por ausência de solidariedade, já que ninguém deveria morrer de um vírus que pode ser erradicado pela única razão de viver num país sem recursos para produzir ou comprar vacinas. Mais do que egoísta, o que esta intenção revela é também uma visão autodestrutiva e de curto prazo do Ocidente, difícil de entender. Aliás, nem é preciso falar em igualdade para perceber o enorme risco que adviria de só os países ricos vacinarem os seus cidadãos – mesmo considerando a opção de uma terceira dose – quando o vírus pode continuar a alastrar pelos outros três quartos do planeta. Além de não parecer muito inteligente pretender reanimar as economias de uns, mantendo confinadas as populações de parceiros comerciais noutras partes do mundo que não têm o mesmo acesso à vacina.

O sistema Covax, participado pela OMS (e liderado pelo português José Manuel Durão Barroso), para garantir vacinas para pelo menos um quinto da população dos países participantes do programa, foi a chave encontrada pelos países ricos para apaziguar o mundo. Acontece que a iniciativa está longe de funcionar ao ritmo esperado. E agora, quando era possível antever um aumento de frascos disponíveis, a anunciada intenção de alguns de avançarem com a terceira dose ameaça reduzi-los. Dos 640 milhões de vacinas que o Covax já deveria ter recebido até hoje chegaram apenas 160 milhões.

O resultado, desolador, é um mundo transformado numa autêntica feira de vacinas. Nalguns casos, países que compraram várias vezes a quantidade de que precisavam acabam a revendê-las. A Polónia, por exemplo. Outros optaram por doá-las, como é o caso de Portugal em relação a alguns países da lusofonia. Ora, se o coronavírus nos ensinou alguma coisa, é que os desafios globais – e este, repito, é o maior que conhecemos – devem ser enfrentados numa perspetiva global, e que para superar a pandemia a ameaça da doença deve ser eliminada em todos os cantos do mundo. Fazer da vacina mais um indicador de desigualdade é, além de obsceno, a confirmação definitiva de que estamos bem longe de ter aprendido a distinguir entre a rua do meio e o meio da rua.

Afonso Camões, Diário de Notícias, 31 de Agosto de 2021

De napalm a Cabul

Robert Duvall ganhou um Oscar por escassos onze minutos como coronel dos fuzileiros navais americanos no histórico “Apocalypse Now” de Coppola. Seu personagem, em meio a um ataque de helicópteros em uma suposta aldeia do Vietnam, elogiava, aos berros, o cheiro do Napalm como estimulante quase sexual.

Ficção, óbvio. Mas, a fotografia de uma garota vietnamita nua, o corpo inteiramente queimado, correndo desamparada por uma estrada de barro, saiu em página dupla do semanário “Time” e correu mundo. Assim também como correu mundo a bárbara fotografia de um tiro à queima roupa dado por um chefe de policia sul-vietnamita na têmpora de um jovem vietcong, o sangue a espirrar como de melancia rompida a marteladas. A mesma “Time”, pela mesma época, publicou uma reportagem sobre uma rotineira missão de aviões bombardeiros – estado da arte bélica aeronáutica –

desovando centenas de bombas sobre o território norte-vietnamita. Segundo a reportagem, na cabine do avião militar os tripulantes ouviam a relaxante música “People”, interpretada por Ella Fitzgerald. Não era ficção.

De “Apocalypse Now” também nos ficou na memória a invocação dramática da voz de Marlon Brando: “the HORROR; the HORROR”.

Dos anos 60 até hoje, o horror ficcional se imiscuiu no horror cotidiano e nossa sensibilidade emocional passou a usar o escudo da cinematografia a nos poupar da brutalidade vista e pressentida. E assim fomos vivendo. Com a bala de fuzil a arrancar o cérebro de John Kennedy em Dallas, o tiro a abater Robert Kennedy em Los Angeles, Marthin Luther King em Memphis, até o sufocamento pelo joelho sádico de um supremacista branco no pescoço de George Floyd em plena era do “make America great again”, codinome da ficção xaroposa dirigida por Donald.

A violência invade nossos olhos e ouvidos em “surround sound”, a cores e nos é repetida a ponto de certas barbaridades passarem como aceitáveis ou como metáforas inocentes. Quando o presidente da nação afirma ser mais conveniente comprar um fuzil de guerra do que feijão, a frase soa como ironia fina numa feijoada da milícia militar. Perdemos o bom senso como quem perde uma ventarola num baile de carnaval dos anos 50. “Ó jardineira porque estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu…”

Se o presidente nos manda comprar fuzis para não sermos uma nação escrava, teremos nós um destino mais oculto, mais elíptico que uma pregação oracular de nosso ex-Chanceler Araújo – sempre louvado – em grego e tupi-guarani? Será ficção ou realidade o que se nos promete como favas contadas ou por fadas enfadadas? Estamos no Brasil a girar num horror ficcional? Ou estamos a falar que por aí vem um crime de lesa-Pátria a fazer de Calabar um personagem menor de nossa história de traições?

Tudo parece ficção, e até mesmo a morte de seiscentos mil brasileiros por incúria, má-gestão, desonestidade, canalhice, pouca vergonha, insensatez e sobretudo indiferença, já não nos parece real. Será preciso matar mais? Com quantos fuzis se fará um morticínio maior? Quantas famílias brasileiras ainda serão enlutadas?

Quer dizer que ser patriota hoje é apagar uma luz no apartamento? E quem não tem casa? Nem feijão? Nem sequer uma atiradeira para, qual David, atirar uma pedra nestes Golias de miolo mole? Seremos todos escravos não de Jó; mas de Judas? Nosso ministro já adverte como se não soubéssemos: a conta de luz vai aumentar. Quem diria? A inflação aumentou, a comida está caríssima e o ministro nos pede a paciência dos justos. Como se fôssemos todos idiotas do carrossel de Pangloss onde até os cavalinhos andam sempre em direção ao melhor dos mundos. O preço do fuzil aumentou. Sem contar a lente objetiva. A bala dundum. É preciso rever os artigos de primeira necessidade na cesta básica.

Cabul não é ficção. Atrás daquelas cenas dantescas a lembrar a retirada do Vietnam II, há toda uma realidade redigida por estrategistas militares como Goldwater, Cheney, Rumsfeld, e presidentes como Bush, pai e filho, Reagan, Nixon, Clinton e sobretudo Trump, o inefável herói dos sonhos inconfessados do Dr. Strangelove, hoje reencarnado na figura a assombrar as noites e os dias de um povo que nada fez para merecer tanta ignorância narcísica e patológica. Precisa-se de neurônios, não de bravatas e vômitos de insensibilidade pela vida alheia. Estadista não é ficção. E mandato presidencial não é o nome da pracinha do sanatório municipal.

Adhemar Bahadian, Jornal do Brasil, 29 de Agosto de 2021