O fascismo não existiu

Comício Anticomunista em Coimbra, 1936, com a participação da delegação alemã e italiana, como comprovam as bandeiras no lado direito da imagem.

Se poderia compreender uma negação de tudo isto de quem não o viveu, é-me inconcebível aceitar tais afirmações de quem tem obrigação de saber muito bem o que foi, o que aconteceu e porque aconteceu. A minha geração errou ao não ter tido a coragem de imprimir nos filhos a clara visão das conquistas da revolução

Ofenómeno negacionista não nasceu com a pandemia, embora por cá o seu aparecimento tenha coincidido com a chegada do “bicho”.

Por esse mundo fora, há sempre um grupo de iluminados que, por ignorância ou má fé, decidem descrer no óbvio, no documentado, no facilmente comprovado.

Se limitassem as suas opiniões aos botões das próprias camisas, bem… era uma questão de fé e, a mais das vezes, de profunda burrice.

O problema é quando decidem partilhar essas alarvices em público e em alta voz!

E se lhes acrescentarmos a característica de figura pública ou de algum protagonismo, então o caso passa de ridículo a dramático!

Os movimentos neo-nazis na Alemanha e na Áustria afirmam a pé junto que o Holocausto mais não é que uma invenção, com fins judaicos inconfessáveis. De pouco serve mostrar-lhes Auschwitz, Bacau ou qualquer outro campo de extermínio. Para eles não passaram de campos de trabalho de prisioneiros de guerra!

Com a pandemia e face às medidas tomadas, houve quem se arvorasse em virologista e clamasse que tudo não passa duma bem urdida conspiração das farmacêuticas apoiadas pelos governos, cujos únicos interesses são, por um lado, o lucro e, por outro, o controle popular.

Com negacionistas é impossível discutir! Não há argumento racional, prova evidente que não desmintam estapafurdiamente!

Pergunto-me se a questão estará numa necessidade de se autopromoverem ou se é muito simplesmente uma deficiência cognitiva séria.

Pois se até há gente que afirma a pés juntos que a Terra é plana, santo deus!

Por cá assistimos nos últimos tempos à negação do fascismo.

Desconheço se tão ilustre cabeça se refere ao fascismo em geral ou apenas ao que, segundo ele, não existiu em Portugal!

Teria dificuldade em aceitar uma declaração deste teor dum jovem que não tivesse vivido os tempos da ditadura. À força de os querermos poupar aos relatos do que foi um país amordaçado, cinzento, sem liberdade de imprensa, com músicas e livros proibidos, com prisões arbitrárias, sem liberdade de expressão, sem diversidade de pensamento político livremente expresso… Quisemos poupá-los e quisemos deixar para trás, esquecer!

E errámos!

A nossa juventude tem que saber que, há menos de 50 anos, éramos um povo de pé descalço, em que as mulheres não podiam assinar contratos, ter passaporte ou trabalhar sem o consentimento do marido ou do pai. Um país em que a mortalidade infantil era tão grande que era muito normal, na mesma família, a criança seguinte tomar o nome da criança morta. Um país entregue a meia dúzia de famílias que o tratavam como tratavam as suas próprias quintas: explorando-o! Um país em que 70% da população tinha como instrução não a mais que as primeiras letras e o número de analfabetos era o maior da Europa. Um país sem esperança que mandava os seus jovens morrerem numa guerra que não queriam, em locais que não conheciam e por razões que lhes eram alheias.

Esta é a História que é urgente contar aos jovens, para que não sejam enredados em negacionismos com agendas escondidas que afirmam que: “…bem o que houve aqui não foi bem fascismo. Foi assim uma coisa musculada…!”

Musculada nas torturas aos presos políticos! Musculada na repressão às mulheres, musculada no trabalho infantil!

Se poderia compreender uma negação de tudo isto de quem não o viveu, é-me inconcebível aceitar tais afirmações de quem tem obrigação de saber muito bem o que foi, o que aconteceu e porque aconteceu.

É triste verificar que em política vale tudo!

Até negar o passado, o óbvio, o que ainda tem marcas.

A minha geração errou ao não ter tido a coragem de imprimir nos filhos a clara visão das conquistas da revolução.

Revolução que teve inúmeros erros! Que hoje seria certamente diferente! Mas que terminou com o fascismo em Portugal!

A democracia nunca é um bem adquirido!

Os movimentos negacionistas da História a par dos extremismos que não têm soluções, mas transbordam de críticas, estão aí. Estão aqui!

Declarados ou encobertos, são os carrascos da democracia.

Há um passado sombrio ao virar da História. Que o futuro seja risonho e sobretudo livre!

Manuela Niza Ribeiro, Visão, 27 de Janeiro de 2022

Palavras que matam

“Vamos decretar o fim da pandemia.” Esta foi uma das propostas lançada pelo partido ADN, que reúne elementos dos extintos Médicos pela Verdade. Não sei como é que nos esquecemos de avisar o vírus, a Organização Mundial da Saúde e o mundo, que podemos acabar com a pandemia por decreto. Não sabia que era possível, a não ser na Coreia do Norte, onde todos sabemos que a pandemia nunca entrou, porque o vírus respeita lideranças de pulso forte.

Também aprendemos que os testes PCR não servem para nada, e que só morreram 152 pessoas por covid-19. Negacionismo? Nada disso. Negacionistas são só aqueles muito malucos que negam a existência do vírus. Estes são apenas pessoas que pensam pela sua própria cabeça e que fazem a sua pesquisa, tal como foi aconselhado fazer ao jornalista Carlos Daniel, por não compreender a fonte de arrojadas descobertas, “vá ao Google…”, com a credibilidade de quem levou um elefante de peluche para um debate, em que se discutem as questões principais no nosso país.

Isto vai dar muito material a Ricardo Araújo Pereira e a Joana Marques. E o riso é, sem dúvida, uma das defesas que a sociedade tem perante esta ameaça. Mas será que nos devemos rir quando há pessoas a morrer nos hospitais por causa desta gente “que pensa pela sua própria cabeça”? Os relatos de activistas antivacinas a morrer por covid-19 correm o mundo; em Portugal também já houve alguns antivacinas que por não se vacinarem passaram umas semanas no hospital, a gastar recursos, energia dos profissionais, e a roubar o lugar a tratamentos e exames menos urgentes de tantas outras doenças. E nós, sociedade, estamos a tolerar isto tudo, em nome da liberdade de expressão e do sentimento de que “isto passa”.

A pandemia há-de passar, mas este fanatismo, radicalização e desprezo pela comunidade científica ficam no meio de nós. E o que é que se faz com estas palavras que são um atentado à sociedade? Eu, do alto da minha ignorância e atento a melhores propostas, diria que há que legislar. Deixo à consideração de quem tem profundidade para filosofar sobre ética, direitos e deveres, liberdades e responsabilidades, sabendo que a propaganda antivacinas e a desvalorização da gravidade da pandemia matam mais do que o racismo, do que a violência doméstica, e já ninguém permite que estes sejam praticados, nem na forma de palavras. E bem, que evoluímos nesse sentido.

Palavras que matam. Ontem o país acordou para uma tragédia. Morreu uma criança de 6 anos. Houve quem festejasse. Houve quem culpasse os pais. O destilar de ódio nas redes sociais levou mesmo a que alguns “que pensam pela sua cabeça” nomeassem e identificassem ao detalhe todos os responsáveis pela decisão da vacinação das crianças, para atiçar os ódios dos antivacinas. A criança tinha a primeira dose da vacina, e também teria doença covid; no entanto, nada se sabe sobre a causa da sua morte e tudo o que se possa especular é cruel, nefasto e repugnante. O julgamento vem antes do resultado da autópsia, porque quem vive na raiva contra o mundo tem sempre o dedo no gatilho. O aproveitamento dos que negam as decisões da comunidade científica nacional, europeia e norte-americana é de uma imoralidade sem paralelo. As redes sociais tornaram-se viveiros de ódio e violência verbal que, se não forem regulados e monitorizados, nos trarão episódios como a invasão do Capitólio, ou as manifestações violentas dos grupos antivacinas que se vêem pela Europa fora.

Os meus profundos sentimentos a todos os que choram a perda deste menino, e que saibam perdoar o ódio e a maledicência, sustentados na ignorância colectiva, de uma sociedade que deixa proferir livremente palavras que matam.

Gustavo Carona, médico, Público, 19 de Janeiro de 2022

SNS acabou com centro: a esquerda vai ganhar

Depois do debate, se tivesse de escolher entre PS e PSD, o ponto decisivo seria este: prefiro o SNS de António Costa aos seguros de saúde de Rui Rio. O simples facto de existir o SNS para uma situação complexa é um bem inalienável. A alternativa de Rio, ao querer mudar o “tendencialmente gratuito” do SNS, geraria isto: quase todos que pagamos impostos teríamos de acumular um seguro privado para a hipótese de uma doença grave, porque a fatura também passaria a surgir vinda de um hospital público. E ninguém controla quanto vai pagar à entrada de um hospital. Uma bomba sobre a classe média.

Com o fim da gratuitidade tendencial do SNS, o PSD ofereceria às companhias de seguros uma receita potencial de centenas de milhões de euros porque, tendencialmente, milhões de pessoas teriam de ponderar a compra de uma cobertura para risco de doença súbita ou hospitalização prolongada. Mesmo quem tem hoje um seguro de saúde para cuidados básicos ou médios, precisaria de pagar mais – muito mais.

Pôr a classe média a pagar o SNS seria um golpe terrível e insensato do PSD. O SNS é talvez a melhor razão para justificar os impostos. Se Rio tira o “seguro SNS” à classe média, então, é melhor atirar a toalha ao chão e amaldiçoar-se a cobrança fiscal. Resta com qualidade o quê? A máquina fiscal de excelência?

E outro facto: Rui Rio não assimilou ainda o falhanço dos mercados financeiros quanto à gestão de poupanças de sobrevivência. Não é certo que o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social gira melhor o dinheiro de quem faz descontos, face a fundos privados. Só que está em causa uma coisa diferente: o facto de o dinheiro estar na esfera pública significa um seguro implícito contra tragédias nos mercados – sempre possíveis. Rio assume esta semiprivatização como sempre defendeu, mas a coerência de uma vida não tem só virtudes – também sublinha teimosias ideológicas nunca abandonadas. Nem depois de uma pandemia. Nem depois do colapso dos mercados de 2008.

Na TAP, Costa diz o óbvio: a empresa teria falido porque o sr. Nielmann colapsou de imediato. Todavia, o modelo de aviação atual concentra, necessariamente, contradições: um “hub” em Lisboa, pago pelo país todo, e bilhetes mais baratos em Espanha (contra a Ibéria) do que em Portugal. Rio é contra estas leis de mercado? No entanto, aqui já não há divergências entre PS e PSD: ambos vendem a TAP à Lufthansa amanhã, se puderem.

De qualquer forma, a única hipótese de António Costa sair bem desta eleição é conseguir o milagre da maioria PS com PAN+Livre. Rui Tavares acrescentou até o PEV à composição, o que seria uma fórmula de emergência para meter dentro mais deputados de esquerda – isto sem obrigar o PCP a ir na viagem. Entretanto, como disse Costa, isto não é perigoso porque Marcelo fiscaliza – há seis anos, aliás.

Chegará para o PS ganhar? Será por uma unha negra, quer para um lado quer para o outro. Costa sabe que não passará da casa de partida sem a ecogeringonça – mas que não há pântano possível. Se ele depender do Bloco e PCP, ou mesmo do PSD, não irá longe. Daí o dilema paralelo: PS-curto sem Costa significará Pedro Nuno Santos. Os eleitores PS sabem que assim será. Os eleitores que estão a votar à esquerda (em Costa) sabem que estão a fazê-lo, potencialmente, também em Pedro Nuno Santos, já hoje. Porque não querem o, afinal, líder da direita Rui Rio. O programa do PSD promoveu esta clarificação. O PSD alienou o SNS e, em simultâneo, o centro. A esquerda, qualquer que ela seja, ganhou aqui as eleições.

Daniel Deusdado, Diário de Notícias, 16 de Janeiro de 2022

Bolsonaro se isolou como o maior líder antivacina do mundo

“AS VACINAS MATAM! NÃO TOMEM ELAS. Esses idiotas são tão ingênuos. Eles estão todos se vacinando”, disse Cirsten Weldon, uma famosa influencer da extrema direita americana obcecada em gravar vídeos atacando as vacinas e disseminando as teorias conspiratórias do Qanon.

A militante abraçava as conspirações com fervor religioso e chegou a defender o enforcamento de Anthony Fauci, o epidemiologista-chefe do governo americano. Contrariando as evidências escancaradas de que as vacinas salvam vidas, Weldon não se vacinou e morreu dias após dizer que as “vacinas matam”.

O crescimento do movimento antivacina no mundo foi impulsionado em boa parte pela extrema direita. Em meados de 2019, antes do início da pandemia, escrevi uma coluna alertando para o casamento da extrema direita mundial com o movimento antivacina. Assim como o terraplanismo e o negacionismo climático, o discurso antivacina se encaixa perfeitamente na retórica antissistema tão cara aos extremistas lunáticos.

Assim como Bolsonaro, Donald Trump passou o governo alimentando as conspirações do Qanon contra as vacinas. Mas, agora, fora do poder, o ex-presidente americano passou a defender a vacinação, causando revolta em parte dos seus fiéis seguidores. Um dos principais teóricos da conspiração do Qanon, Alex Jones, chamou Trump de “patético” e ” “completo ignorante” pelo fato dele ter defendido as vacinas em um programa de TV no mês passado. Trump admitiu ter tomado a terceira dose da vacina contra covid e afirmou que as vacinas são seguras e “salvaram dezenas de milhões de pessoas”. Bolsonaro está isolado como o único líder mundial que segue imerso no negacionismo.

Até a chegada da pandemia de coronavírus, o próprio governo tratou os programas de vacinação como prioridade. O então ministro Luiz Henrique Mandetta se mostrou preocupado com a queda no índice de vacinação do país e chegou a defender na Assembleia Mundial de Saúde, órgão ligado à ONU, a ampliação da cobertura da vacinação como prioridade para o mundo. Quando a produção de vacina contra sarampo — doença que estava quase erradicada no mundo e ressurgiu com a contribuição do movimento antivacina — ficou escassa, Mandetta propôs que se levasse à OMS um documento assinado por vários países pedindo que a produção de vacinas fosse considerado um bem imaterial da humanidade.

Com a pandemia, todos esses esforços foram jogados por água abaixo. O bolsonarismo passou então a reproduzir o discurso antivacina da extrema direita internacional. Mandetta virou inimigo do governo e hoje quem ocupa sua cadeira é um negacionista que, apesar de se dizer um defensor da vacinação, na prática alimenta teorias da conspiração contra as vacinas e coloca dúvidas sobre elas. É um médico pau-mandado do presidente que diz para o seu povo que ele pode desenvolver aids se tomar vacina contra covid. A política de vacinação consolidada no país é referência no mundo e apresenta um dos maiores índices de cobertura do mundo.

Após a pandemia, Bolsonaro praticamente transformou o boicote às vacinas em política pública. Hoje temos uma série de médicos que viraram celebridades nas redes de extrema direita contestando vacinas publicamente. O bolsonarismo ofereceu ao movimento antivacina uma estrutura para disseminar suas loucuras. Hoje as celebridades negacionistas contam com amplo espaço dentro da programação de veículos alinhados ao presidente.

Mas se trata de um movimento hipócrita. Até mesmo bolsonaristas ferrenhos tomaram a vacina contra a covid, apesar do seu líder estar em campanha diária contra ela. Suspeita-se que até mesmo Bolsonaro tenha tomado a vacina que vive demonizando, mas isso só saberemos daqui 100 anos, quando expira o sigilo que ele impôs à sua própria carteira de vacinação.

Na Jovem Pan, médicos negacionistas e comentaristas da emissora se sentem à vontade para colocar dúvidas sobre a eficácia das vacinas. A ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel, por exemplo, usa o microfone da emissora para espalhar mentiras sobre as vacinas. Ela chegou a dizer no ano passado que as vacinas contra covid aplicadas nos EUA já causaram a morte de 501 pessoas e mais de 11 mil reações adversas. Ana Paula tirou esses dados de uma plataforma na qual qualquer pessoa pode incluí-los.

Mas é na negligência das redes sociais que o negacionismo antivacina voa para valer. Neste ano, o Twitter ofereceu o selo de verificação para Bárbara Destefani, uma famosa youtuber bolsonarista disseminadora de fake news sobre as vacinas. A empresa não viu problema em credibilizar através do selo azul uma mulher que virou alvo do TSE no ano passado por contar uma série de mentiras sobre o processo eleitoral. Um mês antes de ser verificada, Bárbara contou no Twitter sobre um suposto programa que injetará um chip na população para certificar o histórico de vacinação. Mas, claro, nunca existiu tal programa em andamento.

A proliferação do discurso antivacina no país começa a ter efeitos. Segundo pesquisa do PoderData, 16% dos brasileiros disseram que não pretendem vacinar seus filhos contra covid e outros 13% não souberam responder. Quase 30% não vão ou não têm certeza se devem vacinar seus filhos. Essa porcentagem seria impensável alguns anos atrás. O número de crianças recém-nascidas vacinadas vem caindo drasticamente desde 2011.

Em 2019, o país não alcançou a meta mínima de vacinação (95%) para nenhuma doença pela primeira vez em sua história. Cada vez mais recém-nascidos brasileiros estão expostos a doenças como sarampo, poliomelite, hepatite e febre amarela. O bolsonarismo está ajudando a destruir a cultura vacinal construída durante muitas décadas pelo poder público.

As pessoas estão mais inseguras em vacinar seus filhos por estarem expostas à desinformação que jorra do Planalto, das redes sociais, da Jovem Pan e de outros veículos alinhados ao presidente. O Brasil ainda é referência em cobertura vacinal mas, aos poucos, está se criando aqui também uma cultura antivacina como a dos EUA entre a população alimentada pela mesma estrutura de fake news que ajudou a eleger e a sustentar o bolsonarismo.

João Filho, The Intercept Brasil. 15 de Janeiro de 2022

Brasil. Os sinais de Washington

Em meio aos riscos crescentes da Covid-19, agora transmutada na variante Ômicron, mais rápida no contágio e com grau de letalidade ainda não totalmente definido, dois acontecimentos a oeste e a leste do mundo reavivaram a importância da Democracia como a melhor forma de convivência responsável entre os seres humanos. Nos Estados Unidos, em Washington, o presidente Joe Biden, eleito pelo Partido Democrata com mais de 3 milhões de votos de vantagem e com maioria no Colégio Eleitoral sobre o oponente do Partido Republicano, o então presidente Donald Trump, que tentava uma reeleição que dava como certa, mas foi perdendo o apoio popular pelo descaso como tratou os norte-americanos durante a pandemia da Covid-19, lembrava no dia 6 de janeiro, o aniversário da infame invasão do Capitólio, a casa que abriga a Câmara dos Representantes e o Senado dos Estados Unidos) pela horda de desordeiros e inimigos da Democracia instigados por Trump, na última tentativa de impedir, na marra e por golpe de Estado, a diplomação do presidente e da vice eleita (a senadora Kamala Harris), após recusadas em todas as instâncias judiciais no país as suas alegadas e fantasiosas acusações de fraudes nas eleições de novembro, na cerimônia que era presidida por Mike Pence, o então vice-presidente, que tem a prerrogativa de presidir o Senado em ocasiões especiais.

Do outro lado do mundo, no distante Kazaquistão, 9º país mais extenso do mundo, com 18 milhões de habitantes (equivalente ao Chile) e a 12ª produção de petróleo e gás, além de grandes reservas de urânio, um presidente reage cruelmente às manifestações de protestos da população contra a alta brutal dos combustíveis, ordenando que as tropas de segurança “atirem para matar”. E, acto contínuo, pede auxílio às forças da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, da qual faz parte juntamente com Rússia (federação Russa), Belarus, Tadjiquistão, Quirguistão e Armênia. Ou seja, as nações independentes que ainda mantém um cordão umbilical com a poderosa Rússia do novo Czar Vladimir Putin, que reagrupou a Federação Russa após o débacle da União Soviética, em dezembro de 1991, dois anos após a queda do Muro de Berlim, e a emancipação política dos países do leste europeu, que ficaram sob o domínio russo após a derrota das tropas de Hitler. Putin, que não mede esforços para retomar a força política de Moscou, ofuscada pela irresistível ascensão econômica da China, tratou de deslocar tropas para ocupar mais uma casa no tabuleiro mundial do poder, como tenta fazer na Ucrânia.

Os dois fatos têm um denominador comum: a Democracia está à prova. Não que o regime do atual presidente, Kassym-Jomart Tokayev, substituto do veterano Nursultan Nazarbayev (81 anos), que governou o país com mão de ferro após o fim da URSS e ainda tem grande influência no governo, caminhasse em direção à democracia. Mas o Kazaquistão e demais repúblicas que ficaram independentes após o desmoronamento da União Soviética têm um longo caminho a percorrer e precisam ser incentivados no rumo democrático.

São temas que devem ser refletidos no Brasil, que este ano irá às urnas para escolher seus novos governantes (no Executivo Federal e nos estados) e nas representações da Câmara, Senado e nas assembleias legislativas estaduais. O presidente Jair Bolsonaro não se cansou de fazer ameaças à Democracia, à Constituição e ao funcionamento dos poderes Legislativo e Judiciário ao longo de 2020 e 2021. Aparentemente, refluiu no intento do golpe no 7 de setembro do ano passado (pela falta da adesão esperada da população, que ficou entre 25% e 30% de seus cálculos para obter o “autorizo”, em Brasília e em São Paulo), e pela enérgica reação do Supremo Tribunal Federal, liderado pelo ministro Luiz Fux, que solicitou imediata proteção do Exército ao prédio do Supremo, cuja invasão era pregada pela turba bolsonarista, e, no comício da Avenida Paulista, quando disse que não obedeceria mais ao ministro Alexandre de Moraes. O STF e o Tribunal Superior Eleitoral, presidido por Luís Roberto Barroso, também fez veemente defesa da Democracia e das urnas eleitorais. Dois dias depois, com ajuda do ex-presidente Temer, Bolsonaro escreveu carta pedindo perdão a Moraes e negando que pregasse o golpe.

Aparentemente, refreou os ímpetos golpistas. Mas é preciso ficar atento e forte. Bolsonaro segue firme em sua tentativa de aparelhamento do Judiciário. O fortalecimento dos benefícios para as forças militares e policiais, sua força auxiliar para o golpe que as Forças Armadas ignoraram no ano passado. A intimidação crescente de dissidentes e adversários, incluindo os ataques sórdidos aos integrantes da Anvisa. A desqualificação das instituições sociais se acentua, como na saúde, educação, economia, cultura, meio ambiente, relações exteriores, e demais instituições. As pesquisas eleitorais e de desaprovação de seu governo indicam que, se as eleições fossem hoje Bolsonaro sofreria acachapante derrota nas urnas. Talvez no 1º turno. Mas ainda restam quase 10 meses até 2 de outubro. Pode se recuperar, com o peso da ação administrativa do governo focada no mais deslavado populismo. E ainda pode tentar imitar Trump, com a tentativa de golpe após uma derrota fragorosa. A história está aí viva a nos dar sinais de alerta de Washington. É melhor nem falar dos ensaios de golpe de Adolf Hitler. Os novos golpes de Estado que têm ocorrido se baseiam em três alicerces. 1 – a falência dos partidos políticos em resolver os problemas dos cidadãos; 2 – o aumento da desigualdade econômica que ocorre no mundo; 3 -a obtenção de privilégios para o grupo no poder devido às dificuldades econômicas e a crise ecológica que se instala. Quais os predicados faltam ao Brasil?

Gilberto Menezes Côrtes, Jornal do Brasil, 9 de Janeiro de 2022

Da defesa da identidade à xenofobia

A propósito dos imigrantes é relativamente frequente colocar-se a defesa da identidade das comunidades que os recebem como o limiar que marca os limites da sua integração.

Colocam-se então nomeadamente as questões levantadas pelas diferenças culturais, sociais e religiosas, delineando-se a partir daqui projetos de assimilação que esbarram, mais ou menos, conforme os referenciais em causa, com comportamentos de resistência dos grupos visados.

É verdade que estes processos de integração levantam dificuldades, desde logo dificuldades de compreensão recíproca em termos de linguagem e de costumes. Há inclusive valores em torno da cidadania como um valor político essencial das sociedades democráticas, o qual é inalienável. Mas é verdade também que a integração, convertida em assimilação, é olhada tantas vezes como devendo ser unilateralmente conduzida pela comunidade de acolhimento, a qual tende assim a impor a adaptação pura e simples como a atitude a assumir por quem chega.

Neste contexto, os imigrantes, se constituírem uma vantagem social e económica evidente pelo tipo, custo e quantidade de trabalho que executam, desde que não ponham em causa interesses instalados, serão bem recebidos, ou, talvez melhor, tolerados. Caso contrário, a bandeira da identidade pode ser rapidamente desfraldada. Uma identidade que, dentro da lógica da intolerância e da recusa da relação de alteridade como uma mais-valia, se torna ela mesma estática, ancilosada mais do que no presente, num passado idealmente sacralizado e, deste modo, imune perante os desafios de uma dinâmica construtiva que lhe estará a ser proporcionada e que, não sendo aceite, afinal a condena.

A identidade, de facto, até um certo ponto pode ser um fator propiciador de coesão e solidariedade. Contudo, se se tornar avessa à possibilidade de fomento do encontro de povos, culturas e, antes de tudo, de pessoas, instala-se paradoxalmente como propulsora de violência e de desencontros. De xenofobia.

Adalberto Dias de Carvalho, Jornal de Notícias, 4 de Janeiro de 2022