4.º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: Encerramento

Júlio Isidro na Homenagem a Amândio Silva, Foto de Henrique Godoy
Jacinto Rego Almeida na Homenagem a Amândio Silva, Foto Henrique Godoy

Vitorino, Foto de Henrique Godoy

Carlos Salomé e Davide Zacaria, Foto de Henrique Godoy
António Salomé, Maria Anadon e Filipa Pais, Foto de Henrique Godoy
Dupla de violinistas Ana Sofia e Vicente Sobral, Foro Henrique Godoy
Grândola no fechamento do encontro, Foto de Henrique Godoy
Até ao próximo Fórum, Foto de Henrique Godoy

4.º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: Ambiente e Ecologia

O nosso planeta está gravemente doente, vítima da actividade irreflectida e insensata do
homem, pondo em causa a sua própria sobrevivência. Os desastres multiplicam-se e
avolumam-se. O equilíbrio de todos os sistemas essenciais à vida foi corrompido. A lista
é longa e nada escapa: perda da cobertura florestal, degradação dos solos aráveis, da água
(doce e oceânica), do ar, rarefacção da camada de ozono, degelo dos polos e dos glaciares
pondo em risco zonas urbanas e planícies, desertificação de vastas regiões, agricultura
químico-industrial, ameaça nuclear, etc. Consequentemente perfilam-se no horizonte
emigrações em massa, fome, miséria, guerra, sofrimento. E se os discursos oficiais
começam a aflorar os problemas (com meio século de atraso, diga-se) na prática muito
pouco ou nada de substancial se faz.
Perante este cenário, que fazer? Esta a questão crucial do nosso tempo. Perante a
inoperância do sistema, ocupado com o supérfluo (crescimento, mercados e lucro, pois
então…) a esperança recai na capacidade de intervenção cidadã, muito em particular das
camadas mais jovens, eles sim, no olho do furacão que não deixará de se abater sobre o
nosso mundo. Em muitos casos será muito difícil e bastante longo repor as condições
originais (caso das alterações do clima, por exemplo), mas podemos (teremos) trabalhar
arduamente para amenizar o desastre.
Se não houver uma forte reacção dos cidadãos caminhamos para o colapso. O movimento
ecologista, a nível geral, parece ter esquecido muito do essencial das premissas expressas
aquando da sua origem. No caso particular do nosso país encontra-se atolado, em meu
entender, num pântano de contradições, questiúnculas menores e sem conseguir quebrar
as barreiras que a situação exige e gerar uma unidade alargada em torno dos problemas
centrais e conseguir o apoio de largos sectores da população que o rejuvenesçam e
projectem.
E, no entanto, há questões de extrema urgência que não podem mais ser iludidas:

  • a desertificação prevista, todos os estudos são unânimes, de cerca de metade do país ou,
    talvez, bastante mais.
  • a perda, porventura irreversível, dos nossos melhores terrenos agrícolas devido às más e
    demolidoras práticas da agricultura convencional ou à invasão das águas salgadas.
  • a real e potencial ameaça que constituem os dois reactores da central electronuclear de
    Almaraz. Após Chernobyl e Fukujima ninguém pode crer em segurança absoluta. Um
    acidente semelhante ao da central ucraniana poderá condenar irremediavelmente, quiçá
    para centenas de anos, vasta extensão do nosso território.

Para os dois últimos exemplos as soluções imediatas são evidentes. A resolução do
primeiro é mais complexa e obrigará a medidas mais exigentes.
Mas o ataque à imensidade de problemas que a humanidade terá de solucionar obrigará à
adopção de medidas cirúrgicas e corajosas. A oposição será colossal, mas não se
enxergam alternativas.

José Louza

4.º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: Exilados e Refugiados sem fronteira 2

O planeta terra, que devia ser apenas a nossa casa comum está dividido em
múltiplos estados, cerca de 195, num total de mais de trinta mil quilómetros de

novas fronteiras, limites, cercas, arames farpados, drones de vigilância militar,
numa tentativa cruel de controlar seres humanos em fuga. De acordo com os
números das Nações Unidas, no final de 2020 havia 26, 4 milhões de refugiados,
4,1 milhões de requerentes de asilo e 4,2 milhões de apátridas. A estes adicionam-
se 48 milhões de pessoas deslocadas internamente no seu próprio país, tanto em
resultado de conflitos armados como por razões ambientais. De referir que em
nenhuma destas estatísticas está contabilizado o caso recente da população
Ucraniana, vítima da guerra. Temos pois mais de 82 milhões de deslocados em
todo o mundo, sendo 42% menores.
A estes números acrescem 272 milhões de migrantes, mais de metade dos quais a
trabalhar na Europa e na América do Norte.
Em suma, uma parte significativa da população mundial encontra-se em fuga
graças às consequências catastróficas do capitalismo global, a que se deve
acrescentar os efeitos da pandemia Covid 19 que contribuiu para acentuar as
diferenças brutais entre as populações e entre os povos. Enquanto os super–ricos
até já se preparam para uma fuga do planeta, centenas e centenas morrem no
mediterrâneo ou nas fronteiras, crianças e mulheres são traficadas, enquanto
lutam apenas pela sobrevivência.
Guadalupe Portelinha

4.º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: Refugiados sem fronteira. 1

No final de Junho deste ano, em Estrasburgo, o Grupo da Esquerda Unitária
Europeia/Esquerda Verde Nórdica do Parlamento Europeu, o qual o PCP e o BE integram,
estendeu simbolicamente uma faixa com os nomes de imigrantes que nos últimos anos
morreram por tentarem chegar à Europa a procura de sua sobrevivência física ou de melhores
condições de vida, longe da guerra, perseguições e fome. O resultado foi uma enorme lista
com os nomes das 17.306 vítimas. Por sua vez, no dia 24 de Junho, dois mil emigrantes
tentaram entrar no enclave espanhol de Melilla, no Marrocos, a partir da cidade de Nador. A
ação conjunta de repressão brutal das polícias do Marrocos e Espanha gerou o maior número
de vítimas mortais nas tentativas de cruzamento dessa fronteira terrestre: 37 mortos e
centenas de feridos.
A chamada “crise dos refugiados”, iniciada em 2015, está longe de terminar, pois as causas da
mesma não cessam de se agravarem – guerras, repressão política, fundamentalismos
religiosos – e a qual vão se somando novas, como o caos climático, que retira terras ou as
desertifica, causando fome e devastação. Desde o final da Segunda Guerra Mundial não se
assistia o deslocamento forçado de massas tão grandes. Só no primeiro ano deste
deslocamento massivo, atravessando por terra, mas principalmente por mar, mais de um
milhão e trezentos mil requerentes de asilo na Grécia e Itália. Também nesse primeiro ano, na
travessia do Mediterrâneo pereceram três mil setecentas pessoas. O Mediterrâneo, que no
passado fora um corredor de integração em sua bacia, converteu-se num dos maiores
cemitérios do mundo.
Curiosamente, o último grande deslocamento forçado foi, precisamente, de europeus. Num
continente devastado ou onde ainda persistiam fascismos ibéricos recalcitrantes, milhões
emigraram para as Américas ou para outros países deste mesmo continente. Em Portugal, a
dinâmica de fuga à Guerra Colonial iniciada em 1961 ou às perseguições do salazarismo
levaram, em particular a partir dos anos sessenta, a uma intensa emigração, muitos dando “o
salto” para França.
Como ontem ou como hoje, algumas questões se impõem. Como podemos negar o facto de
que a mobilidade humana não é algo extraordinário, mas permanente em nossa espécie, que
ganhou o mundo partindo de África? Como diferenciar os emigrantes económicos dos
refugiados? Afinal, o subdesenvolvimento nos países periféricos é produto também da mesma
instabilidade, das mesmas dinâmicas sociais e políticas, que originam as guerras e a repressão.
Como negar o papel que as grandes potências imperialistas tiveram e tema na construção
dessa realidade perturbadora da vida dos povos, ao imiscuir-se nos assuntos dos outros
povos? Basta lembrarmos da Síria, Iraque ou Afeganistão para percebermos isto. Ou o
escandaloso acordo com a Turquia de Erdogan para travar as levas imigratórias na Europa?
Com a actual crise ucraniana, os refugiados deste país têm sido recebidos de forma acolhedora
e são cercados por uma forte corrente de solidariedade internacional. Este é um bom exemplo
de como deveria ser uma política imigratória. Contudo, também revela a duplicidade do
critério afetivo e político, que não esconde nem os interesses geopolíticos do posicionamento
dos Estados europeus, nem um viés racial, que diferenciam estas práticas e afetos, dos que
foram votados, muito recentemente, por exemplo, aos refugiados sírios. Mesmo assim, é um
bom exemplo de que não é pela via da repressão e do conflito que se resolverão esta, uma das
questões mais prementes de nossa época, mas pelo acolhimento e inserção digna em nossas

sociedades. Portugal e os portugueses, por sua tradição emigratória, pode cumprir um papel
central nisto.
É preciso debater uma nova forma de enxergar a imigração na Europa, que seja inclusiva e
humanista, e faça jus aos valores que são defendidos discursivamente pelas instâncias
europeias. Pois, o envelhecimento de nossos países europeus, a crise demográfica, as
possibilidades de enriquecimento cultural, tornam a imigração numa solução benéfica aos
nossos povos. É preciso debater a imigração não sob a ótica do problema, mas a enxergando
como uma oportunidade. A imigração deve ser enxergada como uma oportunidade de
enriquecimento económico e cultural destes países, e não como uma ameaça.
Uma política de acolhimento é benéfica não só para os refugiados das guerras e os emigrantes
da fome e da miséria, como para os países que acolhem, pois se aqueles necessitam de
segurança e trabalho, os segundos precisam de força de trabalho e renovação. Contudo, isto
impõe outras questões: como superar as marcas ideológicas do racismo e da xenofobia? Como
gerar condições de vida dignas para os que chegam, revertendo a precariedade laboral e
habitacional que marcam atualmente a vida destas populações, e são a base dos problemas de
inserção destes e do próprio preconceito contra os mesmos? Como construir uma nova ordem
internacional que garanta o desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo, criando
condições para a fixação de suas populações em seus países? Como reverter a crise ambiental
que irá levar a cada vez mais refugiados climáticos? Como a União Europeia, as Nações Unidas
e outras instituições multilaterais podem colaborar para a mudança de paradigma?

Carlos Serrano

4. Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: Informação e Desinformação 2


Todos sabemos – e já quase achamos natural – que o que lemos,
ouvimos e vemos, a cada hora, sobre os mais variados temas, não
corresponde, em rigor, à realidade.
À vista de todos, a publicidade, a propaganda, as falsas “notícias”
dificultam cada vez mais, e de formas cada vez mais sofisticadas, a
aproximação à verdade, as opções individuais e coletivas, e o
próprio conhecimento.
Sem conhecimento e sem verdade, a liberdade que defendemos e o
pensamento crítico que a permite, e dela também depende, serão
tanto mais limitados quanto, para lá de nos ser sonegada uma
informação verdadeira, mais nos for imposta uma verdadeira
desinformação, de forma consciente, e potenciada pelo
desenvolvimento tecnológico de uma inteligência artificial sempre
mais atrevida, que inclui a gestão algorítmica dos dados de todos
nós, paulatina e informaticamente recolhidos e logo armazenados,
de modo sistemático, para utilização posterior, presumivelmente por
quem detém o poder – cada vez mais financeiro.
Teorias da conspiração?
Neste Fórum se procurará esclarecer quão real é a terrível arma da
desinformação, como é desenvolvida e porque deve ser inutilizada,
em qualquer guerra, a começar pelas que urge travar contra a
pobreza, contra a ignorância, pelo ambiente e pela Terra, pela
Humanidade, pela Liberdade, pela Democracia e pela Paz.

Luís Castelo