As contrapartidas da ajuda militar

Numa entrevista ao Club of Mozambique este domingo, o ex-secretário da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral), Tomaz Salomão, aponta que Moçambique devia olhar para a região antes de estabelecer contactos para a intervenção militar estrangeira na província de Cabo Delgado.
Na opinião de Tomaz Salomão, como cidadão moçambicano, o apoio das tropas estrangeiras deviar ser direcionado para “logística e treino” apenas. “Deem o apoio nos termos que foram pedidos pelo governo de Moçambique”, salientou.

O economista aponta para situações semelhantes para justificar a sua opinião. “As experiências pelo mundo mostram que quando tropas estrangeiras entram num determinado território nunca mais saem. Esta é a realidade. Ao procurar algum tipo de apoio, devia-se dar primazia à região (África Austral) antes de percorrer não sei quantas milhas para falar com Portugal ou com os Estados Unidos. Não há em qualquer parte do mundo uma intervenção militar estrangeira que seja feita sem contrapartidas. O país tem de ter a capacidade de avaliar e estar consciente das prioridades nacionais”, explicou.

O ex-secretário da SADC relembra um episódio em território nacional, onde a presença de tropas estrangeiras não foi bem-vinda pela população. “Em Moçambique já tivemos tropas estrangeiras. Recordo-me do então Presidente da República, Joaquim Chissano, que teve de ir a uma reunião na Zambézia com a população. O que o povo queria era a retirada das tropas estrangeiras. Portanto, cabe a este país chamado Moçambique, ser ele próprio a construir a sua defesa e a defender-se ”, disse.

Palma
Tomaz Salomão reforça a ideia de que se deve evitar o envolvimento de tropas estrangeiras na luta contra os insurgentes dando o exemplo de Palma. “Em Palma não aconteceu o pior cenário. Os insurgentes não fizeram mais porque desta vez encontraram uma resposta forte das forças armadas de Moçambique. Pela primeira vez numa operação deste tipo, houve intervenção da força aérea moçambicana, com pilotos moçambicanos que repeliram os insurgentes. Isto mostra que se existir um investimento adequado na preparação das tropas, com equipamento e treino, estamos mais perto de mitigar o problema. As forças armadas são muitas vezes criticadas pela população mas mostraram a sua bravura na operação”, referiu.

O ex-secretário executivo da SADC disse ainda ser estranho que o atentado perpetrado pelos terroristas em Palma, a 24 de Março, tenha ocorrido pouco depois de a petrolífera Total anunciar o recomeço das atividades, tendo sido assgurado que estavam reunidas as condições de segurança para prosseguir.

“O governo e a Total anunciam,‘ Vamos retomar o trabalho – as condições são criadas após um interregno ’. Dois dias depois ocorre um ataque, o que significa que este ataque já estava planeado e preparado, e os insurgentes estavam apenas à espera do momento certo para ‘apertar o gatilho’ ”, observou.

A violência armada em Cabo Delgado começou há mais de três anos, mas ganhou uma nova escalada em 24 de março, quando grupos armados atacaram pela primeira vez a vila de Palma, a cerca de seis quilómetros de grandes projetos de gás natural.

Os ataques provocaram dezenas de mortos e obrigaram à fuga de milhares de residentes de Palma, agravando uma crise humanitária que atinge cerca de 700 mil pessoas na província, desde o início do conflito, de acordo com dados das Nações Unidas, e com cerca de 2.500 óbitos desde o início do conflito, segundo contas feitas pela Lusa.

Plataformamedia/14 de Abril de 2021

Uma “variante tóxica de líderes”

A pandemia de covid-19 expôs o resultado de “décadas de decisões discriminatórias” que condicionaram o acesso à saúde em muitos pontos do globo, especialmente a mulheres, profissionais de saúde e minorias étnicas, conclui a Amnistia Internacional no seu Relatório Anual do Estado dos Direitos Humanos no mundo.

Se a pandemia marcou 2020, a grande vítima foi o direito à saúde, um “direito humano fundamental posto em causa em muitos países”, nota Pedro A. Neto, director executivo da Amnistia Internacional — Portugal.
A violação deste direito atingiu mais duramente aqueles que já sofriam discriminações ligadas “a outras violações de direitos humanos que não são novidade, mas se agravaram”. O responsável nacional pela organização não-governamental dá como exemplo os próprios profissionais de saúde, que “em Portugal e e muitos lugares não tiveram de início acesso a equipamentos de protecção individual”. E que em alguns países “chegaram a ser presos por denunciarem essa situação”.

O relatório documenta alegações de assédio ou intimidação a trabalhadores da área da saúde e a outros profissionais essenciais no contexto da pandemia em 42 países dos 149 analisados em 2020. A maioria destes trabalhadores são mulheres — representam 70% da força de trabalho global nos sectores da saúde e do apoio social — que, por isso mesmo, já recebem menos pelo seu trabalho.

“Grupos que têm salários muito baixos foram os que deram mais e receberam menos”, resume Pedro A. Neto, numa conversa onde vai repetindo a ideia da “multidiscriminação”, ou várias camadas de discriminação sofridas pela mesma pessoa.
Outros dos destaques do relatório é aquilo a que a ONG chama “uma variante de líderes políticos que é tóxica” e que aproveitou a pandemia para abusar dos direitos humanos e “alargar o seu poder”. Aqui o que não faltam são exemplos, do uso da pandemia como distracção para avançar com leis já planeadas aos abusos fragrantes de poder.

A “negação” de Bolsonaro

Um dos lugares onde a pandemia serviu para aprovar medidas pouco escrutinadas foi o Brasil, sublinha Pedro A. Neto, “com a legislação que permitiu que áreas protegidas na Amazónia fossem exploradas e quase não se falou nisso”.
O Brasil é, aliás, um dos países entre os piores exemplos em várias categorias da análise da Amnistia, uma lista de problemas que começa com a própria liderança de Jair Bolsonaro e a sua “negação” da crise. O relatório
cita o Brasil como um dos países onde “os governos emitiram mensagens de saúde contraditórias”, com a contradição a notar-se também “entre autoridades federais e estatais”, ao mesmo tempo que o Governo falhava em
levar à prática “políticas para proteger os que corriam mais riscos”, incluindo os povos indígenas brasileiros.

Para além de notar o número de ataques de membros do Governo federal a jornalistas e ao seu trabalho entre Janeiro de 2019 e Setembro de 2020 — o que aconteceu em 449 ocasiões —, a ONG também fala do Brasil no capítulo sobre o “uso excessivo da força”, com um aumento de 7% no número de pessoas mortas pela polícia na primeira metade do ano passado, um fenómeno que atinge a população negra em quase 80% dos casos.

A propósito de força excessiva e abuso do poder, Pedro A. Neto aponta para uma das situações descritas pela Amnistia, o exemplo especialmente “draconiano” das Filipinas, “onde [o Presidente Rodrigo] Duterte deu ordem à polícia para atirar a matar contra quem não cumprisse a quarentena, um crime enorme”.

Silenciamento da crítica


“Outros são exemplos de abusos de poder, como no caso da Hungria e da Turquia, que proibiram a crítica à resposta do Governo à pandemia”, diz o responsável pela Amnistia em Portugal. A Turquia chegou a deter jornalistas ao abrigo destas medidas, algo que o país liderado por Recep Tayyip Erdogan tem feito com regularidade nos últimos anos, enquanto a Hungria puniu quem “disseminasse notícias falsas, sendo que quem definia o que eram notícias falsas era o Governo húngaro, e isso expôs ONG e jornalistas”.

É impossível falar sobre silenciamento em relação à pandemia e não recordar a China, onde o novo coronavírus começou por ser identificado, um país que introduziu estas proibições desde o início, assim como “a perseguição a jornalistas e a médicos que alertavam para a pandemia”.

Se muitos líderes e os seus governos falharam, também não foi nesta crise que as instituições globais estiveram à altura dos desafios e ofereceram soluções aos que poderiam querer apostar no caminho da cooperação ou da solidariedade.

Segurança e nacionalismos


O relatório sublinha que “o interesse nacional superou sempre a cooperação internacional” e alerta para uma tendência perigosa: em vez de antecipar o fim desejável da agenda securitária imposta um pouco por todo o
lado a seguir ao 11 de Setembro, avisa que essa “agenda se arrisca a tornar-se permanente”.

Pedro A. Neto sublinha que é “uma agenda securitária e nacionalista, o que vai além dos ultranacionalismos e da extrema-direita”, tratando-se de uma tendência global“ de nacionalismo exacerbado nos próprios governos e no seu discurso, no marketing até”, que a pandemia deixou à vista. No caso europeu, o activista de direitos humanos fala mesmo de “nacionalismo extranacional”, com a União Europeia a ameaçar proibir as exportações de vacinas em algumas situações.
Quanto à extrema-direita, continua a avançar: “Esteve em silêncio no início da pandemia porque na altura de apresentar soluções não tem nada para dizer, mas, mais tarde, quando chegou o tempo da crítica e do fechamento, ganhou terreno”, defende.

Os exemplos individuais


Em tempos excepcionais esperam-se “respostas e lideranças excepcionais”, escreve a nova secretária-geral da Amnistia, Agnès Callamard, no prefácio ao relatório. Em 2020, essa liderança excepcional não veio do poder, aponta, mas dos médicos e dos trabalhadores essenciais, dos cientistas e dos técnicos. Mas também “daqueles que se ergueram contra a desigualdade, a violência policial que atinge desproporcionalmente os negros, as minorias, os pobres e os sem-abrigo”.
O texto de Callamard e o resto do relatório sublinham como o fracasso dos governos levou pessoas em todo o mundo a responderem com movimentos de protesto — conseguindo que a sua mensagem passasse fronteiras e alertasse para abusos, como aconteceu com os protestos na Nigéria contra uma força policial (#ENDSars) acusada de matar e torturar civis, ou com o movimento Black Lives Matter, que voltou a ganhar força nos Estados Unidos com a morte brutal de George Floyd.

O relatório faz notar que as vitórias de 2020 vieram de movimentos de protesto e aconteceram especialmente no combate à violência de género, como as novas leis de combate à violência contra mulheres e raparigas no Kuwait, na Coreia do Sul e no Sudão; países onde se registaram melhorias nas leis sobre violação e consentimento sexual, como na Croácia, Dinamarca, Holanda e Espanha; ou a descriminação do aborto na Argentina.

Pedro A. Neto diz que estes “avanços conseguidos porque as pessoas não ficaram em silêncio” reflectem uma “dinâmica que está a arrastar-se para 2021”. O investigador dá o exemplo da Birmânia, onde, em resposta ao golpe militar, e “apesar da gravidade do que está a acontecer, se vê uma resistência dos jovens e até das igrejas e das religiões que há uns anos anos não era possível”.

Sofia Lorena, Público, 7 de Abril de 2021

Perigo: Radicais e liberais à conquista do Parlamento

Se houvesse agora eleições legislativas antecipadas, o Chega e o Iniciativa Liberal poderiam aspirar a engrossar de forma substancial a sua presença na Assembleia da República.

Num tempo em que tanto se especula sobre a sobrevivência do Governo minoritário de António Costa (incluindo os avisos desta semana de Marcelo), há dois partidos à Direita que não enjeitariam a possibilidade de legislativas antecipadas: Chega e Iniciativa Liberal revelam, desde o arranque dos barómetros da Aximage para o JN, DN e TSF, uma trajetória de subida e prometem uma mudança significativa na distribuição de forças à Direita.

Quando se analisam os diferentes segmentos regionais (que não correspondem aos círculos eleitorais) é possível perceber que o tempo do deputado único ficaria para trás, em ambos os casos, se tivéssemos hoje eleições. No caso da Área Metropolitana de Lisboa (que inclui parte dos círculos de Lisboa e Setúbal), os 9,5% dos radicais liderados por André Ventura poderiam significar, no mínimo, quatro a cinco deputados. Para os liberais de João Cotrim de Figueiredo, o resultado na região da capital rondaria os 6,1% e porventura três a quatro deputados nos dois círculos.

Chega fraco no Porto

Tendo em conta os resultados na Área Metropolitana do Porto e na região Norte, é possível perceber que nos círculos do Porto e de Braga, Cotrim e Ventura poderiam aspirar a mais dois ou três deputados. O Chega revela mais dificuldades (2,6%) que o Iniciativa Liberal (7,1%) na região da Invicta (como tem sido a norma em quase todos os barómetros), mas é mais forte no resto da região Norte (10,1% para os radicais; 5,5% para os liberais).

Acresce que o partido de Ventura está melhor implantado no resto do país, em particular no Centro (11,1%), o que, sendo insuficiente para obter deputados em círculos como Viseu, Guarda, Castelo Branco ou Coimbra, é animador no caso dos círculos de Aveiro, Leiria ou Santarém, onde poderia eleger pelo menos um deputado por círculo.

Rafael Barbosa, Jornal de Notícias, 5 de Abril de 2021

O Brasil caminha sobre brasas

Há muito que deixou de valer a pena avaliar Bolsonaro pela sua incoerência, pela demagogia, pela propensão para a mentira ou pela defesa de doutrinas autoritárias. Hoje, é mais judicioso julgá-lo pela sua incompetência estrutural e pela irresponsabilidade moral.

Seis substituições de ministros na maior remodelação em décadas, demissão em bloco dos chefes dos três ramos das Forças Armadas na maior crise militar desde a ditadura, aumento da influência do “centrão0” da promiscuidade política que Jair Bolsonaro tanto prometeu combater, uma pandemia que provocou a morte de mais de 310 mil brasileiros, o sistema nacional de saúde à beira do colapso, ou tendo mesmo desabado em grandes cidades, centenas de empresários e personalidades da economia mobilizados no pedido de uma estratégia de combate à covid-19 baseada na ciência… Só um grande país conseguiria resistir à ruína provocada pelo desvario do Presidente, Jair Bolsonaro, como o Brasil está a resistir. E é exactamente neste ponto que, entre a perplexidade e a indignação, a grande incógnita se põe: até quando podem aguentar as instituições, a economia e a sociedade brasileira este Governo demencial?

Há muito que deixou de valer a pena avaliar Bolsonaro pela sua incoerência, pela demagogia, pela propensão para a mentira ou pela defesa de doutrinas autoritárias. Hoje, é mais judicioso julgá-lo pela sua incompetência estrutural e pela irresponsabilidade moral. O desprezo pela vida humana que patenteou ao longo da pandemia é apenas a parte de um puzzle em que coincidem a ausência de carácter e a falta de visão. A demissão do seu ministro de Defesa por este se recusar submeter a instituição militar ao serviço dos desmandos do Presidente é apenas um sinal de que ele se vê como um cacique e não como um chefe de Estado. A abertura das portas a líderes políticos condenados no processo Lava-Jacto, que lhe serviu para iludir os brasileiros com uma promessa de regeneração do regime, é outra prova de que conceitos básicos como a decência, a coerência ou a verticalidade não existem no seu vocabulário.

O Brasil aguenta tudo isto em nome de uma história recente traumática e à custa de um estoicismo notável. Depois do roubo organizado do domínio público na era Lula, do impeachment imaginoso e farsante de Dilma e da miséria ética de Michel Temer, o Brasil espera que a normalidade institucional impeça a infecção das feridas abertas por Bolsonaro. Nada garante que assim seja. O Brasil confiante e orgulhoso afunda-se no “complexo do viralata” que Nelson Rodrigues verbalizou há 70 anos. A miséria alastra. Os políticos corruptos ganham espaço. A pandemia não dá tréguas. A Justiça perdeu-se na troca da lei pelo manto facínora da missão redentora. E os militares, que têm revelado distância e responsabilidade institucional, enervam-se.

O Brasil caminha sobre as brasas que Bolsonaro trata de avivar a cada momento. Todos os que amam esse país maravilhoso têm razões para estarem preocupados.

Manuel de Carvalho, Público, 31 de Março de 2021

Manife pelo civismo

Acompanhei com a máxima atenção, e o maior distanciamento possível, a “Manifestação pela liberdade” através da televisão, e sobretudo na Internet (PORQUE, JÁ SE SABE, OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO CORRUPTOS ESTÃO COMPRADOS PELO ESTADO PARA NOS FAZEREM ACREDITAR QUE EXISTE UMA PANDEMIA, MALDITO TELELIXO). Desculpem, o meu computador foi atacado por um vírus negacionista, que escreve sempre em caps lock.

Contava eu que, enquanto via aquelas pessoas a descer a Avenida da Liberdade, clamando por liberdade, tentava perceber por que raio leva duas mil pessoas (MAIS! MUITAS MAIS! ÉRAMOS PARA CIMA DE QUATRO MIL! A DESFILAR TODOS MUITO JUNTINHOS, EMBORA VOS CHAMEMOS REBANHO A VOCÊS, OVELHAS QUE ACREDITAM NO QUE VOS DIZEM OS MÉDICOS E SEGUEM RECOMENDAÇÕES DA DGS!), o que é que levará uma multidão a juntar-se para reclamar por uma coisa que já tem? Aproveitar a liberdade que têm para estar na rua a sentir o vento na cara, para gritarem aos sete ventos que não têm liberdade é como ir para a Portugália exigir uma ementa com mais bifes. Perguntar onde anda a Constituição, esquecendo que é lá que está consagrado o direito de manifestação? Se, à primeira vista, me pareceu chocante ver aquela mole humana a fazer tudo o que nos é pedido há 12 meses que não façamos, perante a passividade dos agentes da PSP, depois percebi que aquela era de facto a melhor forma de desmascarar os sem máscara. Perante malta que propaga (além de coronavírus) uma teoria da conspiração que diz que os governos opressores de todo o Mundo (estranhamente orquestrados) nos querem controlar, inserindo chips nos nossos braços quando formos levar a vacina, enquanto nos subtraem gradualmente todos os direitos, nada melhor do que deixá-los falar à vontade. Intervenção policial a exigir que dispersassem (como se nos discursos não dispersassem já quanto baste) seria mais um trunfo, mais uma prova cabal de como são uma voz inconveniente que urge silenciar, para juntar a um documentário de origem duvidosa partilhado no Facebook.

Lá estiveram eles, a discursar à vontade, durante uma tarde inteira, no centro de Lisboa… E quem diz discursar diz cantar, dançar, recitar poemas, receitar medicamentos homeopáticos, cozinhar tofu num grelhador portátil, fazer reiki, alinhar os chakras, dar à luz na fonte do Rossio, com o apoio de uma doula, leiloar perdidos e achados do Festival Boom, cuspir fogo (afinal não era preciso ter levado o barbecue), tocar flauta de pan, lançar búzios… Foram menos incomodados do que o cidadão que, também esta semana, foi apanhado em flagrante, a comer gomas na via pública. Nós, que observamos tudo isto, também questionamos as decisões que são tomadas. Vacinar professores, faz sentido? AstraZeneca é segura? Vendas ao postigo porquê? Público no estádio? Restaurantes só em abril? Sim, também estamos fartos. Também adorávamos que isto acabasse amanhã. Mais, que nem tivesse começado e que não passasse tudo de um sonho, um pesadelo plantado nas nossas cabeças pelo Bill Gates, através de avançada tecnologia 5G. No fundo estas pessoas seguem o caminho mais fácil. Numa era em que se fala tanto – demais – em sair da zona de conforto, esta malta está em contraciclo, e foi enfiar-se no sítio mais confortável do Mundo: um buraco de areia quentinha, onde enfiaram a cabeça. Não é por acaso que, quando temos um problema grave, os nossos amigos muitas vezes nos abanam e lembram “estás em negação”. Ou porque achamos que o casamento não acabou de verdade e ainda vamos reatar, ou porque juramos que não estamos viciados e conseguimos parar, quando quisermos, de consumir álcool, drogas ou aquelas gomas ácidas que são tão boas mas já nos valeram problemas com a Polícia. Os negacionistas ficaram encarcerados nesta fase, para sempre, e recusam ajuda. Vivem num mundo cor-de-rosa, em que até têm o direito especial de fazer uma espécie de festival de verão antes do tempo, e mesmo assim queixam-se. Em casa estão as pessoas cujos negócios faliram, pais e mães no desemprego, milhares em lay- off, miúdos que não têm escola a sério há um ano. À espera. Todos. Uns mais pacientes que outros. É como se estivéssemos enfiados numa gigantesca loja do cidadão, à espera de vez… Ainda vai demorar e não temos lugar sentado, mas não desistimos. Nisto, entram os manifestantes pela repartição adentro, tocando os seus djembés e fumando cachimbos da paz, passam-nos à frente na fila e ainda reclamam se ousarmos interpelá-los. Ainda por cima íamos ser simpáticos, e convidá-los para se juntarem no próximo sábado ao nosso protesto: manifestação pelo civismo.

Joana Marques, Jornal de Notícias, 29 de Março de 2021

“Liberalismo” ou negacionismo? Estupidez

Um ano depois da declaração da pandemia do novo coronavírus, a humanidade parece naturalmente cansada e ansiosa para voltar àquilo a que chamávamos “normalidade” – e que, na verdade, foi em parte causadora dessa mesma pandemia.

Entretanto, o facto de quase ninguém, nesse afã de retorno à “normalidade”, mostrar qualquer inquietação relativamente ao esgotamento do modelo de desenvolvimento tecnofinanceiro que se tornou global nas últimas quatro décadas faz-me perder a esperança no nosso futuro comum, pelo que não vou discuti-lo. O que talvez nos reste a cada um de nós é tentarmos manter a nossa sanidade e integridade individual, pelo menos para podermos dormir tranquilamente todas as noites.

O que pretendo abordar neste artigo é algo mais visceral e, por isso, profundamente revelador da natureza humana: a estupidez. Não, Nietzsche não tinha razão: não somos super-homens nem deuses. Ignorantes e tantas vezes boçais, somos apenas arrogantes. Caminhamos alegremente, assim, para a nossa própria destruição, pois somos incapazes de prevê-lo.

Não devemos, por conseguinte, espantar-nos com as crescentes manifestações, um pouco por todo o mundo, de bandos de “combatentes” pretensamente “libertários” e “antiditadura”, por causa das medidas anticovid que a esmagadora maioria dos estados tem sido forçada a tomar para impedir a generalização da pandemia. A esses bravos seres vociferantes, autoproclamados “liberais”, juntam-se os negacionistas antivacina, com receio, quem sabe, de se converterem em jacarés, como preveniu o des-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

O que ambos reivindicam? O direito de escolher os riscos que querem correr. Nada mais liberal, não? Falso. Isso não tem absolutamente nada que ver com liberalismo.

Precisamos de reler os pais do liberalismo, para lembrar o que eles ensinaram: a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro. No caso da atual pandemia, os riscos relacionados com a covid-19, mais do que individuais, são comunitários, ou seja, cada um que desrespeitar as cautelas recomendadas pelas autoridades sanitárias, com base nas informações científicas disponíveis, estará a colocar igualmente em risco os demais membros da comunidade.

Na verdade, esse falso liberalismo não passa de negacionismo. Isso não seria problema se os seus defensores não interagissem com o resto da população, o que não é o caso. Assim, é preciso dizê-lo preto no branco, sem tibiezas: todos aqueles que se recusam a observar as regras sanitárias estabelecidas para enfrentar o novo coronavírus e que continuam a interagir com os restantes cidadãos são potenciais assassinos.

O espantoso é que não faltam, em todo o mundo, exemplos de negacionistas e antivacinas entre os próprios profissionais de saúde.

Por tudo isso, é igualmente confrangedor assistir à maneira “panicada” (espero que o editor deixe passar este neologismo angolano) e caótica como certos governos lidam com os bravos negacionistas da covid-19. A recente atitude da União Europeia em relação à vacina da AstraZeneca-Oxford foi um exemplo clamoroso de cobardia e falta de liderança, que não abona a favor da organização.

A isso, é de juntar igualmente os chiliques de certos intelectuais contrários, por exemplo, ao passaporte covid, cartão de vacina anticovid ou seja lá qual for a designação que se der a algo que parece fundamental: um documento que comprove que o seu utente já foi vacinado contra esse vírus.

Mais uma vez, comprova-se que o ridículo mata. Neste caso, literalmente.

João Melo, JN, 23 de Março de 2021

O maior amigo do coronavírus é o egoísmo

Imaginemos que Portugal não tinha suspendido a vacina da AstraZeneca na segunda-feira à noite e morria uma pessoa. Pouco provável? A DGS e o Infarmed sabiam que havia um paciente de 60 anos internado nos cuidados intensivos do Hospital de São João, em estado muito grave, após ter tomado a vacina. Esperar pela Agência Europeia do Medicamento era a única via possível. Aumenta o medo? Não podemos ficar reféns dos extremistas.

Este caso do paciente “AstraZeneca” está a ser, aliás, extraordinariamente útil para percebermos os limites da absoluta histeria o processo. Como explicou na quinta-feira a Agência Europeia do Medicamento (EMA), não há um problema geral de efeitos secundários na administração da vacina. Pelo contrário, tomá-la é muitíssimo mais seguro que não tomar. Mas foi encontrada pelo menos um problema que merece estudo. No relatório divulgado, diz-se que parece haver uma ocorrência de cinco vezes mais casos de coagulação intravascular em pessoas com menos de 55 anos do que estatisticamente é normal.

No caso em concreto do paciente do Hospital de São João, o retrato não é igual ao da matriz analisado pela EMA. O paciente teve uma miopericardite há três anos e, apesar de curada, surgiu de novo. Duas hipóteses: teria acontecido na mesma, independentemente da vacina? Ou é um “evento adverso”, pós-AstraZeneca, e fará parte de uma estatística onde há até agora 469 efeitos tromboembólicos e nove mortes? Esta é uma das dúvidas do coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de São João, Roberto Roncon, quando explicou o caso ao Porto Canal.

Obviamente, quando estas coisas acontecem, há que estudar, reportar, fazer comparações. Faz parte da fase 4 da avaliação de uma vacina verificar reações. Quem não compreende este realismo, vai desejar um mundo ideal sem vírus ou risco – um delírio.

O paciente “AstraZeneca”, internado no Hospital de São João, ainda continua nos cuidados intensivos. O processo de vacinação vai ser retomado. E não sabemos se, com esta vacina ou com outra, podemos precisar de nova paragem. Ou até recuar. Mas só esta seriedade nos permite acreditar que, face a um problema novo, somos capazes de reagir sem medo de uma opinião pública crente num mundo biotecnologicamente perfeito.

Há milhões de anos que os vírus estão em mutação permanente. É a sua forma de sobrevivência. Se queremos “apanhar” o Sars-cov-2 para o “domesticar”, ou seja, sem nos criar efeitos graves, temos de ser muito rápidos e atuar em conjunto. É exatamente por isso que “a mais louca corrida do mundo por uma vacina” está totalmente condenada ao fracasso.

As primeiras epidemias “coronavírus” SARS e MERS, do início deste século, mostram que estas só não degeneraram em pandemia porque o vírus matava muito – e por isso também ficou confinado a essas vítimas. Pelo contrário, o Sars-cov-2 é brando e mata pouco, por estranho que pareça. Especializou-se em ser contagioso para prosperar, mas é especialista em aproveitar o que cada um de nós lhe oferece para se tornar diferente. Vacinarmos globalmente o planeta é provavelmente a nossa única chance. E mesmo assim, um tiro de sorte…

Se não mudarmos a estratégia de vacinação, os países ricos descobrirão rapidamente que vão ter que se revacinar vezes sem fim. E, mesmo assim, os seus cidadãos não poderão sair das fronteiras domésticas anos a fio. Adeus turismo, adeus aviação. E tudo isto é muito mais caro, e pior, do que vacinarmos toda a gente globalmente. Esqueçam os rankings da Fórmula 1 da vacina. O maior amigo do coronavírus é o egoísmo.

Daniel Deusdado, Diário de Notícias, 22 de Março de 2021

Crianças decapitadas, um milhão de pessoas com fome. A crise no norte de Moçambique

Com os jornalistas impedidos de se deslocarem a Cabo Delgado, são as organizações não governamentais e a Igreja Católica quem tem reportado sobre aquela província moçambicana em crise humana e de segurança há três anos e meio. O mais recente relato é da Save the Children, que ouviu o testemunho de mães que perderam filhos para a violência e o ódio religioso. “Os relatos de ataques a crianças perturbam-nos até ao âmago. O nosso pessoal tem sido levado às lágrimas ao ouvir as histórias de sofrimento contadas pelas mães nos campos de deslocados. Esta violência tem de acabar, e as famílias deslocadas precisam de ser apoiadas à medida que encontram o seu rumo e recuperam do trauma”, comentou o diretor da Save the Children para Moçambique, Chance Briggs. No mesmo dia, o presidente moçambicano, Filipe Nyusi, pediu ao novo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) para erradicar o terrorismo do país.

“Naquela noite, a nossa aldeia foi atacada e as casas foram queimadas. Quando tudo começou, eu estava em casa com os meus quatro filhos. Tentámos fugir para a floresta, mas eles levaram o meu filho mais velho e decapitaram-no. Não podíamos fazer nada senão também seríamos mortos“, contou uma mãe de 28 anos sobre o filho de 12 anos.

A organização não governamental, que iniciou a atividade em Cabo Delgado na ressaca do furacão Kenneth em 2019, mantendo 45 funcionários e 40 voluntários no terreno, encontrou esta família de agricultores num campo de deslocados a 200 quilómetros da sua aldeia, com as três crianças traumatizadas e uma delas a necessitar de cuidados médicos.

Infelizmente, não são caso único. Outra mãe de 29 anos também perdeu uma criança. “Depois de o meu filho de 11 anos ter sido morto, compreendemos que já não era seguro ficar na minha aldeia. Fugimos para a casa do meu pai noutra aldeia, mas alguns dias depois os ataques também começaram lá. Eu, o meu pai e as [três] crianças passámos cinco dias a comer bananas verdes e a beber água de bananeira até conseguirmos o transporte que nos trouxe até aqui”, relatou esta mãe que se diz de coração partido porque não pôde despedir-se nem dar um enterro adequado ao filho. São testemunhos de um conflito que já provocou mais de 1200 mortos e 670 mil deslocados perante a incapacidade do governo central.

Além disso, lamenta a Save the Children, há quase um milhão de pessoas a “enfrentar fome severa”, sendo certo que o trabalho da ONG acode 70 mil pessoas. Há quem coma ervas para enganar a fome.

A mais de 1500 quilómetros de distância, o presidente de Moçambique procedeu a mudanças na hierarquia das Forças Armadas. Na terça-feira, ao seu ex-chefe da Casa Militar, Rivas Mangrasse, promovido a CEMGFA, Filipe Nyusi pediu o fim do terrorismo e dos “seus mentores, que não devem ter sossego e devem se arrepender de ter ousado atacar Moçambique”.

Na véspera, a embaixada norte-americana em Maputo anunciou que tinha dado início a um programa de dois meses de formação de forças especiais para reforçar a capacidade de resposta do exército ao grupo que, dias antes, foi oficialmente designado como terrorista pelos EUA. Colocar o ISIS-Moçambique na lista negra de Washington dificultará os apoios financeiros aos insurgentes.

Do lado europeu, o pedido de apoio foi recebido em setembro e a resposta foi positiva, com Portugal a voluntariar-se para ajudar na formação, mas até ao momento não se materializou, segundo o eurodeputado Carlos Zorrinho, porque há “quem esteja no terreno que não quer que essa ajuda se faça”.

É na província de Cabo Delgado que está previsto o maior investimento privado em África, através da exploração do gás natural, numa infraestrutura que deverá estar pronta em 2024 e será explorada por um consórcio de empresas de vários países, liderado pela francesa Total. A insurreição representa uma ameaça direta aos projetos de gás, tendo um ataque em 30 de dezembro decorrido a apenas 10 quilómetros da infraestrutura, que recorre a empresas de segurança privadas para proteger o pessoal.

Por outro lado, a esperança de que o projeto trouxesse benefícios para a população perdeu-se entre o sentimento de abandono, a marginalização económica, os desastres naturais e o terrorismo. Daí que uma resposta exclusivamente militar, avisam os peritos, seja insuficiente ou mesmo contraproducente. O exército moçambicano, subdimensionado e mal equipado, recorreu a mercenários estrangeiros, primeiro em 2019 através do grupo russo Wagner – que se terá retirado após o falhanço no terreno – e depois com os sul-africanos da Dyck.

Associações como a Amnistia Internacional criticam esta abordagem porque a população tem sido vítima de abusos de todos os lados, levando à sua alienação. “A aposta para travar este conflito não deve ser apenas no campo militar. Deve ser uma estratégia multifacetada que garanta o desenvolvimento local, evitando que mais jovens das comunidades afetadas se juntem aos grupos armados”, disse à Lusa o diretor da ONG Centro de Integridade Pública, Edson Cortez.

Neste contexto, ganham mais relevância as conclusões de um estudo sobre captação de jovens para o extremismo. Segundo uma análise do Instituto de Estudos Sociais e Económicos, as províncias de Nampula e Niassa também são campos de recrutamento para os grupos armados que atacam Cabo Delgado.

César Avó, Diário de Notícias, 17 de Março de 2021