Convite e Programação

A Comissão Coordenadora tem a honra de a/o convidar a participar nas atividades do 4º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico

ABERTURA: 09H30 – Sala Lurdes Castro (Ginásio do Liceu)

– Palavras de Saudação pelo Diretor do Liceu Camões e por Representante da Comissão Organizadora do IV FÓRUM Liberdade e Pensamento Crítico

– Apresentação do tema central do 4º FÓRUM : INFORMAÇÃO e DESINFORMAÇÃO

 Luís Castelo

Durante todo o dia teremos na Sala Lurdes Castro Exposições coordenação Mário Moutinho

e na Sala António Torrado um espaço infantil col acompanhamento e actividades para crianças com a dinamizadora Cláudia Pôla

TEMAS DOS PAINÉIS/DEBATES

 (11h – 12h30)

Sala Amândio Silva

Ambiente e Ecologia

Painel: Carlos Ventura, João Camargo, José Louza – moderadora Amélia Resende

(11h – 12h30)

Sala Maria de Sousa

Encruzilhadas da Guerra/Caminhos para a Paz

Painel: Carlos Matos Gomes, Pedro Caldeira Rodrigues, Ricardo Paes Mamede – moderador David Zink

(12h30 – 14h30)

PAUSA PARA O ALMOÇO

Será realizado no Refeitório da Escola ( sopa, prato principal, sobremesa, bebida): Apenas garantimos almoço a quem faça a inscrição prévia, através do email e telefones indicados, e pagamento prévio

TEMAS DOS PAINÉIS/DEBATES

(14h30 – 16h)

Sala Maria de Sousa

Exilados e Refugiados Sem Fronteiras

Painel: Alexander Kpatue Kweh, Miguela Cardina, José Reis – moderadora Fernanda Marques

(14h30 – 16h)

Sala Amândio Silva

Democracia, Liberdade e Pensamento Crítico

Painel: Mário Tomé, Paulo Pedroso, Raquel Varela – moderador Jacinto Rego de Almeida

(16h – 17h30)

No Pátio

Poesia ( com “ Dois de Palavra”-Domingos Lobo e…, intervenções livres ) ; Teatro ( sketch  “As mulheres na música do Zeca”  com Chris de Macedo e Rodrigo Augusto);  Dança ( grupos a confirmar);  Gastronomia( mostra das associações presentes) – coordenação de André Barba Ruiva e José Sabugo

 (18h-19h30)

Concerto no Auditório Camões /Reserva obrigatória

Com várias participações,  entre elas Davide Zaccaria, Maria Anadon,  Vitorino  e mais.

Apresentação por Júlio Isidro

Coordenação de Moema Silva e Manuel Teixeira

INSCRIÇÕES ABERTAS ATÉ O DIA 15 de JULHO através dos seguintes contactos:

– lpcquartoforum@gmail.com

– telefones: Arnaldo Silva 939 017 474 e/ou Guadalupe Portelinha 966 785 119  

Nota: Apenas garantimos almoço a quem faça a inscrição prévia, através do email e telefones indicados, e pagamento:

IBAN PT50 0036 0170 99100109835 05, indicando o nome de quem participa, e o nome de quem efetua o pagamento (envio obrigatório do comprovativo da transferência, ou depósito).

A tabela de preços é a seguinte:

  
Entrada Solidária (tudo incluído)Mínimo 25,00 LPC
Almoço15,00  LPC
Espetáculo Musical10,00  LPC
Almoço + Espetáculo20,00  LPC
Criança < 7 anosGrátis

Apelamos para o vosso apoio solidário que para nós é essencial

Contamos consigo!

Abraços solidários

A organização do IV Fórum Liberdade e Pensamento Crítico

Encruzilhada da Guerra, caminhos para a Paz

No seu livro “Da Guerra”, o general prussiano Carl von Clausewitz, conhecido sobretudo pela observação de que “a guerra é uma mera continuação, por outros meios, da política”, precisou que esta “nunca é um acto isolado”, ela “não surge completamente de súbito, não se estende num momento até ao máximo.

Nesse sentido, toda o conflito bélico carece de compreensão e estudo das suas causas e quanto às suas consequências, sendo que surge no momento em que os diferendos políticos, por vontade (manifesta ou não) de uma ou de ambas as partes não foram resolvidos pela Diplomacia.

Mas a guerra não deixa de ser comandada por responsáveis políticos, que em regra não participam nos combates, antes permanecem nos seus confortáveis gabinetes enviando para a frente de batalha a “carne para canhão”. Em contrapartida, poucos são os militares que gostam da guerra (sobretudo os que já a viveram). Não surpreende, pois, que nos media sejam os militares e não os comentadores políticos “fazedores de opinião” quem mais adverte contra os riscos de continuar a senda da guerra .

Também os povos, dum modo geral na época contemporânea, não gostam da guerra, pois são sempre eles os grandes perdedores – mesmo quando estão do lado  do vencedor. Com efeito, mesmo quando os populares não são enviados para o campo de batalha e nela perecem ou são estropiados, são eles que experienciam as dificuldades económicas, alimentares e sanitárias que a guerra acentua de modo nunca vivenciado em tempo de paz.

Na verdade, talvez se lhes fosse dada a oportunidade de decidir em consciência e de forma informada, optassem por negociar a melhor solução possível. Ou mesmo a menos má.

Com o apoio aos refugiados estamos todos de acordo – até a extrema-direita, normalmente sempre contra o acolhimento de refugiados, se manifestou favorável desta vez. Mas como apoiar cegamente uma guerra, sem que haja um debate sério e esclarecedor onde o contraditório possa estar presente, para que todos possamos decidir em consciência informada?

Não importará também verificar se as medidas implementadas são as mais acertadas: saber quem está a ganhar com a guerra, e quem está (e provavelmente  vai continuar) a perder com ela?

Será que as sanções à Rússia são, como referiu Clemente Pedro Nunes,  especialista em políticas energéticas e professor do Instituto Superior Técnico, “um sofrimento auto-inflingido” para a Europa? (Sic Notícias, 31/5, 19h15).

Por que será que, de repente, o gasóleo passou a estar mais caro que a gasolina? (há quem afirme haver nisto uma agenda oculta para acelerar a transição energética e acabar rapidamente com os carros em circulação).

Concomitantemente há quem relacione esta guerra com o recrudescimento das teorias malthusianas de redução da população mundial (de que o livro Inferno, de Dan Brown se fez eco).

Nestas circunstâncias, o pensamento crítico torna-se mais necessário do que nunca e adquire especial importância na preservação da autonomia dos cidadãos. Somos fiéis ao princípio socrático da Grécia Antiga de que “Da discussão nasce a Luz”, propomos um debate sobre o tema em presença, que tem a sua face visível na Ucrânia, mas que parece esconder um conflito maior.

DEMOCRACIA, LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO

A fragilidade da democracia representativa em vários países do Ocidente, alguns deles com forte tradição democrática, tem surpreendido a opinião pública, os tradicionais partidos políticos e a sociedade civil nos últimos anos. O que têm em comum países como os E.U.A. desde o início do governo de Donald Trump ou o Brasil desde o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff? Ou da Hungria com o Presidente Orban prestes a iniciar o seu quarto mandato ou a Nicarágua com o Presidente Noriega a eternizar-se no poder? Ou o golpe paramilitar que afastou temporariamente o presidente eleito da Bolívia Evo Morales? Ou a eleição de Rodrigo Duterte para Presidente das Filipinas bem como a eleição de Berlusconi em Itália e a posterior ascensão de Salvini ao governo italiano, ou o enfraquecimento da democracia na Polónia? Ou, para não referir outros casos, a perpetuação no poder de Nicolas Maduro na Venezuela? Parece espalhar-se um cansaço da democracia representativa pela dificuldade na solução ou sólido encaminhamento de problemas básicos pelos eleitos das sociedades que representam. Ou não?

A democracia tem regras não escritas que os eleitos acima referidos utilizaram (e utilizam) com desenvoltura para implodir por dentro o próprio sistema democrático com o intuito de se manterem no poder. Que regras são essas? Uma política de ódio aos seus opositores políticos, o uso indevido da liberdade de expressão nomeadamente nas redes sociais para a difusão sistemática de notícias falsas, acusações infundadas aos opositores, desinformação sobre a lisura do sistema eleitoral e pressão e ameaças sobre a imprensa e o jornalismo independente contrário às suas ideias e práticas antidemocráticas num contexto em que a disputa político-partidária é uma guerra que deve ser ganha a qualquer preço. Em sua maioria estes políticos não têm vergonha de ser o que são e a prova do poder que alcançaram deve-se a não terem o menor complexo de inferioridade.

A informação e desinformação, uma questão que vem desde longa data, adquiriu especial importância como arma política nos média atropelados pela disseminação das redes sociais de tal forma que a desinformação passou a fazer parte da informação. E todos sabemos disto como sabemos que o cigarro faz mal à saúde. Como afirmou um conhecido escritor europeu, vou citar de cor, ouvir as notícias é como fumar um cigarro que no fim se deita fora. Recursos e interesses económicos e financeiros, forças militarizadas paralelas algumas conhecidas como milícias, controles de redes de comunicação de grande divulgação constituem armas políticas que levaram o conhecido milionário norte americano Elon Musk a afirmar “Vamos dar o golpe em quem quisermos”. O que mostra determinação e segurança nos métodos.

Portugal não tem sido alvo com maior intensidade deste tipo de ações, a meu ver, devido à tradição libertária e democrática do processo de 25 de Abril de 1974 que se incorporou à identidade nacional e representa um escudo ideológico simbólico, entre outras razões.

Já o Brasil, uma potência regional com elevados recursos naturais à escala mundial, uma grande desigualdade de distribuição da renda nacional, uma das mais elevadas do mundo, e os mecanismos fundamentais de intermediação social muito fragilizados, tem eleições em outubro próximo. Jair Bolsonaro é candidato à reeleição e propaga em comícios que “foi ungido por Deus e só Deus” o tira da cadeira de Presidente da República. A eventual reeleição, ou um golpe militar aprofundaria o retrocesso do país e uma catástrofe política na América do Sul.

E o estudo de caso do Brasil, não vale a pena salientar a história comum e a importância das nossas relações, por múltiplas razões nomeadamente o elevado número de brasileiros residentes em Portugal, poderá ter especial interesse nos debates deste Forum.

Jacinto Rego de Almeida

4.º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico: Informação e Desinformação

Abordar o problema da informação é colocar-se no epicentro de uma realidade sociológica com vários vulcões activos. A importância da informação- como um direito universal humano- é uma das questões que, de algum modo, esteve sempre atracada a uma outra, a da liberdade.

Se olharmos retrospectivamente e sem grandes ambições sistemáticas,verificamos que a informação, na sua relação complexa e periclitante com o conhecimento, foi um dos vectores importantes, se não mesmo fundamental, da progressiva revolução, passe a contradictio in adjecto, que acompanhou a emergência da modernidade, a partir do século XVII, suportada quer por uma revolução do conhecimento, assente na ciência e na técnica, cujo expoente vem a ser a designada Revolução Industrial, e na filosofia e na política, cujo vórtice acaba por ser a Revolução Francesa.

Aliás, o Iluminismo, essa cruzada pela libertação do homem da sua menoridade e da sua ignorância, tal qual o formula Kant, é uma visão que, na procura do progresso cultural, intelectual e social, reivindica instrumentos operacionais importantes, como o livro e o surgimento dos jornais. É sabida a importância que estes tiveram na disseminação das novas ideias que levaram ao racionalismo militante das ideias políticas da Revolução Francesa, assim como no século XIX, ao alastramento das ideias liberais. Quando Hegel afirma que “a leitura do jornal é a sua oração matinal”, estamos bem dentro desta visão que, no século XIX, deu azo ao surgimento de associações, muitas até de índole operária, que substituíram o catecismo religioso, para me socorrer de Auguste Comte, pelo catecismo positivo, dos factos, nessa visão científica e experimental do social, que vai estruturar cada vez mais a evolução das ideias, suportada por revistas, mas não só, de divulgação política, filosófica e científica, com um boom acentuado no final do século XIX, prenunciando o que irá ser uma das mudanças centrais da informação e dos seus mecanismos no século XX, os mass media.

O surgimento de meios de informação e comunicação capazes de chegar a todas as pessoas,a todos os lados, a todos os espectros sociais, assente numa aceleração vertiginosa tecnológica, gerou alterações profundas na forma como os dados e a sua organização passaram a ser transmitidos e absorvidos, ainda para mais num caleidoscópio de meios, palavra escrita, som, imagem que se tornaram num cocktail informativo, complexo e absorvente. Hoje, uma notícia de um telejornal televisivo usa, como texto, pouco menos do que uma página escrita de um jornal sobre a mesma notícia e, claro, a twiterização informativa é hoje o”reader’s digest” de todas as notícias, aliás, a sua matriz cada vez mais incontornável,usada e abusada, num processo alienante e esvaziante, onde o assunto se tornou mera opinião, sem qualquer desenvolvimento ou fundamentação, muitas vezes maquilhada por uma imagem, ela própria esvaziada de contexto.

Da rádio à televisão e desta ao universo digital e das redes sociais, a procissão incessante tecnológica trouxe uma espécie de realidade informativa non-stop, uma ubiquidade e omnipresença, capazes de, por um lado, dar a sensação e a ilusão de uma efectiva e profunda experiência informativa, mas, por outrolado, criar um stress informativo, um excesso quantitativo, baixando drasticamente a inteligibilidade e compreensão da informação,o que serve, por vezes, uma estratégia de desinformação. O excesso informativo gera o caos informativo, criando uma incapacidade de análise e fomentando um vazio crítico, pela ausência de um tempo necessário a uma maturação analítica. Na verdade, na actualidade, a informação é cada vez mais uma sucessão e um processamento interminável, pouco estruturado e  com fraco sentido, de dados que fazem apelo a uma memória operacional de curto prazo e não a uma memória profunda e substancial, de longo prazo. A velocidade e a fugacidade tornaram-se numa espécie de estado quântico da matéria informativa, gerando um princípio de indeterminação e incerteza que corrói a confiança nas fontes, nos processos e nos próprios actores do processo.

A digitalização da informação, enquanto expressão de um consumismo informativo, é um dos esteios do próprio  capitalismo consumista, que transforma a “informação” em mais uma mercadoria, apoiado no próprio consumismo de aparelhos tecnológicos, mercadorias fetiches de consumo, apanágio e aparato de uma sociedade que vive de uma idolatria tecnológica, geradora de uma dependência cada vez mais viciante e visceral .

A digitalização, a velocidade das redes,assentam numa maior  discriminação tecnológica proveniente das enormes diferenças económicas no mundo, propiciam, por outro lado, um lote e uma elite diminuta de empresas todo-poderosas, que se transformaram em donos de impérios globais, que uniformizam e manipulam a informação e o acesso a ela,criando processos altamente perigosos de censura implícita, mecanismos de controle a montante, e explícita, mecanismos de controle a jusante. Assistimos hoje a processos de censura,controle e manipulação tecnológica e ideológica, que roçam a fronteira de tiques autoritários, se não mesmo, espasmos para-ditatoriais. Os famosos algoritmos, o poder sancionatório, discricionário de exclusão de pessoas, de informação, que as empresas das redes sociais hoje têm,  exigem uma regulação e regulamentação atenta e democrática, sob pena de se passar a viver num universo virtual concentracionário, uma realidade cada vez mais submetida a mecanismos mercantis, consumistas, criando um estado indistinto em que tudo se equivale, esvaziados de todas a dimensão formativa,crítica e aberta, que deve “informar” a verdadeira  informação.

Para além da parafernália infernal de novos meios de informação, esta está contaminada também por duas dimensões: a do espectáculo e a da publicidade. Já Aristóteles afirmava, mais ou menos, que a informação exposta nas circunstâncias as mais chocantes é aquela de que o público se lembrará mais. O espectáculo, a publicidade são feudos fundamentais do consumismo que para além da alienação do trabalho geram uma nova alienação, como foi enunciada por Guy Debord, a alienação do consumidor e espectador,criando uma nova  ditadura global, a da economia, intensiva e extensiva,para me socorrer das suas palavras.

A indústria, o espectáculo e a economia da informação, apertaram  o torniquete à diversidade informativa, uniformizaram os processos informativos, estrangularam e estrangulam as fontes- hoje representado pelo crivo das agências noticiosas no mundo que afunilam e criam uma perigosa hegemonia sobre o que deve ser noticiado, num quase copy e paste de notícias-, dificultando um jornalismo crítico e profundo, manietando igualmente a investigação, considerada longa e pouco “lucrável”.

A digitalização, que empurrou os jornais, as rádios, as televisões para “a feira da ladra”que é a internet, onde tudo se torna igual, na famosa apregoada “democratização” que ela representa, mas que rapidamente se tornou pasto para um populismo de todo o género, noticioso, político, cultural, constitui um dos maiores desafios do futuro, já que ela veio para ficar e para modificar definitivamente a nossa relação com o mundo, com a realidade, connosco próprio.

Que não se entenda que esta análise sofre de uma espécie de saudosismo passadista- todos estes aspectos já existiam com as tecnologias anteriores-, mas a verdade é que não tinham a capacidade predatória de apoderação e disseminação ínsita ao admirável novo mundo do digital. E, sobretudo,que não se entenda neste retrato-robot, ( talvez no futuro tenhamos robots informativos e noticiosos capazes de se insinuar e de nos insinuar numa realidade imersiva, numa multisensorialidade puramente virtual), não se entenda,dizia, um retrato exclusivamente niilista destes tempos. Há aspectos inegavelmente positivos que a digitalização e a internet, como seu expoente máximo e global, trouxeram, desde logo,a propalada “democratização” da informação, que permite a publicação de dados e notícias que são recusados por meios mais institucionais, a rapidez da mesma e a possibilidade de expressão pessoal e aberta que as redes sociais propiciaram, ainda que com falhas evidentes. A socialização proporcionada por elas mudou as sociedades, expôs fracturas e limites destas, mas atravessou a medula da relação social, criando uma necessidade de uma nova reflexão filosófica, ética e política sobre as relações humanas.

Face a este quadro traçado, a esta informação que não é per se conhecimento, como nos diz a frase de Einstein usada em epígrafe, a única forma de combater os perigos elencados subjacentes ao “dilúvio” informativo destes novos meios, é justamente fomentar uma educação na interpretação e no conhecimento da informação. No fundo, desenvolver uma política educacional e cultural forte e sólida dos conhecimentos, todos eles, promover um método e um capital de reflexão crítica, ensinar, ou melhor, levar a pensar de forma livre, crítica e autónoma. Como se costuma dizer, hoje uma criança chega à escola com milhares de horas de televisão e de internet, com cérebro que parece funcionar como o motor de pesquisa da google ou o telecomando da televisão. Estudos mostram que a “net” neuronal é cada vez mais uma interface com a ”net”digital, abrindo portas para alguns delírios de ficção científica, que não devem ser encarados de ânimo leve.

Face a este panorama, as políticas educativas e culturais, sem desprezar, bem pelo contrário, as virtudes dos mecanismos da internet, devem apostar no desenvolvimento dos conhecimentos, científicos e culturais, e criar uma identidade crítica forte. Para isso, embora se saiba que a tentação política dos governos vá muitas vezes em direcção oposta, há que se construir uma democracia exigente e efectiva, não meramente formal, mas também e sobretudo económica, capaz de debelar as injustiças sociais que afectam e atravessam fatal e irremediavelmente as sociedades, como a sua depauperação. A pobreza, que tem crescido nestes períodos de crises à custa do aumento das fortunas, é uma das dimensões mais antidemocráticas do mundo, um paiol explosivo de exploração, subjugação, de manipulação, no fundo, um terreno seco e rapidamente inflamável para uma informação sem conhecimentos, isto é, o exercício de um fogo-posto nas mentes e vidas das pessoas. A justiça económica, social, educativa e cultural é a única forma de extinguir esse incêndio ou, pelo menos, criar alguns corta-fogos capazes de impedir o seu alastramento. E garantir uma informação livre, na verdadeira acepção da palavra, uma informação sujeita a um conhecimento crítico e ao exercício de uma soberania individual e colectiva independentes. Uma informação sem liberdade é uma informação vazia, nula e uma liberdade sem informação é uma liberdade cega, ambas altamente perigosas,destrutivas e potenciais  expressões de tirania.

José Esteves, professor

EVOCAÇÃO

EVOCAÇÃO
No dia 25 de Junho de 1976 , teve lugar no Terreiro de Paço o grandioso comício de encerramento da campanha eleitoral de Otelo Saraiva de Carvalho à Presidência da República.
Sob o lema da “unidade popular”, o movimento criado em torno desta candidatura, que os intelectuais e artistas que a apoiaram , com José Afonso na primeira linha, definiram como um projecto de socialismo novo assente nos orgãos de base ( comissões de trabalhadores, moradores, reforma agrária…) foi um ponto alto do movimento popular pós 25 de Abril
Esta sessão organizada pela AJA – Núcleo de Lisboa , é um tributo a Otelo , figura incontornável do 25 de Abril que não pode ser menorizada nas comemorações dos 50 anos, recriando, pela voz de protagonistas da altura, aspectos relevantes da mobilização popular que então se viveu.

4.º Fórum Liberdade e Pensamento Crítico

O IV Fórum Liberdade e Pensamento Critico vai realizar-se no dia 23 de Julho, na Escola Secundária de Camões, das 9.30 às 19.30.
À semelhança de anos anteriores planeámos um dia que contempla Exposições temáticas e de pintura, debates durante a manhã e a tarde com actividades culturais que incluem um Concerto a encerrar o evento, antecedido por momentos de dança, teatro e poesia. Também teremos a presença de Associações cívicas e culturais que nos acompanharão todo o dia, mostrando a sua actividade, com mostras gastronómicas, livros e outros produtos.
O tema geral do Fórum é Informação e Desinformação, tema esse transversal aos debates que se irão realizar em quatro momentos, em sala, com tópicos que tratam da liberdade, democracia, guerra, refugiados, exílios, ambiente, clima, todos numa perspectiva de denúncia do tratamento deturpado, falseado ou pouco fiel dos acontecimentos que muitas vezes é feito pela Comunicação Social ou até mesmo pelos Governos.
Numa síntese rápida pretende-se fomentar uma reflexão conjunta sobre a verdade e a ética em confronto com a falsidade, as notícias falsas, manipuladas; a verdade que colide com os interesses do poder político e é sonegada; a verdade como ameaça pela confrontação entre interesses e valores, a manipulação da opinião pública, os jogos de poder.
As sessões serão dinamizadas por convidados e moderadas pelos organizadores, em formato de debate informal, em que se pretende uma interacção eficaz com o público, permitindo e estimulando a expressão de opiniões e reflexões sobre os temas.

Em breve, disponibilizaremos o programa detalhado

Praça Lenine e a Rússia no Porto

Há anos, de férias em Cracóvia, visitei o Bairro de Nowa Huta. Para lá chegar, todavia, houve grande dificuldade: ao perguntar pelo transporte que deveria usar, os polacos olhavam-me com certa animosidade.

E eu sem perceber se era o meu inglês, ou o deles, muito mau, ou se lhe estava a pedir o caminho do inferno. Até que o meu filho mais novo, na sua inocência infantil, me disse: “Mãe, é melhor não irmos. Deve ser um bairro muito perigoso”. Não sou de desistir. Encontramos o elétrico certo e lá desaguamos na Praça Ronald Reagan, antes chamava-se Lenine. E, desde já esclareço, não fui a este símbolo do domínio soviético por qualquer tipo de saudosismo, como pareciam desconfiar os habitantes de Cracóvia a quem solicitei ajuda: visitámos Nowa Huta apenas para satisfazer a curiosidade académica da minha filha, na altura estudante de Arquitetura.

Lembrei-me deste episódio quando acabei de ler, nas páginas do JN, um triste episódio, sinal claro dos dias cinzentos que vivemos. A loja Rússia no Porto, há dezenas de anos instalada na Baixa da cidade, agora chama-se apenas Porto. A restante designação encontra-se escondida por uma tarjeta negra. Não foi por solidariedade pela Ucrânia, certamente existe, que os proprietários alteraram o nome do estabelecimento comercial. Fizeram-no com medo de represálias. É este o momento de intolerância dos nossos dias. Mal deflagrou a guerra, os donos da Rússia no Porto começaram a receber ameaças, e os vizinhos temeram retaliações.

Perigoso, verdadeiramente perigoso, é alguém não tolerar o simples nome de uma loja. Essa gente, com certeza, engrossa as fileiras dos censores de Rachmaninoff, Stravinsky, Chostakovitch, deixaram de ler Gogol, Dostoiévski , Tolstoi e recusam assistir aos filmes de Tarkovski. Ou talvez nunca tenham tido contacto com este genial grupo de criadores. E isso explicará muita coisa.

Paula Ferreira, 23 de Maio de 2022

Círculo vicioso

No Boletim de maio do Banco de Portugal consta que apenas um em cada cinco portugueses cujos pais estudaram até ao 9.º ano conseguiram tirar um curso superior, descendo para quase metade nos casos em que a família vem de uma situação de maior vulnerabilidade económica. Já em 2018, num relatório publicado pela OCDE, era clara a conclusão de que o elevador social estava e continua avariado em Portugal e a igualdade de oportunidades é ainda uma ficção.

Se não é surpreendente a divulgação destes dados, já o é a relativa indiferença ou transigência com que são recebidos. As parcas e tímidas reações do poder político a estes estudos que vão sendo publicados não deixam de incomodar, porque parecem conviver bem com um modelo de desenvolvimento que condena os mais frágeis e vulneráveis a um ciclo de pobreza e exclusão.

De facto, as origens socioeconómicas e o capital humano dos pais continuam a marcar indelevelmente as hipóteses de crianças e jovens terem uma carreira de sucesso. Não obstante terem sido dados passos significativos, nas últimas décadas, na promoção e melhoria da escolaridade dos portugueses, na percentagem de população entre os 25 e os 64 anos com, pelo menos, o ensino secundário completo, estamos na última posição entre os estados-membros da União Europeia. Se estes dados são um embaraço, podem ser mais do que isso: um desafio comum e partilhado a que coletivamente temos de dar resposta nos próximos anos.

Sem prejuízo das evidentes e saudáveis diferenças partidárias que separam os vários responsáveis políticos, concordarão (quase) todos que a chave do problema reside na Educação, como principal fator de elevação social. Seja na aposta real, e que chegue a todo o país, no ensino pré-escolar, seja na necessidade de encarar a Educação como um bem individual que nos deve acompanhar ao longo de toda a vida, o mínimo que se exige ao poder político é que tenha uma estratégia clara que contrarie este círculo vicioso em que tantos se encontram. Um círculo em que o apelido dos pais, o local onde nascemos, o material de que é feito o nosso berço continuam a ditar grande parte das oportunidades que teremos ao longo da vida, salvo raríssimas exceções. Façamos das exceções a regra, arranjando o elevador social.

Margarida Balseiro Lopes, Jornal de Notícias, 14 de Maio de 2022